
Dezembro tem redução recorde de homicídios em Porto Alegre
Segurança
Foram cinco registros, o menor número da série histórica que começa em 2010 e que representa sete vítimas a menos do que no mesmo período de 2024. Autoridades atribuem o resultado, dentre outros fatores, a uma estratégia que atinge o crime organizado sempre que uma execução acontece
Leticia Mendes
Em um período de três horas, na sangrenta noite de 16 de dezembro de 2016, cinco homens foram assassinados em Porto Alegre. A Capital enfrentava o ápice do terror protagonizado pelas facções, que disputavam territórios a tiros. Nove anos depois, os números de dezembro evidenciam outro cenário.
No último mês de 2025, Porto Alegre registrava, até esta terça-feira, cinco homicídios. É o menor número para o mês na série histórica que começa em 2010.
Em dezembro de 2016 tinham sido 90 vítimas e no mesmo mês do ano passado, 12. A redução vem se acentuando nos últimos anos e expõe outra mudança nos assassinatos na Capital. Em 2023, de cada 10 casos registrados no primeiro semestre, 80% eram decorrentes do crime organizado. Agora, esse percentual se inverteu.
Dos cinco casos, só um - ocorrido durante um jogo de futebol, na Zona Sul - tem indícios de envolvimento de facções.
As autoridades atribuem essa inversão - e a própria redução do número de homicídios - a um protocolo adotado sempre que ocorre um assassinato vinculado ao crime organizado. Aplicada nos últimos três anos em Porto Alegre (e ampliada a outros municípios), a estratégia consiste em sete medidas que atingem as facções, desde a saturação de territórios do tráfico com policiamento até o isolamento de líderes do crime em penitenciárias (veja as sete medidas no quadro de baixo).
- A essência do protocolo é aumentar o custo de cada morte para o crime organizado. Isso faz com que o crime recue, porque sofre um prejuízo cada vez maior a cada morte que comete - explica o diretor do Departamento de Homicídios (DHPP), delegado Mario Souza.
Prevenção
No RS a ferramenta é aplicada em conjunto pela Brigada Militar, Polícia Civil e Polícia Penal, com participação do Ministério Público, do Poder Judiciário e, agora, da Polícia Federal.
- O que é possível prevenir, por meio das forças de segurança, é o homicídio do crime organizado. O crime privado é investigado, como os demais, mas a prevenção envolve outras questões sociais - diz Souza. _
Os casos do mês
Dia 4 - Leonardo Silva Couto, 30 anos, morreu após ser atingido acidentalmente pela hélice do motor de uma lancha, na Ilha da Pólvora. Um homem de 44 anos que teria mexido no manete da lancha foi preso em flagrante por homicídio. Segundo a polícia, ele era habilitado para conduzir barcos e fez o teste do etilômetro, que indicou positivo para a ingestão de álcool. O preso negou ter tocado no manete.
Dia 19 - Um homem de 58 anos, cujo nome não foi divulgado, foi encontrado morto dentro de casa, na Rua José Ferreira Jardim, no bairro Santa Rosa de Lima. O corpo já estava em avançado estado de decomposição. A vítima tinha ferimentos no abdômen.
Dia 19 - Um morador em situação de rua foi espancado até a morte na estação rodoviária. Um suspeito foi localizado e preso em flagrante pela BM e admitiu ter atacado a vítima com chutes no abdômen durante uma briga.
Dia 21 - Um homem que não teve o nome divulgado foi morto a tiros durante uma partida de futebol no bairro Cavalhada, na zona sul de Porto Alegre. Segundo testemunhas, dois criminosos chegaram ao local numa motocicleta e atiraram contra pessoas que participavam do jogo.
Dia 28 - Um adolescente de 15 anos morreu após ser atingido por dois tiros ao andar de bicicleta na Rua Doutor Arno Horn, no bairro Restinga. Cristian Santos Dantas era filho da ex-namorada do suspeito dos disparos, com quem teria se desentendido horas antes.
Tirar armas das ruas também salva vidas, diz coronel da BM
Tirar armas das ruas é outra estratégia para enfraquecer as facções. Somente a Brigada Militar apreendeu cerca de 840 armas de fogo em Porto Alegre ao longo de 2025 - ao menos duas por dia.
- São armas como fuzis e pistolas, que causam bastante dano quando estão nas mãos de criminosos. Essas apreensões significam menos poder de fogo para a criminalidade e também a retirada de instrumentos que poderiam ser usados em homicídios, feminicídios, latrocínios e outros crimes violentos - comenta o comandante do Comando de Policiamento da Capital, coronel Fábio da Silva Schmitt.
- Cada arma apreendida é uma vida potencialmente preservada, é mais segurança para a população - completa.
Antes da aplicação do protocolo com sete medidas, o governo do Estado já vinha apostando também na análise criminal, com monitoramento de dados para mapear as áreas com o maior número de crimes. Isso possibilita traçar estratégias com mais agilidade e definir onde concentrar o policiamento.
O programa RS Seguro, lançado em fevereiro de 2019, elencou, com base nesses indicadores, 23 municípios que necessitavam receber ações de forma mais urgente. Entre eles, estava Porto Alegre.
A medida também é apontada como um dos fatores que contribui para que a Capital tivesse queda nos números. _
O protocolo
As sete medidas postas em prática quando um homicídio ligado ao crime organizado acontece
1 | Saturação da área do crime com policiamento
2 | Investigações contra a facção
3 | Operações especiais e de combate à lavagem de dinheiro
4 | Revistas em casas prisionais
5 | Responsabilização de chefes do crime por esses assassinatos
6 | Transferências desses líderes para penitenciárias estaduais, ou
7 | para penitenciárias federais
Vocalista da banda que tocava na Kiss deixa presídio
Regime aberto - Amanda Boeira*
Marcelo de Jesus dos Santos deixou o presídio de São Vicente do Sul, na região central do RS, na terça-feira. O músico é o segundo dos condenados pelo incêndio na Boate Kiss, que matou 242 pessoas em Santa Maria, em 2013, a deixar a prisão.
Vocalista da banda Gurizada Fandangueira, que tocava na Kiss na noite da tragédia, Marcelo foi sentenciado a 11 anos em segunda instância. Teria sido ele quem levantou o dispositivo pirotécnico aceso em direção ao teto da boate. As chamas encostaram na espuma acústica da casa noturna, o que causou o incêndio.
O músico teve a progressão para o regime aberto autorizada há duas semanas pela Justiça. Conforme publicação nas redes sociais da advogada de Marcelo, Tatiana Borsa, seu cliente progrediu para o regime aberto com monitoramento por tornozeleira eletrônica.
De acordo com a Justiça, a progressão de regime foi autorizada porque ele teve boa conduta carcerária. Marcelo já tem 274 dias de remição de pena, por trabalho e leitura no presídio. Ele deve permanecer em casa das 22h às 6h.
Penas
No último dia 17, Elissandro Spohr, o Kiko, um dos sócios da boate, também progrediu ao regime aberto.
Além de Kiko e de Marcelo, Mauro Hofmann, o outro sócio, e o assistente da banda Luciano Bonilha Leão tiveram as penas reduzidas em julgamento realizado em 26 de agosto na 1ª Câmara Especial Criminal do Tribunal de Justiça, que manteve as condenações. _
* Colaborou João Pedro Lamas
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