domingo, 27 de dezembro de 2009


DANUZA LEÃO

Os melhores tempos

Um telefonema inesperado, só para dizer que está com saudades, pode encher de alegria o coração

ÀS VEZES fico pensando: quais foram os melhores anos de minha vida? E você, pensa nos melhores da sua? Onde você estava, o que fazia, para que esse tempo tenha sido eleito por você como o mais inesquecível, entre tantos?

Não é fácil. Existiram tempos maravilhosos porque você estava em Paris ou Veneza; outros, tão maravilhosos quanto, numa praia do Ceará, nos tempos em que não tinha nenhuma responsabilidade; outros quando assumiu a primeira, com a chegada do primeiro filho. Pensando bem, foram muitos, diferentes e maravilhosos. Houve também os ruins e os muito ruins, mas esses são para guardar no fundo do coração, são só nossos e não se divide com ninguém.

Os bons tempos foram tão bons, e tantos, que fica difícil escolher. Seria quando você estava tão apaixonada -uma das vezes em que esteve apaixonada? Não, positivamente não.

Como se sofre quando se está apaixonada. A fragilidade de quem ama é de tal ordem que qualquer coisa pode fazer com que uma mulher, em segundos, passe da situação de ser a mais feliz do mundo para a de mais desgraçada do universo, e tudo depende dele, só dele.

Um telefonema inesperado, só para dizer que está com saudades, pode encher de alegria o coração de quem vive um amor. Mas qualquer atraso pode fazer com que uma mulher enlouqueça, literalmente, e faça as piores fantasias; naquele momento ela pode até achar que ele está num motel com a ex-esposa -é, mulher apaixonada fica insana- e que tinha razão quando achava que ele era mentiroso, fingido, e que as juras de amor ele fazia a todas.

Em parte todo homem merece que a mulher desconfie dele, e que ache, às vezes, que ele não vale nada. Na maioria das vezes ninguém vale tanto quanto a gente acha que vale quando está amando, mas esse é apenas um dos riscos que correm os que inventam se apaixonar.

O pior de tudo é que, quando se ama, se depende do outro para conseguir dormir, comer, fazer ginástica, dar uma boa risada, ler um livro, ir ao cinema, ser feliz, enfim.
Ou melhor: se depende do outro para viver. Agora, com a cabeça fria: dá para entender que todo mundo queira se apaixonar?

Mas tem também o outro lado: ser amada. E pior: ser muito amada. Quando um homem se apaixona, pode levar uma mulher à loucura, no melhor sentido -ou no pior.
No princípio, ela até gosta: qual a mulher que não adora ter um homem a seus pés?

Bem, até adora, mas durante um tempo, e em termos. O difícil numa paixão é não exagerar, não passar da medida, até porque quem ama demais está fadado a ser abandonado. O ser humano não costuma falhar, e nada faz com que uma pessoa se desinteresse mais rápido do que ter a certeza de que a outra está definitivamente conquistada.

Agora, a hora da verdade: quais foram os melhores tempos de sua vida? Sinceramente mesmo? Pois foram os tempos em que estava só e que não dependia de ninguém para ser feliz ou infeliz.

Era dona do seu nariz; mesmo quando viajava sozinha, e não tinha um amigo com quem jantar, e sentia aquela semi depressão de estar numa cidade estranha, num país estranho, muitas vezes com os termômetros marcando 0C, ah, que tristeza. Uma tristeza, sim, mas tão boa quanto as maiores alegrias.

Porque ela foi sua, totalmente sua, e as coisas que são só nossas e não dependem de ninguém não têm preço. Mas atenção: quando se descobre que se pode ser feliz totalmente só, passa a ser perigoso, porque a partir daí fica difícil pensar em voltar a dividir o controle remoto.
O controle remoto e a vida.

danuza.leao@uol.com.br

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