Mergulho na intimidade de Yves Saint Laurent
Jaime Cimenti
O príncipe da Babilônia ( Editora Estação Liberdade, 192 pp., R$ 48,00 , tradução de Nícia Adan Bonatti) da consagrada escritora francesa Marianne Vic , nascida em Paris, sobrinha e afilhada do lendário Yves Saint Laurent, narra tudo, ou quase tudo, que ainda havia para escrever sobre um dos maiores nomes da moda mundial.
Por esta obra que mescla realidade e fantasia e mergulha na protegida intimidade de Yves, Marianne, que foi testemunha da mítica vida de Yves na residência parisiense da rue de Babylone, recebeu, por unanimidade, o prêmio Pampellone Ramatuelle. A verdade do homem permanecia oculta na sombra do mito , talvez por ser pesada demais. Marianne , tributária de uma família disfuncional, recalibra a lenda e revela a importância de escrever para desfazer a hegemonia das memórias oficiais. Ela foi muito próxima do tio e do companheiro dele, Pierre Bergé, associados na construção do império YSL.
Yves, o pequeno argelino de olhos perspicazes, menino negligenciado , classe média, um pied-noir , não tinha nascido para suportar a carga de uma Argélia francesa estruturada para depredação colonial. Em Oran Yves foi submetido a humilhações, das quais escapou com um enorme desejo vital de vingança. Riqueza e renome o consolaram de modo intermitente, mas a loucura sempre o recaptura. Yves foi um ser calcado no ódio por si mesmo e o desprezo pelo outro.
Marianne descortina uma série de sevícias, infortúnios, folias e apogeu criativo, sexo e paraísos artificiais, cumes de cultura e arte, ante a inevitável derrocada. Com coragem e sensibilidade, Marianne traz uma elegante catarse repleta de segredos de alcova sobre a alma e os corpos do tio e de outras pessoas que voltam a circular entre nós, como acontece nas boas narrativas biográficas. Finalmente o verdadeiro Yves agora se torna acessível . Ele que foi coroado aos vinte e um anos como o “pequeno príncipe da moda” e passou a não ter o direito de errar.
lançamentos
O ano da mudança (Editora Intrínseca, 384 páginas, R$ 51,00), de Brianna Wiest, editora e escritora best-seller, autora de 101 reflexões que vão mudar sua forma de pensar, apresenta 365 textos breves com insights para cada dia do ano. A autora quer auxiliar os leitores a serem quem eles realmente querem ser, sintonizando a mente com os desejos do coração.
Goiás (Editora Senac Rio, 112 páginas, R$ 57,00), de Marcus Groza, professor, escritor, dramaturgo e encenador, recebeu o Prêmio Sesc de Literatura 2025. O protagonista é um cão farejador caramelo, que atua em resgates e representa a resistência, a dor e a alegria diante da devastação humana. Memória, crítica social e poesia estão na obra.
Mulheres Artistas da Época Moderna (Editora Ártemis, 172 páginas, R$ 80,00), de Cristine Tedesco, professora-doutora de história da arte e historiadora, fala de pintoras, escultoras, arquitetas, escritoras , cantoras e compositoras da Época Moderna. A obra preenche uma enorme lacuna quanto à escrita da história do período moderno e dialoga com o feminismo contemporâneo, que enxerga a mulher como produtora do seu próprio tempo.
Os novos velhos, os Nolts
A sigla NOLT (New Older Living Trend), que vem do inglês, está em alta nas redes sociais. Significa algo como "Nova Tendência de Viver a Maturidade" e se aplica a pessoas com mais de 60 que não querem atirar a toalha e desistir da vida. São idosos, não velhos. Mas idosos que recusam os velhos rótulos tradicionais da "terceira" ou "melhor idade". Lá pelos anos 70 do século passado, os brasileiros viviam cinquenta e poucos anos em média. Muitos aposentados ficavam na cadeira de balanço ouvindo rádio, assistindo TV ou lendo o Correio do Povo e depois escreviam cartas para o Correio do Leitor, reclamando dos buracos da cidade ou do peso correto do cacetinho da padaria da esquina. Alguns iam jogar damas na Praça da Alfândega ou caminhar na Redenção.
Hoje os brasileiros vivem 75 anos aproximadamente, e os anos de aposentadoria e de velhice precisam ser vistos de modo diferente. Os "novos velhos", os nolts, procuram ter um bom propósito, ou muitos, para levantar da cama pela manhã. De preferência levantar cedo e aproveitar logo a melatonina da luz solar da manhã. De preferência dormir cedo e ter a felicidade de ser um dos 50% que dormem bem no Brasil e no mundo.
Claro que cada um tem o direito de escolher a vida que quer levar. Se a pessoa quer dormir e levantar tarde, não cuidar da saúde, não fazer exercícios, engordar, não dormir direito, beber e fumar e ficar horas e horas no café do shopping, é uma escolha dela. Claro que as consequências vão pesar nos familiares, amigos e na sociedade e isso precisa ser bem estudado, num país onde a população envelheceu e onde recursos para a saúde e a educação são os que se conhecem.
O idoso e o novo velho não devem se sentir uma carta fora do baralho, um peso, uma pessoa que já deu o que tinha que dar. O novo velho deve procurar não se isolar, se movimentar, ser curioso, estudar, ter um sentido e um propósito de vida, coisa que os japoneses, que não se aposentam nunca, chamam de Hikigai, aquilo que faz a vida valer a pena. O Hikigai não precisa ser necessariamente algo grandioso. Amar, cuidar da horta ou do jardim, cozinhar para si e para os outros, limpar a casa ou arrumar a cama já vale. Não por acaso o Hikigai tem origem na ilha de Okinawa, Japão, onde muitos centenários vivem mais, melhor e mais felizes.
Óbvio que o preço de continuar vivo é envelhecer e que as forças físicas vão diminuindo, as doenças aparecendo e os sinais da idade surgem. O bom é que o que se perde em energia física a gente compensa com os ganhos da maturidade mental, ao menos até que a cabeça funcione. Velhice não precisa ser um pacto honroso com a solidão, como disse García Márquez. Os novos velhos estão aí. Esses dias encontrei um, mais de 70 anos, todo fardado de ciclista, que tinha vindo de Tramandaí para Capão da Canoa e estava pronto para voltar, rodando uns 60 quilômetros.
a propósito...
Pense com alegria e serenidade, que para você mesmo, sua família, amigos, colegas, vizinhos e para o coletivo é melhor você ser um nolt, um novo velho que segue ativo, aprendendo, curioso, trocando afetos, palavras e coisas com os outros. Tomar um porre de não desejo, como dizem os lacanianos, ou só comer, dormir, ver TV e viver no piloto automático dá no que dá. Cada um escolhe como será o seu dia. Uns, muitos, nem escolhem, deixam que os outros governem suas vidas. Estou com 72 anos; minha neta, Valentina, fez um ano. Estou me cuidando para dançar com ela quando ela estiver com quinze. A Valentina é um baita Hikigai! (Jaime Cimenti)


Nenhum comentário:
Postar um comentário