quarta-feira, 26 de agosto de 2009



26 de agosto de 2009
N° 16074 - MARTHA MEDEIROS


Águas claras e águas turvas

E ntre as várias vinhetas que divulgam o programa Irritando Fernanda Young, do canal GNT, há uma que eu acho muito engraçada: Fernanda está na cama, provavelmente numa manhã de domingo, e é acordada pelo barulho de vários pássaros. Sonolenta e indignada, reclama:

O que vocês estão fazendo aqui em São Paulo, caramba? Vocês podem voar, por que não vão pra Fernando de Noronha?

Quando se pensa em locais com natureza exuberante, Fernando de Noronha encabeça a lista. Até poucos dias atrás eu podia supor a razão, agora não suponho mais: vi com meus próprios olhos.

E me custa acreditar que não estive delirando, que aquela pequena extensão de terra isolada no meio do oceano não seja uma miragem.

A estada na ilha já compensaria pelas várias praias de mar verde-esmeralda, pela possibilidade de mergulhar junto a peixes coloridos e tartarugas gigantes, pela sensação de estar numa amostra (não grátis, diria que até cara) do paraíso. Mas Fernando de Noronha oferece um benefício a mais: a suspensão da realidade.

É como se, por poucos dias, você ficasse blindado contra qualquer má notícia. Você simplesmente é convidado a não pensar. E admita: a intervalos regulares, alienação pode ser uma bênção.

Eu estava na ilha quando arquivaram as acusações contra o Sarney. Mas não soube. Minha pousada tinha tevê, mas nunca foi ligada. Não cruzei com nenhum jornal ou revista. Levei dois livros e não abri nenhum. É um feitiço que só os nativos talvez consigam explicar: você perde o total interesse pela ativação dos neurônios.

Os substantivos desaparecem do seu vocabulário e os adjetivos, essa inutilidade, sobressaem: tudo o que você consegue balbuciar é “que lindo”, “que incrível”, “que espetáculo”, e essa será toda a sua erudição.

Nada mais interessa além do lindo e incrível espetáculo do pôr do sol, do silêncio, da rusticidade e da alucinógena paisagem que se abre a sua frente, para onde quer que olhe. Sarney? Que Sarney? É alguma espécie de peixe?

Até é.

Sarney pode ser considerado um tubarão, e dos mais perigosos, apesar da aparência de bagre. Ao regressar ao continente, é inevitável: a gente acaba lembrando. Os neurônios ressuscitam e a realidade volta a atacar. Tudo continua como antes.

Os peixes graúdos engolindo os peixes miúdos, a piranhagem, o mar de lama da política brasileira.

As águas do PT, que um dia julgamos transparentes, estão tão poluídas quanto a de qualquer outro partido ao qual ele já tenha se comparado um dia. O PT, que se anunciava como a única ilha ética em meio à podridão circundante, deixou de ser nosso cartão-postal político.

Bem que eu queria continuar em Noronha, o lugar onde todos os pássaros deveriam estar, sem nos acordar para nossos problemas, sem perturbar nosso sono.

Mas, estando aqui, depois de uma breve passagem por aquele oásis ecológico, não há como não se irritar com as notícias e pensar que a saída talvez esteja mesmo em apostar em quem se dedica à consciência ambiental, já que a consciência moral sumiu do mapa.

Uma excelente quarta-feira para você. Aproveite o dia.

Um comentário:

Lelli Ramz disse...

Fernando de Noronha, tubarões e passáros

Lelli
Mto BOm mesmo!