segunda-feira, 5 de janeiro de 2026


05/01/2026 - 19h06min
Rodrigo Lopes

Na fronteira entre Brasil e Venezuela, ecoa uma guerra perto demais

Após a captura de Maduro pelos EUA, autoridades brasileiras reforçaram o controle do local diante do aumento no fluxo de refugiados

Passando-se os marcos fronteiriços de Brasil e Venezuela, onde a BR-174 se transforma em Troncal 10 (Rodovia 10), há um painel branco, cujas imagens estão esmaecidas pelo sol. É preciso forçar a visão para distinguir os rostos: Hugo Chávez, de roupa militar e sua icônica boina, bate continência, e Nicolás Maduro, de terno, com a faixa presidencial atravessada ao peito, olha para o alto. Ao centro, a inscrição: Sen Bienvenido — República Bolivariana da Venezuela.

O cartaz, quase apagado pelas intempéries, é uma metáfora muito próxima da Venezuela atual: Hugo Chávez, o pai da revolução bolivariana, morreu em 2013, e seu herdeiro político, Nicolás Maduro, está, desde sábado (3), preso em um centro de detenção em Nova York, sob custódia dos Estados Unidos.

Ao lado do painel, um militar venezuelano estica-se na cadeira, sem dar atenção a quem chega. O posto aduaneiro fica a cerca de 500 metros. A fronteira está aberta nos dois sentidos.

A maioria dos refugiados que chega ao Brasil evita fazer comentários políticos, com se a esfinge de Maduro lembrasse que o bolivarianismo está cambaleante, mas não foi derrotado.

Milnelis Elisabet, 31 anos, chegou com os quatro filhos a Pacaraima, no lado brasileiro, no dia 13 de dezembro.

— É melhor ver e ficar quieto — diz ela.

Pergunto se sabe que Maduro foi capturado. Ela tem dúvidas:

— É o que se escuta, que o tiraram do poder e o levaram para os EUA. Mas outros dizem que estaria escondido. Com ou sem ele, desejo que a Venezuela melhore, mude.

Milnelis deixou Ciudad Guayana, a 600 quilômetros da fronteira, para buscar trabalho. Passou o Natal e a virada do ano no abrigo da Cáritas do Brasil, ao lado do posto fronteiriço, e prepara-se para ser alocada em Boa Vista a partir de terça-feira (5).

— É bastante duro sair com a família para um país estrangeiro. Mas temos de fazer isso pelo crescimento de nossos filhos. Pretendo trabalhar um tempo aqui, para que possam estudar e melhorar de vida — afirma.

Rodrigo Lopes / Agência RBS - Fronteiras estavam abertas neste domingo (4).

Rodrigo Lopes / Agência RBS

Outros venezuelanos se alternam entre um lado e outro da fronteira em busca de comida. A crise econômica no país de Maduro, que não é de hoje, levou mais de 200 mil pessoas a cruzar para o Brasil.

Um dia depois da operação militar dos EUA, que capturou o ditador venezuelano, a fronteira vivia, neste domingo (4), um clima de expectativa pelos próximos passos políticos. O Ministério da Justiça brasileiro prevê o aumento do fluxo de refugiados para esta segunda-feira (5). Em média, cerca de 500 venezuelanos têm ingressado no país diariamente. O grosso da Operação Acolhida, do governo federal, é integrado atualmente por militares do Comando Militar do Sul (CMS).

São cerca de 3h de distância de carro de Boa Vista, capital de Roraima. Os primeiros dos 200 quilômetros da BR-174 estão em boas condições, mas, à medida que nos aproximamos de Pacaraima, há grandes trechos de terra e buracos.

A cidade venezuelana do outro lado da fronteira é Santa Elena de Uairén, conhecida dos brasileiros pelo turismo de aventura. Quem sai vive incerteza. Eliana Oviedo, 49 anos, se altera diariamente entre um lado e outro, em busca de trabalho. Ela não tem esperança de que algo mude, uma vez que as mesmas pessoas que davam respaldo ao governo seguem comandando.

O país está ficando vazio. Muitas gente saiu — afirma.

Sobre Maduro, diz que "ele irritava muita gente".  Mas se vier outro presidente vai ser o mesmo.

Nas horas em que a Venezuela sofreu o ataque, a fronteira foi fechada por algumas horas por decisão da Venezuela, mas a passagem foi reaberta por volta das 13h de sábado (3). A segunda-feira será uma espécie de termômetro.

Do lado brasileiro, militares montaram uma blitz, como revista minuciosa de todos os carros que entram e identificação de seus ocupantes. Logo ao lado do pórtico da Polícia Federal, há uma grande base do 3º Pelotão Especial de Fronteira do Exército Brasileiro.

Uma das principais preocupações do governo brasileiro diante dos ataques dos Estados Unidos à Venezuela é a porosa fronteira terrestre compartilhada pelos dois países, com mais de 2 mil quilômetros de extensão. A instabilidade no território venezuelano pode gerar impactos diretos sobre a região norte do Brasil. O Brasil conta com 2,3 mil militares em Roraima. Na Amazônia, há um efetivo de 10 mil militares.

Uma série de símbolos lembram que essa é uma guerra perto demais: as bandeiras de Brasil e Venezuela estão lado a lado, e vários marcos delimitam os territórios. Na encosta de uma pequena elevação, há um mosaico colorido com desenhos de pombas brancas, símbolos da paz. Bem ao lado do poster esmaecido, onde Chávez e Maduro resistem ao desaparecimento.

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