segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Famílias perseguidas pelo nazismo

cartas para camondo

cartas para camondo

EDITORA INTRÍNSECA/DIVULGAÇÃO/JC

Jaime Cimenti
Cartas para Camondo ( Editora Intrínseca, 192 pp., R$ 69) de Edmund de Waal, artista plástico e escritor aclamado internacionalmente , autor do best-seller A lebre com olhos de âmbar, através de 58 cartas imaginárias dirigidas ao  conde MoÏse de Camondo , faz um belo e pungente resgate da história de famílias perseguidas pelo nazismo, incluindo a dele próprio.  As narrativas das cartas imaginárias foram inspiradas numa visita que Waal fez à maior coleção privada de arte francesa do século XVIII, coleção que decorava a antiga casa do conde.
De Waal conta a história da vida do banqueiro Camondo,que morava a algumas casas dos antepassados de Edmund De Waal. Os Camondo vieram de Constantinopla , compraram terrenos na rua de Monceau , em 1869, a exemplo de outras famílias judias , que buscavam espaço na Paris secular, republicana , tolerante e pacífica do século XIX.
O conde banqueiro Camondo  construiu uma casa espetacular e criou a maior coleção  particular de arte francesa do século XVIII. Queria que o filho Nissim herdasse a casa e a coleção, mas ele morreu durante a Primeira Guerra Mundial. A construção tornou-se um memorial , foi legada à França e tornou-se o Musée Nissim de Camondo, inalterado desde 1936.
De Waal utiliza os objetos dessa casa-museu valendo-se de seu olhar de artista e invoca detalhes práticos de como e por que as coisas são feitas, compradas, colecionadas e exibidas.  As cartas sobre os objetos revelam novas camadas da história dos membros da família Camondo. As cartas assombrosas narram uma trama cruel de generosidade e traição, impulsionada pelo antissemitismo e pelos anos da ocupação nazista na França.
As narrativas elegantes   da obra  mostram que, assim como os objetos, as palavras constroem nossas memórias, só que ocupando menos espaço. Uma coleção de objetos de arte pode contar  bem a saga de uma família e mostrar uma era de divisões, intolerância, incerteza política e mudanças de destino similar a  outras eras. De Waal narrou com requinte a tragédia impulsionada pelo antissemitismo. Claro que a coleção mostra beleza, graça e uma vida dedicada à arte, uma das partes melhores dos seres humanos.

lançamentos

Ninfa morta ( Planeta, 304 pp., R$ 69) de Marcia Tiburi, uma das filósofas mais conhecidas do Brasil, desvela o caráter estrutural do ódio às mulheres na sociedade patriarcal. Com referências culturais, filosóficas, antropológicas, psicanalíticas e literárias, a obra traz uma história abrangente do ódio às mulheres e é um diagnóstico necessário para encontrar alternativas.
Vamos falar de Inteligência artificial ( Matrix , 100 pp., R$ 46) de Maria das Graças Cleophas traz 100 perguntas diretas em um livro-caixinha. Fundamentos, riscos e usos da IA são apresentados e, igualmente, suas consequências. Os leitores vão descobrir como a IA já influencia suas escolhas e como eles podem retomar o controle.
Tango para homens velhos , seguido de A nuvem vigilante e Amém ( Casa de Astérion, 224 pp.) do premiadíssimo professor universitário de literatura e escritor Altair Martins, autor de A parede no escuro ( Prêmio SP de Literatura) , traz três textos de dramaturgia emblemáticos, que nos remetem ao Teatro do Absurdo, na linha de Beckett, Ionesco e Genet. Misoginia, feminicídio, culpa e masculinidade tóxica estão na obra.
Breve história do mundo em 50 livros
Ainda existem os que vivem dizendo que os livros estão morrendo. Parece que o boato dessa morte é tremendamente exagerado. Se for verdade a morte do livro, dá para notar que o velório está concorridíssimo.   Uns dizem, meio equivocadamente, que os livros não mudam o mundo. Talvez tenham certa razão, mas não há a menor dúvida de que livros mudam, quase sempre para melhor, as pessoas leitoras e as não leitoras que se beneficiam de seus efeitos indiretos. Os livros mudam as pessoas e as pessoas mudam o mundo, simples assim.
Uma breve história do mundo em 50 livros ( Editora Valentina , 200 páginas) de Daniel Smith, consagrado autor e editor de não ficção e roteirista premiado , lançando mão de cinquenta dos mais influentes livros de todos os tempos e situando-os nos seus contextos históricos, apresenta uma breve história do mundo. Livros sempre foram registros inestimáveis e abrangentes do que significa ser humano.
Em um mundo de gratificação instantânea, onde a internet e o streaming brigam por nossa atenção e onde vídeos de 30 segundos e posts de 280 caracteres são o meio preferido de comunicação, o livro pode parecer uma relíquia do passado.No século XV as bibliotecas da Europa tinham algumas dezenas de milhares de livros manuscritos. Hoje somente nos Estados Unidos o mercado editorial publica cerca de 300 mil títulos de livros por ano.
A obra aborda desde a Ilíada de Homero e a Epopeia de Gilgámesh , divisores de águas da Antiguidade , passando por textos sagrados e reflexões filosóficas de gênios como Confúcio e Platão , e ainda tratados científicos como Uma breve história do tempo de Stephen Hawking e ineditismos históricos como o primeiro livro a ser impresso em grande tiragem, a Bíblia de Gutenberg). Também figuram no volume obras culturais de impacto duradouro , como O segundo sexo , de Simone de Beauvoir e Por que não podemos esperar de Martin Luther King, obras essas que foram, ao mesmo tempo, produtos das sociedades em que surgiram e textos vitais na formação dessas mesmas civilizações.
A Torá; A arte da guerra; Bhagavad Gita; O Alcorão; Magna Carta; A Divina Comédia; O Príncipe; Obras completas de William Shakespeare; A riqueza das nações; Fausto; Os crimes da rua Morgue; O Capital; Guerra e Paz; Teoria da Relatividade Geral; Sobre a liberdade; Ardil-22 ; A interpretação dos sonhos; 1984; Longa caminhada até a liberdade e A origem das espécies, entre outros, são destacados pelo autor para demonstrar como textos fascinantes configuraram e transformaram a História mundial e a forma como pensamos e vivemos, sem deixar de lado, é claro, as incríveis curiosidades por trás deles.
O livro está dividido em cinco grandes partes: O Mundo Antigo; A Idade Média; A Era Pré-Moderna; O Século XIX e De 1900 em diante. Nas páginas finais estão as conclusões de Smith, bibliografia selecionada e dados sobre o autor, que é autor da famosa série How to Think Like , publicada em 20 países e já com mais de 500 mil exemplares vendidos.
a propósito...
Como se vê, uma breve história do mundo em 50 livros é uma boa e divertida oportunidade de ler sobre livros imprescindíveis e aprender sobre os variados caminhos da História mundial. A escrita e o livro são duas das maiores invenções humanas. Com a escrita e o livro podemos construir nossa identidade coletiva, buscar civilidade, abrir portais para outros mundos e encontrar a magia produzida pelos humanos. Charles W. Eliot, acadêmico do século XIX, escreveu: "Livros são os amigos mais silenciosos e constantes; são os conselheiros mais acessíveis e sábios, e os professores mais pacientes." Livros são paraísos e jardins portáteis, são a melhor forma de estarmos sós e acompanhados ao mesmo tempo, experimentando outros lugares, outras vidas e outras sensações. (Jaime Cimenti)

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