sábado, 3 de janeiro de 2026


03 de Janeiro de 2026
J.J CAMARGO - J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e membro titular da Academia Nacional de Medicina

A solidão dos idosos

Todos festejamos que nossos velhos vivam mais, mas não estamos sabendo bem o que fazer quando eles perdem a utilidade e a autonomia

"Quem ainda te amaria quando você deixasse de ser útil?" (Franz Kafka)

No maravilhoso As Intermitências da Morte, um dos seus melhores livros, José Saramago, fantasia um país onde, na iminência de perder a Rainha mãe, o Rei decreta que a partir daquela noite ninguém mais morreria no seu reino. Depois da compreensível euforia inicial, começaram os problemas, porque o decreto coibia a morte, mas não extinguia as doenças e os acidentes. Além disso, surgiram vários problemas inéditos: o negócio das companhias de seguros entrou em crise, o primeiro-ministro não sabia o que fazer com a explosão demográfica, e o Cardeal se desconsolava, porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja".

Depois de poucos meses, 67 mil mortes tinham sido suspensas, mas os hospitais e as casas de repouso estavam superlotados, e a única solução foi convocar as famílias para assumirem o cuidado dos seus amados a domicílio.

Ninguém aceitou, todos estavam focados em dar sentido a suas próprias vidas, e cuidar de cadáveres insepultos devia ser tarefa do Estado, até porque a ideia de imortalidade não brotara do povo, sempre avesso a novidades.

Não é intenção desta crônica roubar o prazer de seguir Saramago até o desfecho desta história, mas ninguém entenderá tão bem a morte como um evento natural e necessário como quem o acompanhar até a última página.

Na vida real, passados só 20 anos do lançamento daquele livro, e com a idade média da população em curva ascendente e rápida, percebe-se o que pode ser interpretado como um esboço sutil de fábula paródica: todos festejamos que nossos velhos vivam mais, mas não estamos sabendo bem o que fazer quando eles, desavisados, sem culpa e nenhuma imposição legal, mas seguindo as leis implacáveis da natureza, vão perdendo progressivamente a utilidade e por fim, e tristemente, a autonomia. 

Nos feriados mais longos, e a virada do ano é o modelo mais agudo, a percepção do descompasso de expectativas e comemorações se acentua. E convenhamos, a marcha mais lenta, a surdez incipiente, a intolerância com ambientes ruidosos e comidas demoradas e a perda do protagonismo nas conversas em grupo vão gradualmente erguendo o muro de separação, que o velho inteligente percebe com tristeza, mas assimila em silêncio. Afinal, ele será o último a criticar o discutível senso de humor dos seus descendentes.

Ha 10 anos, num vídeo comovente que viralizou com milhões de visualizações, um pai, idoso e solitário, todos os anos planejava o Natal, mas seus filhos e netos nunca apareciam, alegando estarem muito ocupados. Então, numa véspera de Natal, ele simulou a própria morte. Quando a família, consternada, chegou para o velório, descobriu que ele estava vivo e preparara a ceia. Ele questionou: "De que outra forma eu poderia juntar todos vocês aqui?". 

Não gostaria de ter como amigo quem não balançasse com este vídeo, mas suspeito que, passada emoção coletiva, a prole deve ter ido cuidar da sua vida, porque não dá para "morrer" todo Natal só para trazê-la de volta. Uma pena que a vida não esteja nem aí para a solidão dos idosos. _

J.J CAMARGO

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