quinta-feira, 29 de agosto de 2013


29 de agosto de 2013 | N° 17537
EDITORIAIS ZH

LIBERDADE CERCEADA

Foi numa típica prensa inglesa, em Londres, que o brasileiro Hipólito José da Costa imprimiu, em 1º de junho de 1808, o primeiro número do jornal Correio Braziliense. A publicação passou à história como pioneira da imprensa independente no Brasil. O estatuto colonial proibia Hipólito José da Costa, assim como qualquer habitante do Brasil, de publicar livros ou jornais sua simples posse poderia resultar em processo penal.

A Grã-Bretanha assegurou-lhe, na condição de estrangeiro naturalizado, um direito elementar: o de fazer um jornal sem ter de pedir licença a autoridade civil ou eclesiástica. Em retribuição, o brasileiro traduziu para o português e publicou Areo-pagítica, clássico panfleto do poeta inglês John Milton em defesa da liberdade de imprensa.

Por certo, essa curiosidade histórica de um tempo em que a Grã-Bretanha dava lições de liberade de imprensa ao mundo é ignorada pelos responsáveis pela detenção do brasileiro David Miranda, no último dia 18 de agosto, no aeroporto londrino de Heathrow.

A operação foi motivada pelo fato de Miranda portar informações para o companheiro Glenn Greenwald, jornalista americano que publicou no jornal The Guardian revelações sobre o polêmico programa de vigilância Prism, pelo qual o governo americano espiona milhões de cidadãos. Essa circunstância mostra que, mesmo na pátria de Milton, a liberdade de imprensa corre riscos ainda hoje, 369 anos depois de o parlamento britânico ter recebido o primeiro exemplar de sua obra.

Infelizmente, a detenção de David Miranda na Inglaterra é apenas mais um caso entre ações igualmente graves, no Brasil e em outros países, contra a liberdade de informar e ser informado. Na esteira da luta iniciada por Hipólito José da Costa, a Constituição de 1988 garante liberdade de expressão e de imprensa como direito fundamental, mas mesmo essa garantia é ignorada por juízes de primeiro grau que insistem, em todo o país, em conceder liminares com efeitos que lembram os que obrigaram o Correio Braziliense a ser impresso no Exterior.

O mais recente caso é o que impede a Gazeta do Povo, do Paraná, de publicar informações sobre investigações envolvendo o presidente do Tribunal de Justiça do Estado, Clayton Camargo. Episódios semelhantes têm sido ainda mais comuns em países como Argentina, Venezuela, Bolívia e Equador. À sua maneira, todos esses casos estão relacionados ao direito de qualquer um ter acesso a informação livre. Nem mesmo a multiplicação de plataformas de mídia tem conseguido garantir a universalização dessa prerrogativa.


Instituições de defesa das liberdades têm redobrado esforços para deter os sinais cada vez mais comuns de retrocesso. Esse é o tipo de luta que precisa ser assumida por todos. Cabe, a esse respeito, citar Milton: “Uma coisa sei, e é que erros em um bom governo e em outro mau são quase igualmente possíveis; pois, que magistrado não andará mal de informação (...) se a liberdade das prensas fica restringida a privilégio de uns poucos?”

29 de agosto de 2013 | N° 17537
ARTIGOS - Marcelo Bertoluci*

Agressão ao pacto federativo

Oengessamento dos Estados, diante das enormes e impagáveis dívidas com a União, mobilizou, no dia 15 de maio, na sede do Conselho Federal da OAB, em Brasília, mais de 120 entidades da sociedade civil organizada. A força do ato ficou demonstrada na participação de representantes da Advocacia, da Magistratura, do Ministério Público, dos poderes Judiciário, Legislativo e Executivo e associações de classes.

Mais uma vez, ficou evidenciado que esse não é um problema do Rio Grande do Sul, mas, sim, da maioria dos Estados da República Federativa do Brasil. Aliás, o nome oficial da nação não vem fazendo jus ao que acontece na realidade. Existe, há tempos, uma verdadeira agressão ao pacto federativo, uma vez que a transferência de receitas entre as 27 unidades da federação e os mais de 5 mil municípios não é igualitária e, muito menos, proporcional. Segundo o orçamento da União executado em 2012, apenas 10,21% das despesas totais foram repartidas entre os entes federados.

A dívida gaúcha foi refinanciada em 1998, a partir do empréstimo de R$ 10 bilhões ao Estado. Nesse período, o passivo foi sendo quitado, mas ainda assim aumentou de forma incontrolável, tanto que, em 2011, mesmo com R$ 15 bilhões em pagamentos, o saldo devedor já ultrapassava R$ 40 bilhões.

O principal motivo para esse crescimento assustador foram os indexadores adotados pela União, basea-dos em índices de correção monetária completamente fora da realidade do cenário financeiro atual e que retiram aproximadamente 13% do orçamento dos Estados. Nossa preocupação resultou no ajuizamento, pela OAB/RS, em novembro de 2012, da Ação Civil Originária nº 2.059, no STF, para a renegociação da dívida contraída pelo RS junto à União.

E o que o cidadão tem a ver com esse problema? Saúde, educação, segurança, acesso pleno à Justiça e pagamento de precatórios são apenas alguns dos direitos fundamentais da sociedade que não são cumpridos na sua integralidade devido a essa dívida.

Por consequência, o maior prejudicado continua sendo o cidadão brasileiro, que, individualmente em 2013, já pagou quase R$ 2,7 mil em tributos, totalizando nacionalmente mais de R$ 514 bilhões, segundo o “impostômetro” de São Paulo. Por sua vez, o retorno desses impostos segue sendo o pior entre 30 países, conforme o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário.

Buscando modificar essa absurda realidade, aprovamos no ato da dívida pública, em Brasília, o Manifesto pela Revisão da Dívida dos Estados e Municípios, que propõe recalcular os passivos do Estado com a União, levando em consideração três fatores fundamentais: retroativamente à data da assinatura dos contratos dos valores devidos à União, limitados ao IPCA e sem a cobrança de juros; aplicar sobre os passivos remanescentes o IPCA e sem os juros; e limitar a 6% o comprometimento da receita líquida real para o pagamento das prestações futuras.


*PRESIDENTE DA OAB/RS

29 de agosto de 2013 | N° 17537
PAULO SANT’ANA

O chatódromo

Concordo plenamente que todo ambiente de trabalho tem de contar com um fumódromo adjacente.

Mas tem também de ter um chatódromo adjacente, onde sejam colocados os chatos infernizadores. Seria interessante arranjar um chatódromo, em que fossem reunidos todos os chatos para chatearem uns aos outros.

Eu gostaria de ver esse chatódromo. Porque chato que se preze só chateia quem não é chato. E chatos chateando chatos nos fumódromos será o maior espetáculo da Terra, podem cobrar ingresso para ver esse milagre.

Um dos apanágios dos chatos é proibir aos outros as coisas que eles não fazem. Todo chato é proibitivo. Ele se realiza impedindo os outros de fazerem algo. O chato se esmera em ver o que outro gosta de fazer e dá um jeito junto à direção de proibir isso. Quando baixam o ato proibitivo, o chato chega ao orgasmo.

Quanto ao cigarro, o chato sempre esteve na crista dos movimentos que proíbem o uso do fumo. Não tenho nada contra quem não fuma, mas é absolutamente certo que todo chato não fuma. Se ele fumasse, não seria chato.

O chato não fuma, não bebe, a característica básica do chato é não ter vícios criticáveis. O chato não deixa rabo, sua conduta é reta. O chato só tem uma vantagem, ele não é corrupto. E se aproveita de sua incorruptibilidade para livre trânsito na crítica a todos os comportamentos dos outros que ele considera criticáveis.

Outra característica básica do chato é que ele se encoraja sempre a partir para a ofensiva. Na defensiva, ficam sempre os chateados, à espera de que o chato tome sua infalível iniciativa irritante.

Outra coisa que observo: o chato vai para o céu. Porque ele não peca. Se ele pecasse, não teria salvo-conduto para chatear. Se o chato tivesse defeito, ele não teria autoridade para vir chatear os outros.

Portanto, ficamos acertados: o chato é incorruptível, não peca e é um modelo de pessoa. O único problema dele é que só sabe chatear.

Mas este problema é básico e essencial.

O chato vive apontando problemas no comportamento dos outros. Para tanto, ele tem de ser modelar, não pode nunca ser apanhado em algum comportamento censurável.

Quando, numa comunidade qualquer, você notar que há uma pessoa que não transgride nenhuma regra escrita ou tácita, aposte que se trata de um chato.

O chato é o exemplo na bacia das almas. Nunca foi punido ou censurado, sua folha corrida é impecável.

Aliás, ao chato só pode ser atribuído, sem nenhuma dúvida, um pecado capital e original: sua chatice.


E bota pecado chato nisso!

29 de agosto de 2013 | N° 17537
L.F. VERISSIMO

O rio do Éden

O meu relógio biológico é um Rolex. Não, brincadeira. Nós todos temos um relógio dentro de nós que sempre “sabe” exatamente que horas são, embora nem todo mundo saiba que ele sabe, ou confie nele.

O relógio biológico funciona mais ou menos como uma portaria de hotel, à qual você pede para ser acordado a certa hora. Ou como um despertador, que você marca para acordá-lo. O relógio interior pode falhar – as portarias de hotel e os despertadores também falham –, mas sempre que não acreditei no meu me arrependi.

O que aconteceu mais de uma vez foi que o relógio biológico me acordou e fiquei na cama, aflito para saber se a portaria iria se lembrar ou o despertador funcionar, e acabei me atrasando. E minha tese é de que, quando o relógio biológico não nos acorda, é porque, no fundo, não queremos acordar. Algum outro instrumento instintivo que carregamos sem saber prevaleceu e neutralizou o relógio.

É fascinante essa ideia de que trazemos nos genes recursos, impulsos, fobias e encargos dos quais não nos damos conta, como relógios embutidos ligados a alguma fonte inimaginavelmente precisa de tempo certo. Somos portadores de mensagens cifradas que não conhecemos, e não entenderíamos se conhecêssemos.

Há uma teoria segundo a qual o pavor universal de cobras vem de um resquício do passado reptiliano que ficou num dos cantos primitivos do nosso cérebro. E a mais nobre e misteriosa missão que nossos genes realizam à nossa revelia é a de trazer nosso DNA desde as origens da espécie humana até agora. Ninguém nos contratou, mas nossa função no mundo é transportar DNA.


O famoso biólogo darwinista Richard Dawkins deu um título poético a um dos seus livros: River out of Eden. Tirado de Gênese 2:10 “E saía um rio do Éden para regar o jardim, e dali se dividia”. O rio do Éden de Dawkins é de DNA, e passa por todos nós.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Milonga do bem querer

Os Monarcas - Bateu Saudade - Chorar Por Amor Nunca Mais


João Chagas Leite-Lágrimas de flor
ELIO GASPARI

Uma diplomacia estudantil

O Itamaraty é coisa séria, mas, com suas trapalhadas, o comissariado transformou-o numa usina de desastres

A doutora Dilma tem dois chanceleres, um no Planalto e outro no Itamaraty. Apesar disso, restou ao Brasil uma diplomacia trapalhona, cenográfica e inepta. A desova do senador Roger Pinto no território brasileiro transformou uma conduta inamistosa do governo da Bolívia numa estudantada brasileira. Custou o lugar ao chanceler Antonio Patriota. Ele vai para Nova York, mas o comissário Luís Inácio Adams continua advogado-geral da União.

O doutor sustentou que, caso um médico cubano peça asilo territorial no Brasil, será devolvido a Cuba. Agradando o aparelho dos irmãos Castro, ofendeu a história do país e o direito. No ano passado, o Brasil meteu-se noutra estudantada, expulsou o Paraguai do Mercosul e agora corteja seu governo. É uma diplomacia de palavrório e negócios. Patriota foi um detalhe.

A ideia segundo a qual o encarregado de negócios do Brasil em La Paz contrabandeou o senador até a fronteira com o Brasil porque apiedou-se de seu estado emocional é pueril. Se os embaixadores começassem a ser orientados pelos seus sentimentos, seria melhor fechar a Casa. A boa norma determina que um governo dê o salvo-conduto a um asilado em algumas semanas. No exagero, alguns meses. O presidente Evo Morales não quis fazer isso. Direito dele. O político peruano Haya de La Torre ralou cinco anos numa sala da embaixada da Colômbia em Lima. O cardeal Jozsef Mindszenty, outros 15 na embaixada dos Estados Unidos (que não são signatários das convenções de asilo diplomático) na Hungria.

Se alguém pensou que combinou a fuga com Evo Morales, fez papel de bobo e transformou o algoz em vítima. Transferiu o vexame para o diplomata Eduardo Saboia, deixando-o numa posição de franco-atirador. Coisa parecida fez no mundo dos negócios, quando transferiu para o embaixador do Brasil em Cingapura uma transação meio girafa que favorecia os interesses do empresário Eike Batista.

A maneira como a diplomacia de Lula e da doutora lidaram com o instituto do asilo revela desrespeito histórico com um mecanismo que protegeu centenas de brasileiros perseguidos por motivos políticos. Ele ampara gregos e troianos. Em 1964, brasileiros asilaram-se na embaixada boliviana. Anos depois, oficiais golpistas bolivianos asilaram-se na embaixada brasileira e o governo esquerdista do general Juan José Torres deu-lhes salvo-condutos em 37 dias.

Carlos Lacerda asilou-se por alguns dias na embaixada de Cuba e João Goulart pediu asilo territorial ao Uruguai. Em poucos meses, o governo do marechal Castello Branco concedeu salvo-condutos a todos os asilados que estavam em embaixadas estrangeiras. Já o do general Médici, vergonhosamente, fechou as portas de sua representação em Santiago nos dias seguintes ao golpe do general Pinochet e dezenas de brasileiros foram obrigados a buscar a proteção de outras bandeiras.

Contudo, nem mesmo Médici deportou estrangeiros para países onde poderiam ser constrangidos. Isso ocorreu durante a gestão do comissário Tarso Genro no Ministério da Justiça, com dois boxeadores cubanos que, posteriormente, voltaram a fugir da ilha.

O direito de asilo é uma linda tradição. Não se deve avacalhá-lo.


Nas próximas quatro quartas-feiras o signatário estará refugiado no ócio.
Jairo Marques.

Alguém para se inspirar

Não há novas canções que façam a juventude caminhar contra o vento; nada faz muito sentido

Meu grande amigo Benê, motorista aqui do jornal, soltou o que para mim foi o melhor resumo do sucesso da visita do papa ao Brasil: "A gente anda muito carente de coisas boas, de pessoas que façam algo que nos inspire. Com tanta simpatia e tanto carisma, o Francisco encantou o povo".

Passei o resto do dia matutando sobre a sentença do meu parceiro de trabalho, que tem sangue espanhol, coração de felicidade e fala mais do que papagaio na chuva.

Na música, não consigo ver gente à moda Caetano, Chico ou Vinicius. Não há novas canções que façam a juventude caminhar contra o vento, os desanimados cantarem que ser alegre é melhor do que ser triste, os românticos declararem que irão amar devagar e urgentemente.

Ligo o rádio e só o que ouço é um tal de "prepara que, agora, é hora do show das Poderosas" ou "uísque, água de coco, para mim, tanto faz". Nada tem muito sentido ou faz a gente ganhar um tiquinho de força para encarar o dia, para enfrentar a noite.

Bingo para a Galinha Pintadinha, mas ninar um bebê tão gostoso como fazia a voz de Caymmi em "boi, boi, boi" não se encontra mais. Brincar com a imaginação com uma casa muito engraçada sem porta, sem janela, ao som macio e elegante de Toquinho, também não vejo possibilidades.

Posso concordar que esse meu discurso seja de um saudosista ou um choro de muito dodói para pouco mertiolate, como me disse uma leitora dia desses, mas arregalo os olhos buscando novas fontes para melar a alma de vigor, de paixão por tudo, de sorriso por nada, mas não encontro.

Que delícia era se fartar de inspiração para amar lendo aquilo que o Drummond escrevia a respeito do tão esperando dia em que chega aquela alma luminosa: "Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida".

Hoje, as meninas têm gostado é das variações do cinza, de blogs de maquilagem e de vídeos engraçados do Porta dos Fundos. Tudo muito rápido, prático, debochado e incolor. Para amanhã, pouco irá restar na memória e quase nada se guardará para sempre.

Temo pelo dia em que as bancas de flores irão sucumbir diante da força dos presentes tecnológicos e que os cartões dos ursinhos carinhosos, cheios de perfume e de marcas de batom, vão estar estacionados em museus em vez de guardados em lembranças de grandes amores.

E essa toada de letargia de fazer por onde borboletas se alvorocem na barriga e grilos saltitem pelo cérebro vai atingindo a todos, mas principalmente aos que mais precisam de energia para transformar tudo aquilo que desanda pelo mundo.

Professores, enfadados de ganhar pouco e serem hostilizados por alunos, não têm mais o vigor de ensinar que a vírgula jamais poderá separar o sujeito do predicado e, assim, Maria sonhará eternamente com José.

O médico não quer olhar na cara e muito menos explicar a doença, o político não quer parar de roubar nem trabalhar às sextas-feiras, o cozinheiro nem pensa em dividir o bolo e jornalista não colhe notícia boa.

Está lançado o movimento "Alguém para se inspirar".


jairo.marques@grupofolha.com.br

28 de agosto de 2013 | N° 17536
MARTHA MEDEIROS

Todos os motivos do mundo

Da série “Morro e não vejo tudo”: 165 mil pessoas de mais de 120 países se inscreveram para participar do programa de assentamento em Marte, projeto elaborado pela organização holandesa Mars One. Os brasileiros estão em terceiro lugar em número de inscritos: 8.686 – perdem apenas para americanos e chineses. No próximo sábado, encerram-se as inscrições.

A empresa pretende desembarcar quatro voluntários em 2023, e depois novos cosmonautas a cada dois anos, a um custo de US$ 6 bilhões, parte financiada por um reality show sobre os primeiros anos de existência da colônia. Idade mínima: 18. Taxa de inscrição: de US$ 5 a US$ 75, dependendo da nacionalidade do cidadão, que deve enviar também um vídeo de um minuto falando sobre os motivos de querer viver em Marte para sempre.

Um minuto de motivos? Cronometre aí.

“Desatentos” que continuam jogando lixo na rua – multa para todos, não só para os cariocas. O custo de vida. Fraudes em licitações. Corrupção em todos os setores da sociedade. A demora em concluir obras. A péssima qualidade dos serviços públicos. Gente levando tiro dentro de hospital. Crianças sendo violentadas por parentes. Policiais envolvidos em crimes. Irresponsáveis dirigindo a 150 km/h. Fanáticos religiosos. Impostos que são verdadeiros assaltos.

Burocracia que impede a agilidade de novos negócios. Calçadas em péssimas condições. Estradas que ficam intransitáveis aos primeiros cinco minutos de chuva. Irregularidades em contratos. Violência urbana sem controle. Professores mal pagos. Funcionários mal treinados. Ruas sem placas de identificação. Tornozeleiras eletrônicas que não funcionam. Enchentes a cada temporal. O quê? Já passou um minuto?

Nem deu tempo de falar do que acontece fora do Brasil, como utilização de armas químicas na Síria, os índices de mortalidade na África, o fundamentalismo islâmico, a recessão europeia etc. etc.

E tem ainda as crises pessoais. O que não falta por aí são pessoas desmotivadas, devendo dinheiro, administrando fracassos, sem perspectiva de crescimento, amargando dores de cotovelo, entediados com a vida, aborrecidos crônicos, sem fé no futuro. A oportunidade de em 10 anos partirem em uma expedição inédita e eternizarem seu nome através de um projeto sem precedentes na história da humanidade daria a eles um sentido pra vida. Colonizar Marte – e com cobertura da imprensa!

A viagem durará alguns meses. A espaçonave é estreita. De alimentação, apenas produtos liofilizados e enlatados. Banho, só com toalha úmida. Desistir no meio do caminho está fora de cogitação. Pedir para descer, nem pensar. E a passagem é só de ida.

Ainda assim, 165 mil pessoas se inscreveram, o que me faz chegar a duas conclusões: que a vida na Terra, definitivamente, não está para brincadeira. E que Marte deve ter wifi grátis.



28 de agosto de 2013 | N° 17536
ARTIGOS - Cristiely Carvalho

O saboroso agridoce

Até esta quarta-feira, o Estado destaca campanhas e debates dentro da programação da 19ª Semana Estadual das Pessoas com Deficiência Comunicação e Informação: Eliminando barreiras, construindo horizontes. O tema deste ano descreve bem a vida das pessoas com deficiência, de que falo com conhecimento de causa, tendo em vista que minha família é composta por três deficientes visuais, entre os quais me incluo.

Com esses eventos, percebo que estamos longe do ideal ao falar de acessibilidade, porém aos 24 anos acompanhei os avanços em diversas questões sem resposta para pessoas antes excluídas do meio social. A Lei 9.394, de 20 de dezembro de 1996, estabelece que o ensino escolar para pessoas com deficiência seja oferecido preferencialmente em instituições regulares de ensino, havendo, quando necessário, apoio especializado para os alunos com necessidades especiais.

Contudo, antes de a lei entrar em vigência, em 1995, minha irmã, que é cega, já estava incluída na escola comum, com crianças “videntes” e professores que, ao longo dos anos, foram aprendendo como ensinar, incluir e conviver diariamente com alunos deficientes, graças ao esforço coletivo de pessoas dedicadas. Entretanto, viver no mundo “normal” exige estimulação, apoio e puxões de orelha para corrigir a postura errada, adaptar-se à falta de acessibilidade e, principalmente, compreender diariamente que fazemos parte de um ambiente ao qual precisamos nos adaptar, pois ele não se moldará a nós.

Local de disseminação do conhecimento, a universidade mostrou-se despreparada quando algumas pessoas sugeriram a troca de curso devido à incompatibilidade do jornalismo com a deficiência visual. Porém, este problema foi compensado com incentivo e êxito no fim do curso. No mercado de trabalho, conheci a alegria do trabalho voluntário até conquistar o primeiro emprego em um hospital, onde ensinei, mas aprendi muito mais.

A estimulação da família, o acesso à informação e contato permanente com o real moldou minha personalidade para vida e trabalho, pois sou adaptada a mudanças, virei multifuncional. Apesar das limitações da deficiência, estou preparada para dificuldades e momentos de crise. Dessa forma, se os deficientes aceitarem suas limitações, estiverem dispostos a novas rotinas e tiverem paciência e coragem, terão uma vantagem na chegada ao mercado de trabalho, a experiência de vida.


*JORNALISTA

28 de agosto de 2013 | N° 17536
NEGÓCIO DE OCASIÃO

Público jovem faz Pompéia levar Gang.

Grupo Lins Ferrão compra rede voltada para consumidores de 13 a 18 anos

Em busca do público jovem, o Grupo Lins Ferrão, detentor da Lojas Pompeia, anunciou ontem a compra da rede de lojas Gang. Com a aquisição, o grupo passa a ter 104 pontos de venda no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina.

Durante os próximos dois anos, parte da diretoria da Gang deve permanecer atuando na empresa para ajudar os novos administradores no comando do negócio. Com a compra, o Grupo Lins Ferrão, que antes tinha estabelecimentos apenas no Rio Grande do Sul, passa a atuar também em Santa Catarina. A Gang tem três lojas localizadas no Estado vizinho.

– A ideia é fazer um teste para no futuro, talvez, também abrir filiais da Pompéia em outros Estados – disse Carmen.

Outros três empreendimentos da rede devem ser inaugurados até o final deste ano em Pelotas, Gravataí e Dois Irmãos.

A Pompéia começou em 1953, como uma pequena loja de artigos masculinos em Camaquã, a partir do sonho do vendedor Lins Ferrão de ter seu próprio negócio. Ao lado do irmão Valdemar no comando da loja A Principal, em pouco tempo observaram o potencial de compra entre mulheres, e decidiu ampliar a gama de produtos vendidos, incluindo roupas femininas, infantis, calçados e artigos de cama, mesa e banho.

Vinte anos depois, a loja mudou de nome para Pompéia, porque Lins Ferrão gostou muito do bairro de mesmo nome em São Paulo. Com o slogan Vestindo e Calçando a Família, a rede se expandiu. Outra salto nos negócios foi em 2004, quando as lojas foram remodeladas e o lema passou a ser É Fácil ser Fashion.

Campanhas criativas marcaram época

Aberta em Porto Alegre em 1976, a Gang logo conquistou consumidores pela oferta de produtos para o público jovem, numa época em que havia carência de um atendimento específico para esse segmento. A loja foi fundada pelo empresário Sílvio Sibemberg, que já tinha experiência no varejo.


Entre os adolescentes da época, ter uma peça de roupa da marca da loja era com usar grifes globais atualmente. No início dos anos 1980, a rede se tornou revendedora das calças jeans da Levi’s. Com campanhas publicitárias diferenciadas e o slogan A Loja que te Entende, a Gang inaugurou novos pontos de venda. A primeira filial no Interior abriu as portas em Pelotas, em 1984.

28 de agosto de 2013 | N° 17536
EDITORIAIS

DIPLOMACIA E POLÍTICA

Espera-se que a decisão da presidente Dilma Rousseff de afastar Antonio Patriota e nomear Luiz Alberto Figueiredo para o Ministério das Relações Exteriores reflita um novo momento nas relações entre Brasil e Bolívia. A troca de guarda no Itamaraty foi decidida dois dias depois da chegada ao Brasil do senador boliviano Roger Pinto Molina, que faz oposição ao governo do presidente Evo Morales e estava havia mais de 500 dias abrigado na embaixada brasileira em La Paz.

Os detalhes ainda nebulosos dos bastidores da transferência por terra, a bordo de carro consular, em companhia do encarregado de negócios da embaixada e escoltado por dois fuzileiros navais, numa jornada de 22 horas ao longo da qual o grupo foi interceptado por várias barreiras policiais não devem obnubilar o aspecto de que a Constituição Federal consagra a concessão de asilo político. Independentemente das possíveis conclusões de apurações do Itamaraty e do Congresso, o fato concreto é que o senador conseguiu deixar a embaixada e se reunir a sua família, que já se encontra no Brasil.

Não é de hoje que o governo brasileiro tem agido com excessiva subserviência em relação aos arroubos nem sempre democráticos do governo boliviano. O país vizinho já invadiu refinaria da Petrobras, promoveu revista a avião do ministro das Relações Exteriores, inspeção com cães farejadores a aeronave que transportava parlamentares e manteve torcedores corintianos presos por quase seis meses. No caso particular do senador Pinto, La Paz recusou-se a conceder salvo-conduto para que o parlamentar deixasse a embaixada e, diante do ocorrido, pediu que o Brasil recambie o “fugitivo da Justiça” (Pinto foi condenado em junho por desvio de verba para a Universidade Amazônica de Pando).

Não há justificativa para essa linguagem e essas atitudes no relacionamento entre dois países que, além de vizinhos, têm um histórico de amizade e cooperação. É preciso reconduzir o relacionamento bilateral entre Brasil e Bolívia aos termos adequados, ainda que, para isso, seja preciso enviar recados duros a La Paz.

No momento em que a presidente substitui um ministro de Relações Exteriores de sua própria escolha e que a acompanhou desde o início do mandato, é oportuno que se proceda a uma reavaliação crítica das diretrizes da atual política externa.


O episódio com a Bolívia mostra as insuficiências de um determinado tipo de diplomacia que, por condescendência e leniência, tem confundido solidariedade e respeito aos vizinhos com licenciosidade. Nos últimos anos, o Brasil passou do complexo de vira-lata ao complexo de cachorro grande, tratando com excessiva polidez os mais tresloucados gestos de governos sul-americanos em nome de uma política Sul-Sul que, muitas vezes, falha em resguardar os mais elementares interesses nacionais. Não poderia haver melhor oportunidade para corrigir tal distorção.

28 de agosto de 2013 | N° 17536
PAULO SANT’ANA

O abismo do canalha

Em breve, lançarei um blog especial na internet que, em suma, será a minha segunda coluna diária. A primeira é esta que você está lendo, a segunda será a do meu blog especial.

Evidentemente que a maioria dos meus leitores de ZH irá correndo para ler meu blog. Ele será inseparável de mim e por isso se tornará inseparável dos meus leitores de ZH.

Em suma, serei duplo. Aqui nesta coluna, escreve o Paulo Sant’Ana. No meu blog, escreverá Pablo. Eu sou dois. Portanto, se só escrever em ZH, haverá apenas metade de mim. Em suma, cada leitor meu é apenas sua metade. Com meu blog, cada leitor meu se realizará por completo.

O leitor e eu nos realizaremos por completo. Por sinal, como escreverei abaixo numa história, todos nós somos dois. E muitos de nós nos revelamos como um só, portanto incompletos.

Há o caso do sujeito que fez uma canalhice comigo.

Ninguém acredita que esse canalha seja canalha. Porque não o conheceram como eu. O canalha me fez canalhice pelo simples fato de que não soube me invejar em silêncio, e me fez a canalhice.

Ele tem muitos amigos que não sabem que ele é canalha, porque não são invejados por ele.

Mas todo e qualquer canalha é impulsionado à canalhice pelo vírus da canalhice que lhe corre no sangue. Ele sai às ruas todos os dias pronto a fazer uma canalhice a qualquer pessoa que ele inveje e esteja a seu alcance.

O canalha pode invejar o Chico Buarque, mas como o Chico Buarque não está a seu alcance, ele deixa pra lá. Mas, no meu caso, eu estava ao alcance do canalha e ele me inveja com todas as suas forças. Para ele, foi só dar um passo e me praticar a canalhice.

Por que o canalha é cercado por tantas pessoas que não percebem que ele é canalha? Exatamente porque essas pessoas que o cercam não lhe causam inveja, é fácil portanto a essas pessoas acharem que o canalha não é canalha.

Se alguma dessas pessoas que cercam o canalha um dia vier a ser invejada por ele, constatará que ele não passa de um canalha, eis que atacará logo em seguida.

No momento em que escrevo sobre o canalha, isso o deixa enfurecido. E eu estou fazendo isso para que ele se enfureça pela segunda vez e me ataque pela segunda vez.

Na vez primeira, o ataque dele não foi esclarecido. Agora, pretendo que seu segundo ataque de canalhice vá às últimas consequências, isto é, desmascare-o completamente. Porque não é bom para a civilidade que um canalha assim solto pela ruas continue não identificado. E eu decidi que o canalha vai parar de fingir que não é canalha e será exposto à execração pública.

O meu urdido plano já começou a dar certo: vou irritar até a explosão pessoal o canalha pela segunda vez. Na primeira vez, ele explodiu, mas nos apartaram. Mas eu garanto que ele não se segura mais, vai me atacar pela segunda vez.


Será o abismo para o canalha. E todo canalha tem curiosidade mórbida pelo abismo.

terça-feira, 27 de agosto de 2013


27 de agosto de 2013 | N° 17535
FABRÍCIO CARPINEJAR

O lado do sol da calçada

Sem esperança, não há generosidade. Sem esperança, ninguém rende no trabalho. Sem esperança, ninguém será receptivo no relacionamento.

Sem esperança, ninguém entenderá um amigo. Esperança é garantir que tudo pode ser feito com calma, que não é preciso acertar sempre.

Esperança é espontaneidade. Esperança é leveza que se faz densidade. Esperança é não pressionar. Esperança é se doar sem medo de acabar.

A generosidade vem da esperança, eu garanto.

Quem não tem esperança será avarento, poupará sua energia, entrará em estado de sítio, economia de guerra, fará estoque de alegria no porão dos nervos. Não poderá oferecer ao outro o que faltará para si. Começará a acender velas devido à luz cortada de seus olhos, passará a resmungar devido à voz falhada de sua boca.

O desesperançado deixa de fazer convites, restringe os favores, recusa sair, sonega a casa a visitas. Ele é uma ostra que se torna marisco – não tem brilho de pérola para chamar o mar.

A esperança é tempo de ser, véspera, ensaio. Não se luta pela esperança. Mas, sem esperança, não se luta por nada.

A amargura decorre justamente da ausência de perspectiva. Alguém ameaçado de perder seu emprego será egoísta. Alguém separado será apocalíptico.

Alguém falido não dará bom-dia muito menos boa-noite.

Alguém isolado não pensará em ajudar uma velhinha a atravessar a rua ou a carregar suas sacolas de mercado. A esperança é educação. A esperança é tranquilidade. A esperança é liberdade.

A esperança é perceber que, por pior que seja aquele dia, haverá outro totalmente inesperado. A esperança é crédito. O crédito é realidade recuperando os atos. Acaba a esperança, explode a raiva. Acaba a esperança, reina o ressentimento.

A esperança destrói a onipotência, o controle dos fatos. Com esperança, as páginas estarão abertas para a escrita, não escreveremos bilhetes de adeus, não encerraremos o expediente com a morte e o fim.

Um naco de esperança e já somos felizes. Um pouquinho de esperança e já nos recuperamos. Um bocado de esperança e já levantamos o rosto para capturar o vento.

A esperança é confiar em que nada é definitivo, nada é absoluto, nada é perfeito.

Todo homem e toda mulher são generosos quando banhados de esperança. Pretendem mudar, atendem pedidos inconcebíveis, estarão flexíveis e dispostos, autocríticos e atentos. Sem esperança, ficam hostis e intratáveis, bichos com raiva, animais encurralados.

A vida é fácil com esperança. Não tem porta fechada. É possível sair e entrar no mesmo erro. Não existe julgamento e sentença, apenas a vontade de seguir em frente e procurar o lado do sol da calçada.

Sem esperança, não há nem mesmo o perdão.



27 de agosto de 2013 | N° 17535
EDITORIAIS

MAIS EDUCAÇÃO

O anúncio do Ministério da Educação (MEC) de que estuda a possibilidade de levar professores a locais nos quais os profissionais de ensino inexistem ou são em número insuficiente é promissor num país tão carente de investimento na área escolar como o Brasil.

É ponto pacífico que o atingimento das 20 metas do Plano Nacional de Educação, atualmente em tramitação no Senado, só será possível se houver a devida valorização da função docente. Como afirma o Anuário Brasileiro da Educação 2013, essa valorização passa pela elevação do nível salarial, mas também por um conjunto de instrumentos que aperfeiçoem as condições do exercício profissional. Uma política que permita recrutar professores para atuar em regiões hoje desassistidas só pode contribuir para reverter o quadro atual, no qual os educadores não têm perspectivas de futuro e vivem aos sobressaltos.

Ainda assim, a intenção não pode repetir erros como os que cercam o programa Mais Médicos, do Ministério da Saúde, no qual a iniciativa se inspira. Um dos aspectos a ser detalhado pelo MEC é o dos critérios de seleção de profissionais. A intenção do ministério é de que, mediante o pagamento de uma bolsa, professores se disponham a atuar nessas escolas.

Estabelecimentos com rendimento insuficiente seriam beneficiados com a alocação de professores com perfil de excelência a fim de melhorar o ambiente acadêmico. Na falta de profissionais disponíveis na rede pública, o governo tentaria atrair professores aposentados interessados em retornar à sala de aula.

Não resta dúvida de que essas e outras diretrizes precisam ser melhor configuradas a fim de evitar desnecessários dissabores como a atual controvérsia jurídica em relação aos contratos de trabalho dos profissionais que participam do Mais Médicos.

O Mais Professores faz parte do Compromisso Nacional pelo Ensino Médio e tem como objetivo, prioritariamente, contemplar municípios com um baixo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). A sociedade – não apenas o Estado, mas as empresas e as famílias – precisa se envolver nesse debate, aproveitando o momento atual, no qual a proposta se encontra aberta a sugestões, como assegura o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. O país tem de avançar em direção a mais e melhor educação. Um dos pressupostos para garantir esse salto deve ser mais qualidade, e não apenas mais quantidade.


O imenso acúmulo teórico e prático obtido por décadas de gestão da educação e as inúmeras expe- riências valiosas da União, dos Estados e dos municípios nesse terreno devem servir de parâmetro para que se estabeleçam metas claras e exequíveis e não se dispersem recursos materiais nem humanos. Os desafios do Brasil em áreas como saúde e educação são graves demais para que se tratem esses problemas apenas como campo de testes para experiências descontinuadas, com caráter meramente eleitoreiro.

27 de agosto de 2013 | N° 17535
ARTIGOS - Antonio Weston*

Os profissionais de Cuba

O meu conhecimento sobre a medicina cubana é quase nenhum. Mas não posso dizer que esta é uma situa-ção original, tendo em vista que a grande maioria dos brasileiros também não têm maiores informações sobre como um médico atua em Cuba, ou qual a qualidade da sua graduação. Temos algumas notícias sobre Programas de Medicina de Família bem-sucedidos em Cuba, organizados pelo governo de lá. Além desses programas, nenhuma outra notícia.

Também fico devendo no quesito de explicar por qual razão 4 mil profissionais de Cuba desejariam sair por três anos do seu país para virem trabalhar no Brasil. A grande verdade é que existe dificuldade para explicar o lado cubano da questão. Então vamos abordar a questão brasileira.

Como explicar o fato de contarmos com um número suficiente de profissionais, com uma adequada proporção de médicos por habitantes, e mesmo assim a saúde no Brasil ser um grave problema? Não precisa ser um grande conhecedor do tema para saber que a solução não está no número de profissionais, e sim na falta de estrutura de atendimento.

As cenas das emergências hospitalares superlotadas são muito esclarecedoras do verdadeiro problema pelo qual estamos passando. Não há investimento na infraestrutura necessária, faltam leitos hospitalares e postos de saúde adequados que funcionem 24 horas por dia; falta um programa sério de medicina preventiva capaz de evitar que grande parte dos pacientes tenha que buscar atendimento em uma emergência hospitalar por uma doença que, se tivesse sido diagnosticada e tratada adequadamente, não o levaria para o hospital.

Nos locais onde faltam médicos, também faltam exames laboratoriais, equipamentos de diagnóstico de imagem. Falta também disposição dos dirigentes locais para propor programas sérios de fixação do profissional na sua cidade.

Não existem soluções mágicas para a grave crise na saúde que vivemos. O que existe é muito trabalho pela frente e a necessidade de mudar a visão de que, colocando um ou dois profissionais em uma área remota, tudo vai ficar bem. Nós sabemos que essas medidas não irão resolver – e isso será comprovado mais adiante. A população brasileira necessita de muito mais do que médicos, sejam eles cubanos ou não: de um enfrentamento lúcido que impulsione a real vontade de transformar esse cenário.


*DIRETOR CIENTÍFICO DA ASSOCIAÇÃO MÉDICA DO RIO GRANDE DO SUL

27 de agosto de 2013 | N° 17535
LUÍS AUGUSTO FISCHER

Projetos falhados

Meu amigo Paulo Guedes e eu uma vez pensamos em escrever uma memória sobre os vários projetos de trabalho em que pusemos fé, infrutiferamente. Sou capaz de lembrar agora mesmo uma dúzia de ideias que não prosperaram.

Três exemplos. Uma revista para professores, idealizada com o citado Paulo e outros, junto a uma das editoras que havia em Porto Alegre nos primeiros anos 1980. Um jornalzinho para estudantes do Ensino Médio, em meados dos 1980, desta vez por inspiração de meu falecido amigo Antônio Aladrén – para o número zero desse jornal colaboraram dois talentos em brotação, ambos alunos de Jornalismo e hoje figuras de destaque em Porto Alegre e no Brasil.

Um jornal de cultura, que se chamaria, talvez, “Meio mundo”, nome inventado pelo Edgar Vásquez, e seria bancado pela Secretaria de Cultura de Porto Alegre, lá por 1993, sendo nosso chefe o também falecido Pilla Vares.

Não paro de lembrar meus mortos de estimação: o ainda querido e sempre saudoso Aníbal Damasceno Ferreira certa vez me contou que tinha um título perfeito para uma revista de cultura. Era para ser uma publicação sem periodicidade, sem compromisso com qualquer calendário, que sairia apenas quando o pessoal tivesse algo realmente forte para dizer. O nome: “Temporal”. Logo abaixo, para explicar sua natureza, em direta analogia com o título, viria a frase: “Só sai quando se arma”.

Em algum lugar dos meus guardados eu tenho uma pasta de plástico chamada “Os projetos todos tolos combinados”, que é um verso de uma canção cantada pela Elis, chamada Sentimental Eu Fico, do Renato Teixeira, veja só.

Tudo isso me voltou à mente agora, em que finalmente li a carta de Machado de Assis a Araújo Porto-Alegre, de 1875, pedindo informações sobre Basílio da Gama (está em Correspondência de Machado de Assis, Tomo II, editado pela Academia Brasileira de Letras com coordenação de Sérgio Paulo Rouanet). Machado queria escrever uma “larga biografia” do Gama, como ele merecia. Ficou para nunca essa vontade, que porém serve para mostrar o quanto um gênio sabe reconhecer um tema relevante, ainda hoje pouco conhecido.


27 de agosto de 2013 | N° 17535
PAULO SANT’ANA

Reprodução no cativeiro

O título acima é aplicado aqui na Zero Hora às pessoas que começam a trabalhar solteiras na Redação e acabam casando-se com colegas de trabalho.

Elas têm filhos, levam o casamento à frente ou se separam, mas celebram no curso do contrato de trabalho um outro contrato, o de matrimônio. E seguem trabalhando como jornalistas no mesmo jornal e constroem famílias e têm até filhos.

A expressão “reprodução em cativeiro” é apenas um bem-humorado qualificativo diante do fato de que são colegas de trabalho que se conhecem no serviço, se apaixonam e se casam.

Nada mais natural que acabem casando-se pessoas que trabalham juntas. Vão todos os dias ao mesmo local, travam conhecimento e relações, muito espontâneo que o namoro e o casamento brotem dessas relações.

O ambiente de trabalho é espontaneamente erigido como sede das relações de idílio. Há até casos de pessoas que se separam de seus esposos (as) e vêm a casar-se com seus colegas.

Isso é natural. Quem passa oito ou nove horas diárias trabalhando no meio de outras pessoas acaba passando mais tempo no trabalho do que no lar, onde gastam cerca de oito horas para dormir, enquanto no serviço perfazem o horário totalmente acordados.

Há um caso aqui na Redação de Zero Hora em que um homem conheceu sua esposa neste ambiente, teve um filho com ela, 18 anos mais tarde esse filho também se empregou em Zero Hora e veio mais tarde a noivar com uma sua colega de jornal, enveredando, então, para duas gerações “reproduzidas no cativeiro”.

Isto acontece quase que naturalmente em empresas longevas. Eu, por exemplo, trabalho há 44 anos em Zero Hora e, não fosse casado antes de ingressar no nosso jornal, fatalmente teria conhecido minha esposa aqui entre os computadores da Redação.

Não é só aqui que acontece isso. Ocorre também em todos os outros ambientes de trabalho. Há casos de garçons de restaurante que se casam com cozinheiras, de seguranças que se casam com telefonistas, todos nas mesmas empresas. Ou seja, o trabalho é ambiente propício para o idílio, para o idílio e até para o casamento.

Tanto que foi objeto de reportagem do jornal o casamento de uma detenta do Presídio Feminino Madre Pelletier que veio a casar-se com um guarda do serviço externo da prisão.

Interessante nesse fato é que ele bate de frente com uma filosofia existencial que manda que as horas de folga ou até mesmo de doces vagabundagens são propícias para o namoro e até para a construção de casamentos.

No nosso caso aqui e no de tantos outros, é o trabalho que inspira o amor. Que não raro, como se sabe, termina até em construção de prole.

Como diz um ditado latino traduzido, onde se labuta é que se executa.

Como recebi meia dúzia de protestos por ter publicado na coluna de ontem uma anedota sobre os males de Parkinson e Alzheimer, apesar de insistir que não tive nenhuma má intenção ao divulgá-la, apresso-me desde já a pedir desculpas pelo que escrevi, que pode, quem sabe, ter ferido raros e respeitáveis pacientes dessas doenças.


Peço perdão.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Symphony of Science - Sinfonia da Ciência - Poesia da Realidade


Oração de São Francisco de Assis - um lindo mantra

Oração pela familia Padre Zézinho com letra

Segura Na Mão De Deus


Oração da noite Jesse
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Feliz semana meu anjo,que seja de muita paz saúde e muito Amor!!
Um abraço e meu carinho...





Me defendo com sorrisos e ataco 
com silêncios.!
Bjossss