segunda-feira, 24 de agosto de 2009



24 de agosto de 2009
N° 16072 - SERGIO FARACO


O quibebe e outro caso

Uma coluna de Paulo Sant’Ana despertou especialmente minha atenção. Foi publicada no final de abril e tratava de seus pratos memoráveis, preparados, em regra, pela madrasta. Suas preferências convalidam um postulado gastronômico de Nelson Rodrigues, segundo o qual as pessoas só gostam daquilo que comeram em pequenas.

Em muitos pratos, como o pimentão recheado, Sant’Ana tem minha fervorosa adesão, assim como nos diversos doces que menciona e, olha só, no gosto e no costume de furar a lata de leite condensado para sorvê-lo até a última meleca. Com uma diferença: cometo essa barbaridade até hoje. Haja estômago, mas mal não há de fazer. Ou por outra: o que tinha de fazer, já fez.

Um dos cultos do paladar santaniano, em criança, era o quibebe, e ele declara que ainda o é. Cá estamos, o colunista e eu, numa encruzilhada, e eis que nosso caminho se bifurca. Eu como de tudo e, sendo preciso, até a polenta do cachorro, mas quibebe nem sob tortura.

Gostaria, portanto, de alterar ou complementar a sentença de Nelson Rodrigues: as pessoas só gostam daquilo que comeram em pequenas... desde que não tenham sido forçadas a tanto.

Em nossa casa, no Alegrete, gurias e guris éramos obrigados a fazer certas coisas, e uma delas era comer quibebe.

Outra, tomar sopa de trigo. Outra ainda, sestear.

E o resultado é que, na idade madura e na mais madura ainda, detesto quibebe e sopa de trigo, e se sesteio estrago a tarde.

Não vem ao caso, mas até hoje me pergunto por que devíamos sestear após o almoço, deitados no piso da sala, e até hoje desconfio de que era o momento em que meu velho e minha velha gostavam de fornicar.

Que coisa. Tinham hora marcada! Talvez seja por isso que sou tão pontual. Garanto, no entanto, que ao menos para esse fim nunca olhei para o relógio.

Isso quando era mais ativo, claro.

Ultimamente, limito-me aos anos bissextos.

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