terça-feira, 1 de dezembro de 2009



01 de dezembro de 2009 | N° 16172
MOACYR SCLIAR


Libertando-se do fumo

A importante Pesquisa Especial sobre Tabagismo, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em parceria com o Instituto Nacional do Câncer, do Ministério da Saúde, e divulgada no último fim de semana, apresenta dados surpreendentes sobre o hábito de fumar no Brasil.

Para começar, uma notícia não muito boa: o Rio Grande do Sul é o segundo estado em que mais se fuma, e as gaúchas são as brasileiras que mais fazem uso do cigarro: 17,2% delas fumam diariamente (pô, gurias, vocês bem que podiam arranjar um jeito mais sadio de autoafirmação, não é mesmo?).

Baseados nos dados da ampla amostra, conclui-se que fumam 24,6 milhões de brasileiros, ou seja, 17,2% da população com 15 anos mais. A boa notícia: um número maior que este, 26 milhões de pessoas, deixaram de fumar. Temos mais ex-fumantes do que fumantes, mostrando que o Brasil de fato aprendeu a lição: o tabaco é um desastre para a saúde.

E, entre parênteses, custa caro: no RS, os fumantes gastam em média R$ 100 por mês com cigarros.

Isto já não é segredo. Dos fumantes, nada menos que 93% (praticamente todos) sabem dos malefícios do fumo. Em 57,1% dos casos a advertência veio de um médico, o que, de novo, é uma boa notícia: uma recente pesquisa mostrou que, nos Estados Unidos, a maioria dos profissionais nada diz sobre o assunto ao paciente fumante que está atendendo.

E 68% dos fumantes reconhecem que a advertência nos maços de cigarro fizeram-nos pensar em largar. Isto é importante, porque as cenas ali mostradas, muitas vezes penosas, foram objeto de críticas; o dado, porém, mostra que o material funciona. Diante de um hábito que mata, não se pode usar meias medidas: é preciso falar do problema de maneira franca e aberta.

E mais, é preciso fazer com que a pessoa tome consciência disso inclusive via bolso: aumentar o preço do cigarro (desde que isto não chegue a estimular o contrabando, claro) é um recurso poderoso .

O mesmo se pode dizer da proibição de fumar em lugares públicos, coisa que o Paraná adotou na semana passada, com uma pesada multa (perto de R$ 6 mil) para quem transgredir.

Mais ou menos a metade dos brasileiros e das brasileiras pensa em deixar de fumar. Mas, e aí vem um dado muito chamativo. Quando se pergunta a essas pessoas quando, afinal, vão parar, descobre-se que isso na verdade ainda está no terreno das intenções; só 7,3% delas dizem, e de maneira, convenhamos, vaga, que deixarão “no mês seguinte”. Mais uns 11% falam no ano seguinte.

Ou seja: é o característico hábito de protelar, endêmico no Brasil, e que faz as pessoas deixarem as coisas para a última hora. A “última hora”, no caso, é o infarto, é o câncer, é a doença respiratória grave; aí as pessoas abandonam o cigarro, não raro com raiva e amargura (“Por que não fiz isso antes?”).

Pois bem, precisamos mudar. Conversei a respeito com o dr. José Miguel Chatkin, conhecido pneumologista e estudioso do tabagismo. Perguntei-lhe se, no calendário de saúde do Brasil, havia uma data, ou datas, que fizessem parte de um esforço coletivo para deixar de fumar. Ele disse que não.

Bem, então precisamos disso, de um Dia do Basta para o cigarro; um dia em que, em todo o país, pessoas jogarão fora seus maços de cigarro e dirão: “Eu estou me libertando, eu não fumo mais”.

Pode ser o 31 de dezembro, data clássica de boas resoluções. Entre parênteses, é preciso, nesse momento, contar com o apoio dos serviços de saúde, através de grupos de ex-fumantes (as pessoas precisam se ajudar mutuamente).

O Brasil aboliu uma escravatura, a escravatura negra. Falta abolir outras. E a escravatura ao cigarro é prioridade neste sentido

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