A nova força do empreendedorismo feminino
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Ana Fritsch
Especial para o JC*
O empreendedorismo feminino se consolidou como uma potência da economia brasileira, graças às mulheres que conseguem transformar os desafios em oportunidades para inovar, criar estratégias e gerar um impacto positivo na comunidade. Atualmente, elas são responsáveis por aproximadamente 35% dos negócios no País, ou seja, são mais de 10,4 milhões de empreendedoras. Para abordar este cenário, a reportagem conversou com mulheres com trajetórias diversas, como Iva Cardinal, que durante 17 anos esteve à frente da Confraria do Batom; Fabiane Rittes (ao centro na foto), diretora criativa da Lizáli, que transformou lives em motor de varejo digital; Ariane Ermel, diretora do Grupo Aniger; e Carla Tellini, fundadora, CEO e head criativa do Grupo Press.
O empreendedorismo feminino deixou de ser exceção para se tornar força estruturante da economia brasileira. Em números, o avanço impressiona; na prática, ele se traduz em histórias de coragem, colaboração e permanência. De mulheres que criaram redes antes mesmo de se falar em ecossistema, que atravessaram crises profundas reinventando modelos de negócio, e que ocupam posições estratégicas em setores historicamente masculinos sem fazer disso um manifesto, mas resultado.
Hoje, mais de um terço dos negócios do País é comandado por mulheres. No Rio Grande do Sul, elas já respondem por quase metade dos novos CNPJs abertos. Mas os dados, por si só, não explicam o fenômeno. Por trás deles estão trajetórias marcadas pela necessidade de conciliar múltiplos papéis, pelo esforço de acessar crédito, construir redes de apoio e, muitas vezes, provar competência em dobro. Ao mesmo tempo, há uma geração de empreendedoras altamente qualificadas, conectadas, inovadoras e dispostas a mudar a lógica tradicional do mercado.
Esta reportagem especial percorre esse cenário a partir de diferentes perspectivas: do olhar analítico sobre o crescimento do empreendedorismo feminino no Estado, às experiências concretas de mulheres que criaram coletivos, transformaram o varejo digital, lideram grandes indústrias e comandam grupos empresariais consolidados. Histórias distintas, mas atravessadas por pontos em comum — propósito, consistência, capacidade de adaptação e a convicção de que empreender, para muitas mulheres, é também um ato de construção coletiva.
Conforme o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) do Rio Grande do Sul, o País conta com mais de 10,4 milhões de mulheres empreendedoras, o maior número já registrado, representando cerca de 35% de todos os negócios.
No Rio Grande do Sul, mais de 600 mil mulheres estão à frente de empresas. Dados da Junta Comercial, Industrial e Serviços do Rio Grande do Sul (JucisRS) apontam que, em 2024, 101,7 mil novos CNPJs foram abertos por mulheres, número que corresponde a 44,7% de todos os novos negócios do Estado.
Para a analista de Empreendedorismo Feminino do Sebrae/RS, Susana Strhorer, os dados revelam mais do que crescimento numérico, mostram uma transformação estrutural. O Global Entrepreneurship Monitor (GEM 2024) aponta que as mulheres representam 46,8% dos empreendedores iniciais (negócios até 3,5 anos).
A presença feminina também cresceu entre os negócios estabelecidos (negócios com mais de 3,5 anos de atividade). "No Estado, conforme a pesquisa publicada em fevereiro de 2025, 59% das mulheres empreendedoras têm Ensino Superior ou Pós-graduação, e cerca de 60% estão na faixa dos 30 a 49 anos", exemplifica Susana.
As motivações que levam as mulheres a empreender são diversas, mas algumas se repetem. Susana afirma que a busca por flexibilidade e autonomia é central, especialmente porque 67% das empreendedoras brasileiras são mães, e a necessidade de conciliar maternidade com o mercado de trabalho ainda pesa. "No Rio Grande do Sul, muitas mulheres empreendem tanto por desejo de crescimento pessoal quanto pela capacidade de identificar oportunidades, além da urgência de gerar renda ou superar ambientes profissionais que ainda não valorizam plenamente a presença feminina", diz.
Susana ressalta, ainda, que mesmo com o avanço, os desafios continuam expressivos, como a dupla ou tripla jornada, acesso a crédito ainda desigual, falta de redes de apoio e ambientes de negócios ainda masculinos, especialmente em setores tradicionais.
Para conseguir se destacar, a analista acredita que alguns passos são cruciais, como a profissionalização e a formação contínuas. "O Rio Grande do Sul mostra que as empreendedoras têm alto nível de escolaridade, cerca de 59% com Ensino Superior", aponta. Também é fundamental ter comunidades e redes de apoio e buscar a constante inovação e posicionamento estratégico. Por fim, apostar em marketing digital e construção de relacionamento e posicionamento com autenticidade.
Dentro deste cenário, o Sebrae tem diversas ações de apoio ao empreendedorismo feminino. Nacionalmente, promove o Prêmio Sebrae Mulher de Negócios, que destaca e dá visibilidade a empreendedoras do País. Também tem uma parceria com a Revista Exame, o Projeto Construindo Futuros, que aborda os desafios e conquistas do empreendedorismo feminino no Brasil. Em nível de Brasil conta, ainda, a Rede Mulher Empreendedora (RME), de capacitação, aceleração e networking para mulheres.
No Rio Grande do Sul, Susana destaca o Avança Mulher Empreendedora, incentivo e apoio à abertura de empresas lideradas por mulheres; e o Sebrae Delas RS, movimento com foco em capacitação, orientação, redes de apoio e crescimento dos negócios femininos.
Confraria do Batom, o projeto do coração de Iva Cardinal
Em sua trajetória, a consultora empresarial Iva Cardinal já atendeu grandes empresas internacionais e viajou pelos quatro cantos do mundo para auxiliar na reestruturação e prospecção de negócios. Mãe da Maria Clara, de 16 anos, e do Benício, de 14, nascidos em Porto Alegre, foi também na capital gaúcha que ela implementou outro grande projeto afetivo, há 17 anos: a Confraria do Batom.
Fundada em 2009, a Confraria é um dos movimentos de empreendedorismo feminino mais importantes do Rio Grande do Sul e o mais longevo. Iva explica que o coletivo nasceu a partir da necessidade de criar um espaço de troca, onde as mulheres pudessem ampliar seus contatos e, inclusive, fazer negócios. "O movimento começou informal e evoluiu rapidamente. Percebi que a Confraria trazia algo muito importante para as mulheres em todas as esferas da vida: a autoconfiança", diz.
A Confraria do Batom foi se profissionalizando, ganhou um CNPJ e muitas confrades fiéis, como são chamadas as participantes do movimento. Desde o início, os encontros são mensais, e nunca deixaram de acontecer. Nem mesmo durante a pandemia, quando se tornaram virtuais. "Sempre tive o compromisso de manter as reuniões, pois acredito muito no poder da união e da colaboração", ressalta a empresária.
"Fomos pioneiras em muitas coisas, como a criação do primeiro coworking exclusivamente para mulheres de Porto Alegre, ou o primeiro clube de networking feminino do Sul do Brasil", comenta. Toda essa organização inspirou diversos movimentos similares. Iva estima que, atualmente, haja mais de 30 coletivos em Porto Alegre e na Região Metropolitana. Conforme ela, mais de 3.500 mulheres participaram presencialmente dos eventos, e cerca de 10 mil foram alcançadas pelas ações, como palestras e lançamentos de livros, sem considerar a abrangência da temporada em que tiveram seu próprio programa de TV.
A empresária ressalta que, ao decidir empreender, é preciso virar a chave. Para ela, o ambiente do empreendedorismo é muito diferente do corporativo. No empreendedorismo, a colaboração e a troca de ideias são fundamentais para a sobrevivência do negócio. "Empreender sozinha é um caminho muito mais difícil", argumenta.
Questionada sobre o que se deve fazer antes de começar a empreender, ela reforça a necessidade de buscar o autoconhecimento. "O primeiro passo é entender quem eu sou, o que me move, qual a minha rede de apoio, qual é a causa que me toca, como lido com o risco, como gerencio meu tempo. Se me conheço bem, sei minhas habilidades e minhas fragilidades, e posso enxergar quais caminhos seguir." Para ela, saber admitir os próprios limites é igualmente importante. "Empreender não é para todo mundo — e tudo bem. Há quem precise de previsibilidade, quem não se sinta confortável vendendo, cobrando ou se comunicando. Isso não invalida a pessoa. Apenas mostra que existem outras rotas possíveis."
O segundo elemento sublinhado por Iva é ter coragem: a coragem de começar, de se expor, de tomar decisões e de saber que vai errar muitas vezes. O terceiro, mas não menos importante, é compreender a própria relação com o risco. "Empreender é arriscar. É possível minimizar os riscos com um bom plano de negócios, mas eles nunca desaparecem. O risco é inerente."
Iva também aborda o momento de parar — uma decisão tão difícil quanto estratégica. "Em algum ponto, é preciso avaliar se ainda faz sentido, se ainda há propósito, energia e possibilidade de impacto." Emocionada, conta que se despediu oficialmente deste projeto em um jantar de confraternização realizado em dezembro de 2025. "Mais do que fundar a Confraria do Batom, acredito que ajudei a derrubar paradigmas. Já abri caminhos, já criei uma cultura. Hoje temos dezenas de grupos femininos. E esse é o maior sinal de que a Confraria cumpriu seu papel."
Como as lives transformaram a Lizáli em um case nacional de varejo digital
Uma vez por semana, às 19h, as "lizalóvers" se reúnem no Instagram da Lizáli. Esse encontro semanal, iniciado ainda em 2021, tornou-se o motor de crescimento da marca e o principal símbolo da virada digital conduzida por Fabiane Rittes, diretora criativa e terceira geração à frente da grife fundada há mais de 30 anos por Áurea Richter, em Chapada (RS). O que começou como uma experiência improvisada durante a pandemia evoluiu para um modelo de vendas estruturado, com estratégia, calendário fixo e impacto direto no faturamento.
A trajetória física da Lizáli acompanha a expansão natural do negócio: a primeira loja em Porto Alegre foi inaugurada em 2013, com 35 m²; depois em novo endereço ampliou para 45 m² em 2018; e, desde 2023, ocupa um espaço de 220 m² na Rua 24 de Outubro. A equipe reúne cinco funcionárias na Capital e outras 13 na fábrica de Chapada, onde 80% das peças são produzidas internamente. Mas o salto mais relevante veio do digital. Hoje, as vendas se apoiam em dados e se distribuem entre site, WhatsApp, Instagram, TikTok e loja física. Fabiane explica que a virada começou antes mesmo das restrições sanitárias do Covid-19. Em janeiro de 2020, ela ingressou em um grupo de e-commerce do Sebrae-RS para entender o mercado online. Quando foi decretada a pandemia, a empresa precisou acelerar mudanças. "Existe uma Lizáli antes e depois da pandemia. Fiquei imersa estudando, aprendendo, testando, entendendo o que era gestão de dados", conta.

Fabiane conduziu a virada digital da grife fundada há mais de 30 anosFABIOLA CORREA/JC
A primeira guinada surgiu com a produção de máscaras de tecido. Motivada por reportagens sobre costureiras que estavam criando máscaras com grande volume de retalhos guardados, Fabiane decidiu testar. As vendas ajudaram a amenizar o impacto do fechamento do comércio. Em seguida, vieram peças confortáveis e pijamas, vendidas inicialmente pelo WhatsApp. Em agosto de 2020, ela testou a primeira live, sem estratégia definida, apenas mostrando produtos. No segundo lockdown, em março de 2021, com estoque elevado e vendas travadas, a equipe decidiu retomar as lives com uma grande promoção. "Mostrei as fotos, vesti as peças. Quando abri o computador no fim da live, tínhamos 50 vendas. Ali foi a virada de jogo. Em algumas horas, fizemos o faturamento de 10 dias de loja física."
A partir daí, as lives ganharam calendário fixo e criaram um ritual. Semanalmente, às 19h, clientes de diferentes regiões do Brasil se conectam para acompanhar lançamentos e promoções. O crescimento foi orgânico, com pedidos chegando de Manaus ao Ceará. A estratégia foi se sofisticando, com lives segmentadas por tamanho, pré-vendas online e formatos específicos para lançamentos e campanhas. Para Fabiane, as lives são um "programa de TV": exigem ritmo, organização e propósito. Além disso, trouxeram um elemento essencial ao digital, que é a humanização. "A venda online é fria. As lives humanizam."
A maior barreira no início não foi tecnológica, mas pessoal. A menina de Chapada que jogava futebol e teve uma banda de rock jamais se imaginou diante das câmeras. Mas a publicitária criativa, com histórico empreendedor, percebeu que a Lizáli era um espaço feito por mulheres e para mulheres. Quando compreendeu que seu papel estava diretamente ligado à autoestima e à experiência das clientes, virou a chave e assumiu as lives como propósito.
Fabiane resume sua filosofia de gestão em uma palavra: autorresponsabilidade. "Estou há 12 anos na Lizáli e nunca foi fácil. Cada período teve seus desafios. Empreender depende de ti. Para ser empreendedor, é preciso ser um resolvedor de problemas." O futuro da marca segue essa lógica: aposta no crescimento digital e no aumento da produção, sem planos de ampliar o número de lojas físicas.
A viagem mais recente de Fabiane à China — berço mundial das lives — confirmou uma tendência que ela já percebia: o Brasil está entrando na segunda fase das lives. Lá, o varejo opera em modelo de entretenimento, com vendedores preparados para atuar diante das câmeras e criar narrativas curtas, quase como "mini novelas".
Entre as lições que trouxe estão a necessidade de preparar funcionários da loja física para vender também pelo WhatsApp, a importância de o dono do negócio aparecer mais e o investimento em "live sellers", profissionais treinados para serem vendedores online. Em Hangzhou, visitou um shopping dedicado exclusivamente a lives, com 350 lojas e vendedores circulando sem parar. "É o início de uma revolução. As lives fazem parte do dia a dia das marcas".
Entre a gestão e a inovação: a trajetória de Ariane Ermel na indústria gaúcha
Ariane Ermel, diretora do Grupo Aniger, construiu sua trajetória na indústria calçadista ocupando posições estratégicas. À frente de uma das maiores fabricantes do País, com 8.500 colaboradores, a executiva divide sua rotina entre a empresa, fundada há 34 anos em Campo Bom, e o Blumendorf Espaço de Eventos e Lazer, em Nova Hartz, o novo empreendimento da família.
Enquanto no Grupo Aniger ela administra a fabricação de sapatos para marcas como Nike, Adidas e Asics, além da marca própria Petite Jolie, no Blumendorf ela experimenta novos formatos de negócio. Em um setor tradicionalmente masculino, Ariane consolidou uma liderança baseada em domínio técnico, foco em resultados e meritocracia, elementos que, para ela, pesam muito mais do que qualquer discussão de gênero.
Ao assumir funções de comando, enfrentou barreiras comuns a quem chega a posições estratégicas, mas optou por superá-las com conhecimento profundo dos processos, domínio do negócio e capacidade de entrega. "Quando você tem resultado, as percepções mudam e o respeito aparece", resume. Para ela, a presença feminina agrega por ampliar perspectivas.
"A diversidade de histórias dentro de uma equipe enriquece a tomada de decisão, e mulheres frequentemente trazem leituras complementares", afirma. Ariane destaca, no entanto, que na prática o que realmente tansfrorma ambientes industriais são competências claras: objetividade, organização, comunicação eficiente e decisões baseadas em dados.
A rotina da executiva se divide entre a exigência operacional rigorosa da Aniger e a liberdade criativa do Blumendorf. Na primeira, ela tem a responsabilidade de manter uma estrutura complexa funcionando com eficiência e impacto social direto sobre milhares de famílias. Já no Blumendorf o desafio é construir algo do zero, testar, criar e oferecer experiências. "Em um contexto sou gestora; no outro, empreendedora. As duas funções pedem resultado, mas por caminhos diferentes", explica.
Ariane reconhece que, em alguns momentos, sentiu que precisou provar mais do que alguns colegas. Ainda assim, optou por não desperdiçar energia com esse tipo de comparação e manteve o foco no que podia controlar. "A essência está na preparação, competência e performance", analisa.
Com este olhar a executiva também guia a cultura de desenvolvimento que permeia seu trabalho. Na Aniger, diversidade, liderança e crescimento são tratados com base em indicadores, formação técnica e meritocracia. Os treinamentos são oferecidos de forma ampla e os critérios de evolução seguem a mesma lógica. "No Blumendorf, ainda em fase de estruturação, a filosofia será a mesma, quem performa, cresce", sublinha Ariane.
Sobre o ecossistema industrial gaúcho, ela acredita que os avanços dependem de ambientes onde competência seja o principal filtro — e não estereótipos. Isso envolve formação técnica contínua, lideranças capazes de identificar e desenvolver talentos e a adoção de processos que valorizem entregas, não perfis. No setor calçadista, altamente competitivo, ela aponta pilares essenciais para manter vantagem: eficiência operacional, proximidade com o cliente, uso rigoroso de dados e indicadores, treinamento constante e disciplina diária na redução de custos.
"Com esses elementos sólidos, a performance se sustenta", afirma. Para as jovens mulheres que desejam empreender na indústria, Ariane aconselha estudo, entendimento profundo dos processos, intolerância ao desperdício e coragem para começar mesmo sem se sentir totalmente pronta.
DNA inovador e veia empreendedora fazem parte da trajetória de Carla Tellini
À frente de um dos maiores grupos gastronômicos do Sul do Brasil, a publicitária gaúcha Carla Tellini — fundadora, CEO e head criativa do Grupo Press — empreendeu pela primeira vez aos 26 anos. Na época, montou com um sócio a agência de propaganda TH Comunicação, que dez anos mais tarde já figurava entre as maiores do Estado. Foi ali também que ela inovou ao implementar as primeiras câmeras online em um site, no projeto desenvolvido para a Concepa.
Segundo Carla, o Press surgiu no meio desse movimento, em 2002, como um pequeno negócio paralelo, sem pretensão de se tornar uma grande empresa. A ideia inicial era criar uma cafeteria especial, de altíssima qualidade, que entregasse espressos impecáveis, doces deliciosos e um ambiente bonito. "Na prática, eu colocava muito do que passava aos clientes da TH: a experiência. Só que a veia empreendedora fala mais alto e não consegui ficar por ali. Em dois anos já estava com o segundo Press Café e, no ano seguinte, já buscava um lugar bem diferente para abrir um restaurante", lembra.
Com o tempo, Carla manteve firme sua visão criativa e seu espírito empreendedor, transformando o pequeno café em um hub gastronômico: o Grupo Press Gastronomia. Hoje, o negócio reúne 400 colaboradores, 18 operações divididas em nove marcas, uma indústria de doces e duas empresas franqueadoras responsáveis pela expansão das marcas Press Café e Ô Xiss.
Ela reconhece que o setor alimentício exige presença constante. Para conseguir administrar o grupo e garantir seu crescimento sem centralizar decisões, Carla estruturou uma equipe que divide com ela as responsabilidades estratégicas: heads corporativos e operacionais, gerências de qualidade e um time de lideranças operacionais — gerentes e chefes, muitos deles ao seu lado há mais de 10 ou 20 anos. "É uma empresa com alicerces sólidos", afirma.
A inovação, um dos pilares mais citados por empreendedoras brasileiras no GEM Brasil, é uma marca registrada de sua trajetória. O Press foi o primeiro restaurante do Estado a abandonar comandas de papel e implantar pedidos por PDA, há 19 anos. Com o Ô Xiss, transformou um alimento popular e típico do Rio Grande do Sul em uma marca com expansão nacional, na contramão das hamburguerias. O Bah, por sua vez, foi pioneiro ao apresentar uma cozinha regional revisitada em um restaurante sofisticado no país. "No momento estamos treinando uma inteligência artificial no aprendizado da operação que, quando for lançada, será disruptiva", adianta. Ela destaca ainda o lançamento, em 2024, da Press To Go, primeira vending machine de autosserviço no conceito "comida fresca todo dia".
Questionada sobre barreiras de acesso a crédito, Carla conta como estruturou o financiamento e a expansão das marcas BAH, Press e Ô Xiss. Nos primeiros anos, tudo o que entrava permanecia no caixa, já que sua renda vinha da outra empresa. "Isso foi fundamental para obter crédito. Sempre trabalhei com fluxo de caixa muito organizado e uma reserva em aplicação. Mas se tivesse começado do zero, como foi com a TH, teria sido muito mais difícil — como de fato foi aos 26 anos."
Sobre a liderança feminina na gastronomia, ainda minoria especialmente em cargos de comando, Carla é objetiva: o machismo é estrutural. "As pessoas, mesmo as mulheres, muitas vezes não percebem claramente. O que vejo, olhando para trás, é que só há pouco tempo os homens começaram a enxergar que o Press — um grupo gastronômico que faz parte do dia a dia deles e de suas famílias — é administrado por uma mulher."
Entre os episódios que marcaram sua trajetória, ela cita um ocorrido há cerca de um ano, em um evento do Sindha, entidade da qual é vice-presidente institucional. Um político a apresentou a um governador de outro Estado não como a CEO de um dos maiores grupos gastronômicos do sul do país, mas como "a pessoa que faz o melhor xis da cidade". Carla costuma dizer que essa história, apesar de engraçada, resume bem o tipo de situação que mulheres ainda enfrentam.
Quando o assunto é dupla jornada, a empresária admite seu privilégio. "Mas não tem como não olhar para as mais de 200 mulheres que trabalham comigo, o quanto cuidam das casas, dos filhos, muitas delas sozinhas, e ainda conseguem trabalhar e mostrar o que têm de melhor. Torço para que seja possível implantar a jornada 5x2. A qualidade de vida dos profissionais de hospitalidade será outra."
Para garantir que mais mulheres ascendam a posições estratégicas dentro do Grupo Press, Carla reforça a importância da cultura organizacional. "Acredito que, por ser uma empresa administrada por uma mulher, o ambiente fica mais amigável nesse sentido. Mas já demiti gestor por desrespeito a mulheres da equipe. Hoje são muito mais mulheres em cargos de liderança, e isso acontece de forma natural."
Inovação com liderança feminina Fonte: Sebrae
Conforme dados do Sebrae RS, as mulheres têm se destacado pela rapidez na adoção de tecnologia, criatividade e novos modelos de negócio. No empreendedorismo, elas estão liderando processos de inovação e digitalização nos negócios do País. Dados recentes mostram que 71% das empreendedoras utilizam redes sociais, aplicativos e a internet para vender produtos e serviços, percentual superior ao dos homens (63%). Outro ponto importante levantado pela pesquisa aponta que durante períodos de crise, como a pandemia, elas também foram mais ágeis: 11% afirmaram ter implementado inovações em seus negócios, contra 7% dos empreendedores homens.
Esse protagonismo se reflete ainda no crescimento contínuo da presença feminina em setores intensivos em conhecimento e inovação, como Informação e Comunicação e Educação e Saúde, tendência observada de forma consistente desde 2019.






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