Brasil não perdeu bonde dos chips, dizem especialistas
Patricia Knebel
Com o crescimento da demanda por semicondutores e a reorganização das cadeias globais, as portas desse mercado, que pareciam fechadas para o Brasil, começaram a se abrir. A avaliação é do coordenador-geral de Tecnologia em Semicondutores do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Alessandro Augusto Nunes Campos.
“As pessoas falam que perdemos o bonde da microeletrônica, mas está mais do que provado que esse bonde anda em círculos e que, de tempos em tempos, novas oportunidades aparecem”, sustenta.
O MCTI está finalizando um estudo interno com foco em estabelecer uma estratégia brasileira de semicondutores. A avaliação, que será encaminhada para avaliação da Casa Civil, segue uma estruturação semelhante ao Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) 2024-2028, que traça diretrizes para o desenvolvimento de soluções de IA, entre elas, a criação de um supercomputador de alta performance.
A área de microeletrônica pode ter um plano na mesma linha do PBIA, antecipa Campos. A estratégia procura melhorar a competitividade do Brasil no mercado global e está ancorada em quatro pilares: formação de talentos, revisão regulatória (como a reformulação de programas como o Padis), apoio à pesquisa e desenvolvimento (P&D), e financiamento.
“Os Estados Unidos, a Europa e a Ásia não têm recursos humanos suficientes para atender à demanda do mercado de semicondutores, e essa é uma área em que o País se qualifica”, aponta.
Outro enfoque para o país é atuar com projetos avançados em áreas específicas, focando especialização em nichos estratégicos. Um exemplo desse movimento é a decisão recente da Ceitec, que está migrando suas operações, antes voltadas para fabricação de dispositivos CMOS, para a de semicondutores de Carbeto de Silício (SiC), de alta potência, que são usados em sistemas de conversão de energia (incluindo a fotovoltaica).
“É um novo mercado que avança no Brasil e permite que a Ceitec seja uma fornecedora global”, argumenta o coordenador-geral de Tecnologia em Semicondutores do MCTI.
As soluções para inteligência artificial também entram nessa análise. Inclusive, há convergência entre as estratégias de IA e microeletrônica. Dentro do PBIA, inclusive, existe uma ação de desenvolvimento local no Brasil de semicondutores para IA, de tal forma que o Brasil consiga não ser 100% independente, mas que tenha domínio dessa tecnologia.
Na parte de financiamento, a ideia é assegurar mais recursos por meio de linhas específicas do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep).
O edital de R$ 100 milhões para startups e empresas da área de design e de package (encapsulamento) no Brasil, lançado em 2024, se esgotou rapidamente. “O sucesso foi tanto que vamos tentar replicar”, salienta Campos.
Empresas como a Adata e a Zilia captaram quase R$ 1 bilhão no BNDES para fazer a ampliação da sua infraestrutura industrial. Aliás, atualmente, HT Micron, Zilia e Adata dominam o mercado de memórias nacional. Com o crescimento das High Bandwidth Memories (HMB), para servidores de IA, essas empresas têm um mercado excelente à frente. Outro foco pode ser atrair ou criar outras empresas, para focar em componentes de não memórias, como energia, automotivo e telecom.
“A Malásia se desenvolveu, nos últimos 50 anos, como um hub de encapsulamento e testes, enquanto Taiwan, por conta da TSMC, num hub de front-end. O Brasil pode investir na direção inicial da Malásia e se fortalecer para entrar no front-end de forma relevante no mercado global mais adiante”, acredita o CEO da Tellescom Semicondutores, Ronaldo Aloise Júnior.
Desde 2023, foram financiados pela Finep R$ 525 milhões em 27 projetos relacionados a semicondutores, entre as modalidades reembolsável e não reembolsável.

Luiz Antônio Elias, presidente da FinepFinep/Divulgação/JC
“Os semicondutores são componentes estratégicos para o desenvolvimento nacional”, destaca o presidente da Finep, Luiz Antônio Elias.


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