
Surto de protecionismo exige que o Mercosul busque novos acordos de livre comércio
De uma hora para outra, o Brasil passou a enfrentar novas barreiras do México e da China
O surto de protecionismo que eclodiu a partir dos EUA sob Donald Trump torna mais justificado celebrar a aprovação pela União Europeia (UE) do acordo de livre comércio com o Mercosul, após 26 anos de idas e vindas. Restam obstáculos a vencer, é verdade. Ainda é necessária a chancela do Parlamento Europeu. Maior opositora do tratado, a França pode recorrer ao Tribunal de Justiça da UE e atrasar o processo. Mas a ampla maioria do bloco se posicionou de forma inequívoca na defesa do multilateralismo e dos ganhos mútuo por meio da integração comercial e do barateamento de importações e exportações.
Enquanto as tratativas para liberalizar o comércio são complexas e demoradas, o erguimento de entraves é rápido e unilateral.
O acordo beneficia o Brasil e o Estado. Conforme a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), tem o potencial de gerar um crescimento extra do PIB gaúcho de 4,6% em 15 anos. Cria-se, afinal, a maior zona de livre comércio do mundo, com 718 milhões de pessoas e uma riqueza somada de US$ 22,4 trilhões. Simboliza uma batalha relevante vencida contra o protecionismo. Mas a guerra segue sendo travada. É essencial, neste contexto, que o Mercosul persiga novas alianças do gênero. Neste momento, são 11 negociações em curso, em diferentes estágios.
Enquanto as tratativas para liberalizar o comércio são complexas e demoradas, o erguimento de entraves é rápido e unilateral. O acordo UE-Mercosul, por exemplo, tem prazo de 15 anos para ser plenamente implementado. Mas, de uma hora para outra, o Brasil passou a enfrentar novas barreiras. No dia 1° de janeiro entraram em vigor tarifas do México de até 50% para uma série de produtos de países com os quais não tem acordo de livre comércio. A indústria brasileira é das mais atingidas. No mesmo dia, começaram a valer salvaguardas para a carne bovina aplicadas pela China. Afetam várias nações, mas especialmente o Brasil, maior fornecedor da proteína para os chineses. O país terá cota de 1,106 milhão de toneladas sem tarifa adicional neste ano. O que exceder esse volume será sobretaxado em 55%.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) calcula que as barreiras do México afetarão US$ 1,7 bilhão em exportações. É um mercado de relativa importância para o RS. Foi o 10º principal destino dos embarques do Estado em 2025, com US$ 535,5 milhões. Máquinas e equipamentos são os bens mais vendidos pelos gaúchos. São setores já machucados pelas sobretaxas dos EUA. No caso da China, o impacto para o Brasil será de US$ 3 bilhões neste ano, segundo a Associação Brasileira dos Frigoríficos (Abrafrigo). O RS exporta pouca carne bovina para a China. Em 2025, a receita chegou a US$ 129,8 milhões. Ainda assim, o mercado nacional funciona em um sistema de vasos comunicantes, e dificuldades de escoar a oferta se refletem nos preços.
O Mercosul, cercado de desconfiança entre os sócios, pode ter deixado o pior momento de inércia para trás. Em 2023, fechou um acordo de livre comércio com Singapura, o primeiro desde 2011. No ano passado, fez o mesmo com a Associação Europeia de Livre Comércio (Efta, na sigla em inglês), formada por Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein. Negocia, neste momento, com países como Emirados Árabes Unidos, Canadá, Reino Unido, Japão e Índia. É hora de acelerar o diálogo.
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