terça-feira, 13 de janeiro de 2026



13/01/2026 - 00h01m
Ticiano Osório 

O suspense erótico feito em Porto Alegre é um filmaço

Ator e político vivem romance às escondidas em "Ato Noturno" (2025), que estreia nesta quinta (15) nos cinemas. Leia entrevista com os diretores Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Gabriel Faryas e Cirillo Luna estrelam "Ato Noturno" (2025), filme de Filipe Matzembacher e Marcio Reolon.

Um filmaço ambientado em Porto Alegre estreia nos cinemas da Capital nesta quinta-feira (15). É o suspense erótico Ato Noturno (2025), terceiro longa-metragem assinado pelos diretores e roteiristas Filipe Matzembacher, 37 anos, e Marcio Reolon, 41. 

Os três filmes da dupla porto-alegrense competiram no Festival de Berlim, um dos principais do mundo. O primeiro título, Beira-Mar (2015), foi exibido na mostra Fórum. Na trama, dois jovens viajam ao litoral do RS, no inverno, para buscar documentos na casa de parentes. Na jornada, os dois amigos tentam se reaproximar enquanto lidam com emoções e experiências típicas da idade.

Tinta Bruta (2018) concorreu na mostra Panorama e recebeu o prêmio Teddy, dedicado ao melhor filme com temática LGBTQIA+. Conta a história de um jovem que tenta sobreviver em meio a um processo criminal, à partida da irmã e única amiga e aos olhares que recebe sempre que sai na rua. Sob o codinome Garoto Neon e com o corpo coberto de tinta, ele faz performances eróticas no escuro do seu quarto para milhares de anônimos ao redor do mundo, pela internet. 

"Ato Noturno" no Festival de Berlim de 2025: Henrique Barreira, Jessica Luz, Marcio Reolon, Filipe Matzembacher, Gabriel Faryas, Paola Wink, Ivo Müller e Cirillo Luna.

Ato Noturno também foi selecionado para a mostra Panorama. O filme acompanha um ator e um político que vivem um caso em sigilo enquanto buscam ascender em suas carreiras: Matias (interpretado por Gabriel Faryas) e Rafael (encarnado por Cirillo Luna). 

Matias, que recém estreou um espetáculo teatral no qual divide cenas com seu colega de apartamento, Fábio (personagem de Henrique Barreira), persegue a oportunidade de estrelar uma grande série que vai ser gravada em Porto Alegre. Rafael, apoiado por empresários e escudado pelo chefe de segurança, Camilo (vivido por Ivo Müller), é candidato a prefeito e vem subindo nas pesquisas eleitorais. 

Os dois personagens precisam ser discretos, mas há um elemento extra e explosivo de tensão: o tesão pelo sexo em lugares públicos de Porto Alegre. Pode ser no Parque da Redenção, por exemplo, ou em um morro da cidade. As cenas combinam sedução e ameaça, características realçadas pela direção de fotografia de Luciana Baseggio, pela montagem de Germano de Oliveira e pela trilha sonora de Arthur Decloedt, Thiago Pethit e Charles Tixieras.

Produzido por Jessica Luz e Paola Wink, sócias da Vulcana Cinema, com Matzembacher e Reolon, Ato Noturno conquistou quatro troféus no Festival do Rio: melhor ator (Gabriel Faryas), melhor roteiro, melhor fotografia e o prêmio Félix — destinado a produções LGBTQIA+ — de melhor filme. 

Vale prestar atenção também na direção de arte assinada por Manuela Falcão e nos figurinos de Carolina Leão. Assídua nas roupas e nos objetos ligados ao Matias, a cor vermelha tanto remete à paixão, ao sangue que nos mantêm vivos, quanto à morte e ao perigo.

— O vermelho estava presente desde o roteiro, na descrição dos figurinos, nas cortinas do teatro, no sangue — disseram os cineastas Filipe Matzembacher e Marcio Reolon em entrevista à coluna (leia mais logo abaixo). — O vermelho brilha ao revelar os sentimentos intensos de Matias, que desembocam em luz, tesão e violência. É uma cor que unifica o filme, sempre se mostrando muito presente quando entra em cena. O vermelho é como o Matias: pulsante, vivo e impossível de se esconder.

"O tesão é político e é desestabilizador. E por isso é tão atacado"

Por e-mail, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, diretores e roteiristas de Ato Noturno, concederam a seguinte entrevista, na qual falam sobre temas e inspirações do longa e sobre o protagonismo de Porto Alegre:

Os dois personagens principais de Ato Noturno são um ator e um político, duas profissões que dependem muito — ou até fundamentalmente — da imagem, tanto a que se quer passar quanto a que é percebida pelo público. Vocês podem falar sobre como surgiu a ideia do filme e sobre essa questão das máscaras sociais que todos, em maior ou menor grau, precisamos vestir? Em nome das nossas ambições, anulamos nossas identidades?

Tudo é teatro. Esse foi o ponto de partida para a criação do filme. Dois homens que atuam em palcos diferentes: o teatro e a política. E, em nome da ambição, eles performam vidas que sufocam seus desejos e quem se é. Para alcançar uma ideia neoliberal de sucesso, muitas pessoas se veem pressionadas a se "higienizar", a abrir mão de suas individualidades e viver outros personagens. Mas o desejo não desaparece, ele sempre retorna com força. E é desse embate que surge Ato Noturno.

Eu li que, durante conversa com o público na Mostra Internacional de São Paulo, vocês falaram sobre a aproximação de Ato Noturno com os thrillers eróticos da Hollywood dos anos 1980 e 1990, como aqueles dirigidos por Brian De Palma, tipo Vestida para Matar e Dublê de Corpo. O filme de vocês inclusive emprega algumas técnicas características de De Palma, como o zoom e a tela dividida. Podem falar mais sobre como Ato Noturno se conecta àqueles filmes?

Os filmes de suspense de De Palma, de Paul Verhoeven (diretor de Instinto Selvagem, 1992) e até de Hitchcock, em certa medida, sempre relacionaram desejo e perigo. E em Ato Noturno também fazemos essa conexão. Os personagens são guiados pelo desejo, em um universo escuro, corrupto e cheio de riscos. A ideia da teatralidade é algo bastante caro para De Palma e também é central para nós. Se os personagens são atores, o próprio filme brinca com a ideia de palco e encenação, tensionando realidade e representação. Mas, claro, apesar desses diálogos, nosso olhar tem um ponto de vista contemporâneo, brasileiro e dissidente. Em vez do voyeurismo clássico, nos interessou explorar o exibicionismo, a afirmação do desejo como força narrativa e política, repensando o gênero para outras possibilidades.

Em Tinta Bruta, Porto Alegre era uma antagonista. Mas em Ato Noturno, a cidade é uma femme fatale: perigosa e sedutora, esconde algo mas provoca.

Os personagens Matias e Rafael precisam levar às escondidas seu relacionamento, mas me parece que o sigilo é menos por ser um relacionamento gay e mais pela forma com que os dois personagens vivem plenamente o seu desejo e alcançam prazer: ambos têm fetiche pelo sexo em lugares públicos, o que por si só gera um conflito em relação às personas que devem apresentar. Essa restrição chega a ser explicitada em um diálogo do filme. Vocês podem falar sobre liberdade sexual e repressão ao tesão?

O desejo tem sido bastante perseguido. Numa tentativa de se enquadrar na sociedade conservadora e cis-heterossexual, muitas pessoas (LGBTs e também não-LGBTs) reprimem seus desejos, suas performances sociais e sexuais, tentando negociar pertencimento. No filme, os personagens exploram seus desejos de forma a libertar o que reprimem. E isso é central: não abrir mão de quem se é por uma aceitação condicionada. O tesão é político e é desestabilizador. E por isso é tão atacado. E nós vemos isso em uma onda conservadora, que tenta uniformizar todos, em todas suas formas de expressão: da roupa às performances e aos desejos. 

Coincidentemente, Ato Noturno veio à luz na mesma época em que houve o compartilhamento nas redes sociais de dois casos de sexo ao ar livre no Rio de Janeiro que reuniram dezenas de pessoas, um na Pedra do Arpoador e o outro em Búzios. Em Porto Alegre, praças públicas têm sido cenário do chamado cruising. Vocês podem falar deste assunto? É como se fosse uma resposta da comunidade gay a décadas, séculos de cerceamento?

Cruising não é uma experiência recente. Atravessa séculos de história e tem um diálogo claro com contextos de repressão e criminalização de alguns desejos. É uma prática que mistura política, performance e erotismo, mas também risco e vulnerabilidade. Em muitos momentos históricos, ocupar o espaço público para o desejo foi a única possibilidade de encontro para muitas pessoas (especialmente para homens gays e bissexuais). Em Ato Noturno, isso aparece não como fetiche isolado, mas como parte de um sistema maior de encenação social.

Ato Noturno, como o título sugere, investe bastante em cenas na noite de Porto Alegre. A cidade aparece tanto como sedutora quanto como ameaçadora, às vezes no mesmo momento. Gostaria que vocês falassem sobre os cenários do filme, sobre o trabalho da diretora de fotografia Luciana Baseggio e sobre como foi produzir e realizar as cenas na Redenção.

Foi lindo pensar na cidade para esse filme. Em Tinta Bruta, ela era uma antagonista. Mas em Ato Noturno, Porto Alegre é uma femme fatale: perigosa e sedutora, esconde algo mas provoca. É uma cidade que pede por vida. Então exploramos o jogo entre os espaços privados (como apartamentos, casas) e os públicos: praças (como a Redenção e a Matriz), Theatro São Pedro e Teatro Renascença, a Avenida Mauá e tanto outros espaços icônicos da cidade, transformando-os em ambientes tomados por desejo. 

Traduzimos espaços tão comuns aos gaúchos para o universo perigoso e sedutor do filme. Além disso, a Luciana Baseggio e a Manuela Falcão (diretora de arte) nos ajudaram a construir esse espaço público que joga com a cidade, suas texturas e seus jogos de luzes, que muitas vezes parece um palco de teatro. Concebemos as ruas da cidade como uma extensão dos palcos, com luzes elaboradas e composições caprichosas. Se público e privado se misturam na história, a noção de realismo e teatralidade também.

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