segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

 Empresários alertam para risco de esvaziamento do 4º Distrito

Muitos prédios comerciais fechados na avenida Presidente Franklin Roosevelt

Muitos prédios comerciais fechados na avenida Presidente Franklin Roosevelt

TÂNIA MEINERZ/JC
Osni Machado
Osni MachadoColunistaApesar de concentrar uma das áreas mais estratégicas de Porto Alegre, com ligação direta ao Centro Histórico, ao aeroporto Salgado Filho, à rodoviária, à Freeway e às principais rodovias do Estado, o 4º Distrito vive um momento de forte apreensão entre empresários. O potencial logístico, produtivo e econômico da região contrasta com a percepção de abandono, insegurança e lentidão nas respostas do poder público, cenário que levou a Associação dos Empresários do 4º Distrito a intensificar a cobrança por ações estruturantes, com revisão do IPTU, investimentos em drenagem e reforço da segurança pública no centro da pauta.
Criada poucos dias após a enchente histórica de maio de 2024, a associação surgiu como resposta direta aos prejuízos provocados pelo evento climático. Segundo o presidente da entidade, Arlei Romeiro, a organização foi formalizada em menos de 10 dias para permitir um diálogo estruturado com os entes públicos. Atualmente, a associação reúne cerca de 300 associados ativos e mantém canais de comunicação que alcançam mais de duas mil empresas e moradores dos bairros São Geraldo, Floresta, Navegantes, Humaitá e Farrapos.
Romeiro afirma que, sem um tratamento diferenciado por parte dos governos municipal, estadual e federal, o 4º Distrito corre o risco de perder definitivamente seu protagonismo econômico. “Estamos falando de uma região que concentra indústria, comércio, serviços, polo gastronômico, cultural, cervejeiro e de inovação, além de ser um corredor fundamental de entrada e saída da cidade. Mesmo assim, o que vemos hoje é um processo de esvaziamento”, alerta. De acordo com o dirigente, muitas empresas não resistiram aos impactos da enchente e deixaram a região, o que ampliou ruas vazias, imóveis ociosos e a sensação de insegurança.
Os reflexos desse movimento vão além do ambiente empresarial. Romeiro chama atenção para o impacto social do fechamento de pequenos negócios. “Cada porta que se fecha representa, no mínimo, três empregos diretos. Quando 10 empresas encerram as atividades, estamos falando de cerca de 90 pessoas impactadas, entre trabalhadores e familiares, com efeitos diretos na arrecadação e no consumo”, avalia. Segundo dados da entidade, 4.299 empresas foram atingidas pela enchente apenas no 4º Distrito, o que, na avaliação dos empresários, representa um retrocesso de aproximadamente 10 anos no processo de desenvolvimento da região.
Entre as principais reivindicações está a revisão do IPTU. Os empresários questionam o aumento do imposto mesmo após a desvalorização dos imóveis atingidos pela enchente. “Foi anunciado um decreto com redutores, mas os carnês chegaram com majoração. A associação já realizou assembleia extraordinária e vai formalizar pedido de esclarecimentos à prefeitura”, afirma Romeiro, defendendo incentivos fiscais e isenções temporárias como forma de estimular a retomada econômica.
insegurança também aparece como fator decisivo para o afastamento de investimentos. Embora haja diálogo com a Brigada Militar, o presidente da associação aponta redução de efetivo e limitações operacionais. “Sem segurança e sem garantia de que não haverá novos alagamentos, ninguém investe”, resume, ao defender maior presença policial e apoio complementar da Guarda Municipal.
Essa percepção é compartilhada por empresários que atuam há décadas na região. Integrante da associação e com mais de 20 anos de atividades no 4º Distrito, Fabio Julio Ghessi afirma que o processo de deterioração antecede a enchente de 2024. Proprietário das empresas Drystore e Centersteel Engenharia, com três endereços na região, ele relata que problemas como abandono de vias estruturais, falta de investimentos urbanos e ausência de políticas públicas permanentes já faziam parte do cotidiano local. “A enchente apenas agravou uma situação que já era crítica”, afirma.
No início da manhã desta segunda-feira (19) também havia lixo em alguns pontos da avenida Farrapos   | TÂNIA MEINERZ/JC
No início da manhã desta segunda-feira (19) também havia lixo em alguns pontos da avenida FarraposTÂNIA MEINERZ/JC
Ghessi cita a avenida Farrapos como símbolo desse cenário. “É uma avenida icônica de Porto Alegre totalmente abandonada. Isso gera uma sensação permanente de descaso para quem vive e empreende aqui”, diz. Os três imóveis de suas empresas foram atingidos pela enchente, e, segundo ele, mesmo após quase dois anos, as obras de prevenção avançam em ritmo insuficiente. “Se as mesmas condições se repetirem, estaremos expostos da mesma forma”, alerta, ao mencionar a fragilidade do sistema de drenagem.
avenida Presidente Franklin Roosevelt foi outro ponto amplamente citado pelos empresários do 4º Distrito de Porto Alegre. Por se tratar de uma via estratégica, que corta os bairros Navegantes e São Geraldo — tradicional área comercial e industrial —, a região registrou, após a enchente, o fechamento de diversos estabelecimentos.
Para o empresário Luiz Alencar Carniel, proprietário da Nova Plásticos, os efeitos combinados da enchente e da insegurança aprofundaram a perda de competitividade da região. Segundo ele, o cenário já vinha se tornando mais difícil no pós-pandemia, mas o evento climático acelerou o fechamento de empresas. “A insegurança eleva custos, afasta clientes e dificulta a atração de novos investimentos. Sem um ambiente favorável de negócios, fica impossível manter empregos e seguir operando”, afirma.
Os empresários reconhecem intervenções pontuais realizadas pelo poder público, como melhorias em casas de bomba e ações de limpeza na rede pluvial e de esgoto, que reduziram alagamentos em pontos específicos. Ainda assim, avaliam que as medidas são insuficientes diante da relevância econômica do território, que concentra cerca de 1 mil CNPJs ativos e abriga o aeroporto da Capital. “A resposta não está à altura da importância logística e produtiva do 4º Distrito”, resume Ghessi.
Já a prefeitura de Porto Alegre informou que o 4º Distrito está contemplado no programa Centro+4D, que integra o POA Futura, lançado em dezembro de 2025. A iniciativa, financiada pelo Banco Mundial e pela Agência Francesa de Desenvolvimento, prevê € 162 milhões em investimentos (cerca de R$ 950 milhões na cotação atual), destinados a obras de infraestrutura, mobilidade, saneamento, reurbanização de espaços públicos, ampliação de áreas verdes e incentivo ao desenvolvimento socioeconômico
O poder público municipal destacou também que o contrato está efetivo e operacional, sendo que a fase de planejamento burocrático foi superada. O programa entrou na fase de execução, com o lançamento dos editais para as obras físicas prioritárias, estimadas em aproximadamente R$ 150 milhões (na cotação atual) para requalificação completa de ruas, calçadas e espaços públicos no Centro Histórico.
A prefeitura informou também que há recursos para revitalizar a avenida Farrapos. Serão investidos R$ 337 milhões na reconstrução de ruas impactadas pelas obras de macrodrenagem e requalificação das vias estruturadoras do transporte coletivo e terminais do Centro Histórico e do 4º Distrito. E que parcela deste recurso contempla a avenida Farrapos.
 A prefeitura informou que há recursos para revitalizar a avenida Farrapos  | TÂNIA MEINERZ/JC
A prefeitura informou que há recursos para revitalizar a avenida FarraposTÂNIA MEINERZ/JC
Ao longo deste ano, será realizado um estudo setorial de transporte. A conclusão deste estudo, segundo a prefeitura, é condição prévia para o início dos projetos e obras, passo necessário para que se tenha conhecimento técnico seguro sobre as próximas etapas. O levantamento subsidiará as definições finais referentes à avenida Farrapos, alinhando a intervenção às demandas atualizadas de mobilidade.
O investimento estimado para o 4º Distrito é de R$ 190 milhões. A prefeitura destacou que esta é a frente de Resiliência Climática do programa, prioridade absoluta após os eventos de 2024. E as principais ações são:
  • Proteção contra as cheias: com a construção e modernização da Casa de Bombas 3 (CB3), macrodrenagem e implantação de bacia de amortecimento. 
  • Urbanização: qualificação de cinco quilômetros de vias estratégicas do bairro. A prefeitura informou que a licitação será lançada no 1º semestre deste ano no modelo Design & Build (Contratação Integrada), que agiliza a entrega ao unificar projeto e obra numa única empresa. O prazo limite estimado para realização das ações do programa é dezembro de 2029.
O cronograma executivo está previsto para o 2º semestre deste ano, com a publicação dos editais de licitação das grandes obras.  o período de execução intensiva das obras de infraestrutura, drenagem e requalificação viária será de 2027 a 2029. 
Apesar do cenário adverso, os empresários reforçam que o potencial do 4º Distrito permanece intacto. Antes da enchente, a região registrava crescimento com a chegada de microcervejarias, bares, empresas de tecnologia e indústrias voltadas ao mercado nacional e internacional. “É uma região fundamental para Porto Alegre. Investir aqui não é gasto, é retorno em arrecadação, empregos e desenvolvimento”, conclui Romeiro, ao defender uma atuação coordenada entre Executivo e Legislativo, nas três esferas de governo, para evitar a perda definitiva do potencial econômico do território.

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