terça-feira, 27 de janeiro de 2026

 Safra de uva no RS deve crescer até 10% e ultrapassar 900 milhões de quilos

Condições de clima favoráveis impulsionam safra gaúcha de uva, que deve ter volume e qualidade em destaque

Condições de clima favoráveis impulsionam safra gaúcha de uva, que deve ter volume e qualidade em destaque

ANDERSON PAGANI/DIVULGAÇÃO/JC

Claudio Medaglia
Claudio MedagliaRepórterA safra de uva 2025/2026 no Rio Grande do Sul caminha para uma das maiores produções dos últimos anos, com expectativa de volume acima da média histórica e boas condições de qualidade. A estimativa preliminar da Emater/RS-Ascar aponta para até 905 milhões de quilos colhidos no Estado, resultado associado a um inverno com frio adequado, boa regularidade térmica e condições favoráveis ao desenvolvimento das videiras. O levantamento considera tanto uvas destinadas à indústria — para vinhos, espumantes e suco - quanto a produção de uvas de mesa, o que contribui para o volume total projetado.
O extensionista rural da Emater/RS-Ascar, Thompsson Didoné, avalia que o número de horas de frio acumuladas no inverno foi decisivo para uma brotação uniforme e boa formação dos cachos. Segundo ele, “em várias regiões do Estado, especialmente na Serra Gaúcha, superamos as 400 horas de frio abaixo de 7,2 °C, o que permitiu uma brotação muito uniforme e bom potencial produtivo”. Apesar de um atraso de 10 a 15 dias no início da colheita, em função de temperaturas mais baixas e menor insolação no início da primavera, a avaliação técnica é de que o alongamento do ciclo não comprometeu o potencial produtivo nem a qualidade das uvas.
Do ponto de vista econômico, a maior oferta volta a colocar no centro do debate a remuneração ao produtor. O coordenador da Comissão Interestadual da Uva, Ricardo Pagno, destaca que foi construído um acordo setorial envolvendo governo, cooperativas e indústria, que resultou na definição de um preço mínimo de R$ 1,80 por quilo para a uva Isabel com 15 graus Brix, índice que mede o teor de açúcares e serve de base para a remuneração ao produtor.
É um avanço em relação à safra passada, mas ainda muito próximo do custo variável médio, estimado em R$ 1,82 por quilo”, afirma. Segundo ele, o valor não contempla custos fixos nem margem para investimento, o que mantém a rentabilidade como um ponto de atenção.
Na avaliação dos produtores, o cenário de campo confirma uma safra robusta, embora com ajustes em relação ao volume total projetado. Pagno trabalha com uma estimativa próxima de 800 milhões de quilos destinados à indústria, acima de uma safra considerada normal, que gira em torno de 700 milhões de quilos. A diferença em relação à projeção da Emater está associada, principalmente, à inclusão da produção de uvas de mesa no número consolidado da safra estadual. “É uma safra acima da média, mas não é recorde. Tivemos anos em que o Estado chegou perto de 1 bilhão de quilos”, pondera.
Ele também relativiza o chamado atraso da colheita. Para o setor produtivo, o calendário atual está mais próximo do padrão histórico da viticultura gaúcha, enquanto as últimas safras é que foram antecipadas por condições climáticas atípicas. Ele indica que esse ajuste não trouxe aumento relevante nos custos de produção, já que o período de maturação costuma coincidir com a redução dos tratamentos no campo.
Em relação à sanidade e à qualidade, a avaliação dos produtores é positiva até o momento. Houve impacto pontual de chuvas mais intensas entre o Natal e o Ano Novo, principalmente em variedades precoces e áreas mais baixas, mas as uvas que entram agora no pico da colheita apresentam bom estado sanitário. O principal fator de atenção segue sendo o clima ao longo das próximas semanas.
Na indústria, o cenário é de preparação para absorver um volume maior de matéria-prima. A Cooperativa Vinícola Aurora, maior cooperativa do setor no País, estima receber cerca de 85 milhões de quilos de uva na safra 2025/2026, volume aproximadamente 10% superior ao de anos considerados normais e equivalente a cerca de 10% da produção estadual. O diretor industrial da cooperativa, Roberto Lazzarini, afirma que a empresa vem ampliando de forma contínua sua capacidade de recebimento, estocagem e logística. “Aprendemos com safras grandes do passado e hoje estamos estruturados para receber toda a produção dos nossos associados”, afirma.

 

Carga tributária e acordo Mercosul-UE estão no foco de atenção do setor

Vinícola Amitié  - Vinhos e Espumantes

Vinícola Amitié - Vinhos e Espumantes

Roberto Hunoff/Especial/JC
Segundo Lazzarini, a estratégia da cooperativa envolve maior envase durante o período de safra e ao longo do ano, de forma a diluir o impacto do pico produtivo. A avaliação inicial da qualidade da uva recebida é considerada dentro do esperado. “A uva que está chegando apresenta boa qualidade, e o resultado final vai depender muito das condições climáticas ao longo da colheita”, observa.
Além da safra, representantes do setor chamam atenção para desafios estruturais da cadeia vitivinícola, como a elevada carga tributária sobre vinhos e espumantes no mercado interno e os possíveis impactos do acordo entre Mercosul e União Europeia. Enquanto a indústria aponta oportunidades em segmentos como espumantes, vinhos brancos e suco de uva, produtores alertam para a necessidade de condições mais equilibradas de competição com países europeus, que operam sob sistemas agrícolas fortemente subsidiados.

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