sábado, 17 de janeiro de 2026


17 de Janeiro de 2026
ENTREVISTA

Filipe Matzembacher e Marcio Reolon

Diretores e roteiristas do filme "Ato Noturno" - "O tesão é político e é desestabilizador. E por isso é tão atacado". Por e-mail, Filipe Matzembacher e Marcio Reolon, diretores e roteiristas de Ato Noturno, falaram sobre temas e inspirações do filme e sobre o protagonismo de Porto Alegre.

Os dois personagens principais de Ato Noturno são um ator e um político, duas profissões que dependem muito - ou até fundamentalmente - da imagem, tanto a que se quer passar quanto a que é percebida pelo público. Vocês podem falar sobre como surgiu a ideia do filme e sobre essa questão das máscaras sociais que todos, em maior ou menor grau, precisamos vestir? Em nome das nossas ambições, anulamos nossas identidades?

Tudo é teatro. Esse foi o ponto de partida para a criação do filme. Dois homens que atuam em palcos diferentes: o teatro e a política. E, em nome da ambição, eles performam vidas que sufocam seus desejos e quem se é. Para alcançar uma ideia neoliberal de sucesso, muitas pessoas se veem pressionadas a se "higienizar", a abrir mão de suas individualidades e viver outros personagens. Mas o desejo não desaparece, ele sempre retorna com força. E é desse embate que surge Ato Noturno.

Em conversa com o público na Mostra Internacional de São Paulo, vocês falaram sobre a aproximação de Ato Noturno com os thrillers eróticos da Hollywood dos anos 1980 e 1990, como Vestida para Matar e Dublê de Corpo, ambos de Brian De Palma. O filme de vocês inclusive emprega algumas técnicas características de De Palma, como o zoom e a tela dividida. Podem falar mais sobre como Ato Noturno se conecta àqueles filmes?

O suspense de De Palma, de Paul Verhoeven (diretor de Instinto Selvagem, 1992) e até de Hitchcock, em certa medida, sempre relacionaram desejo e perigo. E em Ato Noturno também fazemos essa conexão. Os personagens são guiados pelo desejo, em um universo escuro, corrupto e cheio de riscos. A ideia da teatralidade é algo bastante caro para De Palma e também é central para nós. Se os personagens são atores, o próprio filme brinca com a ideia de palco e encenação, tensionando realidade e representação. Mas, claro, apesar desses diálogos, nosso olhar tem um ponto de vista contemporâneo, brasileiro e dissidente. Em vez do voyeurismo clássico, nos interessou explorar o exibicionismo, a afirmação do desejo como força narrativa e política, repensando o gênero para outras possibilidades.

Os personagens Matias e Rafael precisam levar às escondidas seu relacionamento, mas me parece que o sigilo é menos por ser um romance gay e mais pela forma com que os dois vivem plenamente o seu desejo e alcançam prazer: ambos têm fetiche pelo sexo em lugares públicos, o que por si só gera um conflito em relação às personas que devem apresentar. Essa restrição chega a ser explicitada em um diálogo do filme. Vocês podem falar sobre liberdade sexual e repressão ao tesão?

O desejo tem sido bastante perseguido. Numa tentativa de se enquadrar na sociedade conservadora e cis-heterossexual, muitas pessoas (LGBTs e também não LGBTs) reprimem seus desejos, suas performances sociais e sexuais, tentando negociar pertencimento. No filme, os personagens exploram seus desejos de forma a libertar o que reprimem. E isso é central: não abrir mão de quem se é por uma aceitação condicionada. O tesão é político e é desestabilizador. E por isso é tão atacado. E nós vemos isso em uma onda conservadora, que tenta uniformizar todos, em todas suas formas de expressão: da roupa às performances e aos desejos.

Coincidentemente, Ato Noturno veio à luz na mesma época em que houve o compartilhamento nas redes sociais de dois casos de sexo ao ar livre no Rio de Janeiro que reuniram dezenas de pessoas, um na Pedra do Arpoador e o outro em Búzios. Em Porto Alegre, praças públicas têm sido cenário do chamado cruising. É como se fosse uma resposta da comunidade gay a décadas, séculos de cerceamento?

Cruising não é uma experiência recente. Atravessa séculos de história e tem um diálogo claro com contextos de repressão e criminalização de alguns desejos. É uma prática que mistura política, performance e erotismo, mas também risco e vulnerabilidade. Em muitos momentos históricos, ocupar o espaço público para o desejo foi a única possibilidade de encontro para muitas pessoas (especialmente para homens gays e bissexuais). Em Ato Noturno, isso aparece não como fetiche isolado, mas como parte de um sistema maior de encenação social.

Ato Noturno, como o título sugere, investe bastante em cenas na noite de Porto Alegre. A cidade aparece tanto como sedutora quanto como ameaçadora, às vezes no mesmo momento. Gostaria que vocês falassem sobre os cenários do filme, sobre o trabalho da diretora de fotografia Luciana Baseggio e sobre como foi produzir e realizar as cenas na Redenção.

Foi lindo pensar na cidade para esse filme. Em Tinta Bruta, ela era uma antagonista. Mas em Ato Noturno, Porto Alegre é uma femme fatale: perigosa e sedutora, esconde algo mas provoca. É uma cidade que pede por vida. Exploramos o jogo entre os espaços privados (apartamentos, casas) e os públicos: praças (como a Redenção e a Matriz), Theatro São Pedro e Teatro Renascença, a Avenida Mauá, e tanto outros espaços icônicos, transformando-os em ambientes tomados por desejo.

 Traduzimos espaços tão comuns aos gaúchos para o universo perigoso e sedutor do filme. Além disso, a Luciana Baseggio e a diretora de arte Manuela Falcão nos ajudaram a construir esse espaço público que joga com a cidade, suas texturas e seus jogos de luzes, que muitas vezes parece um palco de teatro. Concebemos as ruas da cidade como uma extensão dos palcos, com luzes elaboradas e composições caprichosas. Se público e privado se misturam na história, a noção de realismo e teatralidade também. _

Em Tinta Bruta, Porto Alegre era uma antagonista. Mas em Ato Noturno, a cidade é uma femme fatale: perigosa e sedutora, esconde algo mas provoca.

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