sexta-feira, 2 de janeiro de 2026


02/01/2026 - 19h07min
Zero Hora

O clima volta a atrasar o Rio Grande do Sul

Uma das tarefas mais urgentes é fazer com que, em um futuro não tão distante, a economia do Estado fique menos vulnerável aos eventos extremos.

 Um desavisado sobre as peculiaridades da economia gaúcha poderia ficar positivamente impactado com o crescimento do PIB gaúcho no terceiro trimestre de 2025. Ante os três meses imediatamente anteriores, a atividade avançou 4,5%, mostrou na terça-feira o Departamento de Economia e Estatística (DEE) do Estado. O número, à primeira vista exuberante, apenas mostra outra vez o eletrocardiograma dos indicadores locais, afetados pelas variações climáticas bruscas. Uma das tarefas mais urgentes da sociedade e do poder público é fazer com que, em um futuro não tão distante, a economia do Rio Grande do Sul fique menos vulnerável aos eventos extremos.

Assim, 2025 tende a ser mais um ano em que o RS tem desempenho inferior à média nacional

O desempenho no terceiro trimestre reflete em grande medida apenas uma recuperação sobre o trimestre anterior, quando o PIB gaúcho caiu 2,7%, influenciado por nova estiagem que, mais uma vez, causou perdas severas às lavouras de verão. Observe-se que, no segundo trimestre, a agropecuária despencou 21,4%. No dado mais recente, as atividades do campo, impulsionadas pela pecuária, dispararam 20,5%. 

O cenário fica mais claro ao olhar a performance ao longo do ano. No acumulado dos três trimestres, a agropecuária derrete 10,8%. Assim, o PIB gaúcho até aqui sobe só 0,5% até setembro, a despeito do melhor comportamento da indústria e dos serviços. Ambos os setores crescem 2% no ano. A economia brasileira, enquanto isso, avança 2,4% em 2025, com uma alta da agropecuária de 11,6%. Ao fim, a indústria e os serviços no Estado têm até aqui um desempenho superior à média nacional, mas o campo puxa o RS para trás. 

Como a economia nacional passa por um período de acomodação, é de se esperar que o RS, no último trimestre, também não apresente resultado empolgante. Cabe ressaltar que o Estado ainda é afetado de forma mais aguda pelo tarifaço de Donald Trump. A pauta de exportação do Estado para os EUA, concentrada em bens industriais, foi pouco beneficiada pelos recuos setoriais determinados pela Casa Branca. É provável que os efeitos apareçam mais no trimestre final de 2025. 

Assim, 2025 tende a ser mais um ano em que o RS tem desempenho inferior à média nacional – mais regra do que exceção no passado recente. Pode ser diferente em 2026. A chuva tem favorecido as culturas de verão. Confirmando-se esse quadro e dada a baixa base de comparação, é plausível que o Estado cresça mais do que o país neste ano. 

Uma safra cheia, porém, não pode causar desmobilização na busca por ferramentas para prevenir os estragos das estiagens, que tendem a ser mais frequentes, alertam os cientistas. Aumentar a área irrigada é basilar, mas não a única solução. É preciso aprimorar práticas conservacionistas que ampliem a retenção de umidade no solo e desenvolver cultivares mais resistentes a déficit hídrico. 

Ademais, no campo há oportunidade de ampliar o peso do setor de proteína animal, menos suscetível a oscilações bruscas. Não pode ser esquecido também que, neste contexto desafiador imposto pelo clima, torna-se forçoso diversificar ainda mais a economia gaúcha. Deve-se dar atenção especial à inovação e à tecnologia, que, além do potencial de dinamizar a economia gaúcha, têm a capacidade de dar novo fôlego a setores tradicionais do Estado. 

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