quinta-feira, 21 de janeiro de 2010


ELIANE CANTANHÊDE

Razão e emoção

BRASÍLIA - Mais do que projetar resultados eleitorais no Brasil, a sucessão presidencial no Chile relativiza o oba-oba brasileiro. Lula tem seus 80% de popularidade, mas a chilena Michelle Bachelet tem até mais, e o colombiano Alvaro Uribe está perto disso.

Além dos méritos dos três, há dados objetivos: nunca antes, não só no Brasil, mas na América Latina, houve crescimento médio, inflação baixa e investimentos como nesta década.

O reflexo, lógico, é nos indicadores sociais. Só em 2005 e em 2006, 13 milhões de latino-americanos saíram da linha de miséria. O Brasil não é uma ilha. É parte desse contexto.

Nem os mais de 80% nem a onda da economia (estancada na crise de 2009, mas sem recuo) foram suficientes para Bachelet fazer o seu sucessor.

Ganhou o empresário mais bem-sucedido do Chile, Sebastián Piñera -de "direita", por óbvio. Isso, por si, já justifica que analistas independentes e assessores engajados quebrem a cabeça para entender o processo e transportar lições para o Brasil. Mas sem certezas, por favor.

Aqui no Brasil, como diz didaticamente Mauro Paulino, do Datafolha, só os mais ricos e mais escolarizados já estão antenados para a eleição e se alinham, majoritariamente, com Serra ou com Dilma.

A eleição só vai começar a ser definida quando os da outra ponta -os mais pobres e menos escolarizados- passarem a se interessar e a conhecer os candidatos. O que depende da razão e da emoção.

Aí entra Lula, que não é Bachelet e, na análise de Paulino, é uma faca de dois gumes. Como ídolo, tanto pode transferir votos para Dilma como pode ser uma sombra, evitando que ela brilhe, que o eleitor preste atenção, confie e vote nela.

Dilma, assim, além de disputar com Serra os ganhos que não são só do Brasil, mas da região, terá de calibrar o apoio de Lula, para ser forte o suficiente para alavancá-la, mas não tanto a ponto de sufocá-la.

elianec@uol.com.br

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