sábado, 31 de janeiro de 2026

 Rio Grande do Sul registra em 2025 quinto ano seguido de superávit orçamentário 

Representantes da Fazenda (Sefaz) apresentaram Relatório de Transparência Fiscal nesta sexta-feira (30)

Representantes da Fazenda (Sefaz) apresentaram Relatório de Transparência Fiscal nesta sexta-feira (30)

Robson Nunes/Ascom Sefaz/Divulgação/JC
Bolívar Cavalar
Bolívar CavalarRepórter
As contas do Rio Grande do Sul fecharam no azul em 2025, com superávit orçamentário de R$ 2,7 bilhões, considerando as despesas e receitas durante o exercício - são desconsideradas, no entanto, as transferências intraorçamentárias entre órgãos estaduais e para municípios gaúchosresultado positivo é superior ao ano anterior, marcado pelas cheias históricas de maio de 2024 e em que o Estado registrou resultado positivo de R836 milhões. 
resultado positivo foi inferior, porém, a exercícios anteriores, como 2023 (R$ 3,6 bilhões) e 2022 (R$ 3,3 bilhões), e superior a 2021 (R$ 2,5 bilhões). O superávit também contraria a Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovada na Assembleia Legislativa para o ano de 2025, que previa déficit R$ 2,8 bilhões.  
O fechamento das contas no azul se dá por uma série de motivos, conforme explicaram o secretário da Fazenda adjunto, Itanielson Dantas Cruz, e o Contador e Auditor-Geral de Assuntos de Contabilidade, Felipe Bittencourt, em apresentação do Relatório de Transparência Fiscal (RTF) da Secretaria Estadual da Fazenda (Sefaz) nesta sexta-feira (30).  
Os principais destaques são a suspensão do pagamento de parcelas da dívida do Rio Grande do Sul com a União até abril de 2027, em razão da Lei Complementar (LC) 206/2024, instituída após a calamidade das cheias de 2024, e de receitas extraordinárias obtidas pelo Estado, como o programa de renegociação de dívidas tributárias Refaz Reconstrução, os rendimentos do Caixa Único e operações de crédito efetuadas. 
Estes efeitos são temporários e, caso não fossem contabilizados, o governo gaúcho registraria déficit orçamentário ajustado de cerca de R$ 4,7 bilhões. 
“O resultado primário parece estar ruim, mas na verdade é uma questão conceitual. No resultado orçamentário, que é o que a gente tem de fato um resultado bem positivo, que olha todas as receitas e todas as despesas, a situação do Estado foi positiva, com superávit em 2025”, explicou o adjunto da Sefaz. 
Um destaque é que o déficit previdenciário do Rio Grande do Sul superou em 2025, pela primeira vez, a marca de R$ 10 bilhões, com o registro de R$ 10,1 bilhões, com um aumento de 4% em relação a 2024 (R$ 9,8 bilhões), resultado inferior à inflação de 4,26% registrada no ano passado 
Quanto à Receita Corrente Líquida (RCL) do Estado, ela cresceu de cerca de R$ 5,2 bilhões, ou 8,8%, e chegou aos R$ 65,2 bilhões. "Um dos principais fatores foi o aumento da receita tributária líquida, também relacionado aos programas Refaz Reconstrução. Também teve a questão dos rendimentos das aplicações financeiras, que foram bastante impactantes neste exercício, incluindo cerca de R$ 1 bilhão que foram reconhecimento de receitas retroativas", afirmou Bittencourt. A receita tributária líquida foi de R$ 43,7 bilhões, crescimento de 8% em relação a 2024.  
O aumento percentual da RCL foi inferior, no entanto, ao crescimento da despesa de pessoal, que cresceu cerca de 9,9% e chegou a 44,16% da Receita Corrente Líquida, ainda abaixo do limite prudencial de 46,55% estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). 

Gastos com reconstrução após as cheias alcançam R$ 9,8 bilhões 

Desde maio de 2024, quando o Rio Grande do Sul pelas cheias históricas que deixaram parte do Estado debaixo d’água, despesa empenhada com a reconstrução foi de cerca de R$ 9,8 bilhões. A principal origem de recursos é o Funrigs, fundo criado após a calamidade para financiar os esforços para compensar as perdas, e que destinou R$ 7,9 bilhões para este fimO R$ 1,9 bilhão restante é oriundo de outras fontes.  
Os recursos do Funrigs são adquiridos através da LC 206/2024, que suspendeu os pagamentos do passivo gaúcho com a União. As parcelas da dívida que deveriam ir ao ente federal são repassadas para este fundo 
Os R$ 7,9 bilhões do Funrigs, entretanto, são inferiores aos atuais valores presentes no fundoForam destinados até agora para este fundo R$ 6,7 bilhões, sendo que R$ 6,2 bilhões são efeito da suspensão da dívida com a União. Isso significa que há um saldo negativo de R$ 1,17 bilhão nFunrigs 
“Isso não é preocupante. Por quê? Porque esta destinação é a fase do empenho, então até que o fornecedor entregue o serviço ou bem, até que se concluam todas as fases da despesa vão entrar os recursos, principalmente da postergação da dívida com a União. Então este número não nos preocupa, porque a gente tem certeza que vai ter recursos para fazer frente às despesas já assumidas”, explicou o Contador e Auditor-Geral de Assuntos de Contabilidade da Fazenda. 

Mínimos constitucionais são cumpridos, mas com despesas controversas 

O governo gaúcho cumpriu os mínimos constitucionais de 25% da Receita Líquida de Impostos e Transferências (RLIT) para a educação e de 12% da RLIT para a saúde. O cumprimento, porém, só foi possível em razão das chamadas despesas controversas, que são especialmente relacionadas a contribuições previdenciárias de inativos e pensionistas e que constantemente são motivo de questionamentos de órgãos de controle.  
Se forem desconsideradas as despesas controversas, o Rio Grande do Sul não cumpriu os mínimos. Neste cálculo, foram destinados 20,66% da RLIT para a educação e 9,83% para a saúde 
Para evitar complicações envolvendo estas despesas controversas, o governo de Eduardo Leite (PSD) firmou um acordo com o Ministério Público do Estado (MPE) para que sejam postergadas em 15 anos o cumprimento do mínimo constitucional da educação e em 6 anos o mínimo constitucional da saúde. 
Dívida com a União e adesão ao Propag 
Apesar de os pagamentos da dívida do Rio Grande do Sul com a União estarem suspensos até abril de 2027, em razão da LC 206/2024, a correção monetária do estoque, calculada pela inflação oficial registrada desde o início da catástrofe climática, resultou em um aumento do passivo de R$ 6,3 bilhões em 2025, chegando a R$ 106,5 bilhões. Se não fosse a lei complementar, a dívida crescimento estimado pelos encargos originais seria de R$ 16,8 bilhões e o estoque total chegaria a cerca de R$ 117 bilhões 
Para quitar esta dívida, o Estado oficializou ao fim de 2025 o seu ingresso ao Programa de Pleno Pagamento das Dívidas dos Estados (Propag), novo programa de renegociação da dívida lançado pelo governo federal como uma forma de substituir o atual Regime de Recuperação Fiscal (RRF). Por conta da LC 206/2024, porém, a adesão ao programa deve ocorrer apenas a partir de maio de 2027, quando a vigência da lei complementar tiver encerrado.  
O Rio Grande do Sul tinha oito modalidades de escolha para aderir ao Propag.  A selecionada foi a opção em que o Estado aportou 20% do total do estoque da dívida - ou R$ 21,307 bilhões - como uma amortização inicial para ingressar na modalidade que tem 0% de juros reais, além da compensação de 1% em investimentos prioritários no próprio Rio Grande do Sul – em maioria em educação e infraestrutura – e 1% para o Fundo de Equalização Federativa (Fef), que será criado para compensar os entes menos endividados com a União. 
Os representantes da Sefaz explicaram que o montante de R$ 21,307 bilhões para a amortização inicial foi adquirido através de três frentes: uma ação judicial que o Estado tem com a Corsan R$ 1,848 bilhões -, receitas do Fundo Nacional de Desenvolvimento Regional (FNDR) - R$ 6,637 bilhões - e receitas do Fundo de Participação dos Estados (FPE) - R$ 12,822 bilhões. Nos casos dos recursos oriundos destes dois fundos, o Rio Grande do Sul se comprometeu a deixar de receber 18,78% dos valores do FNDR a serem recebidos entre 2029 e 2055, 4,89% do FPE entre 2032 e 2039, e 9,77% do FPE entre 2040 e 2056.

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