sábado, 31 de dezembro de 2011



31/12/2011 e 01/01/2012 | N° 16933
CLÁUDIA LAITANO


Por que parou? Parou por quê?

Analise uma foto sua tirada em 1992. Abstraia o corte de cabelo (ou a mera existência deles), os quilos a menos, a consistência das bochechas. Concentre-se no figurino. Se não estava usando fraldas ou uma fantasia do Batman, é provável que suas roupas fossem bem parecidas com as de hoje.

Agora volte outros 20 anos no tempo, para o comecinho de 1972. Se ainda era criança, garimpe uma foto dos seus pais e compare com o estilo de gente da mesma idade em 1992. Alguma chance de confundir o verão hippie com o verão grunge? Nenhuma.

A brincadeira vale para a maioria dos modelos de carros, a decoração das casas e mesmo para o que foi considerado o melhor da literatura, do cinema ou da música dos anos 90 para cá.

Nesses 20 anos em que a economia virou de cabeça para baixo (China mandando no campinho, Brasil sexta economia do mundo) e a tecnologia mudou radicalmente a forma como nos comunicamos e como consumimos bens culturais, a aparência do mundo parece ter estacionado como nunca antes em períodos de tempo semelhantes. Por que parou? Parou por quê?

A tese de que temos vivido nos últimos 20 anos uma espécie de “era glacial” na cultura ocidental é desenvolvida pelo jornalista Kurt Andersen em uma reportagem publicada na revista Vanity Fair (você encontra o artigo “You Say You Want a Devolution?” no site do jornalista, no endereço www.kurtandersen.com). O autor admite que algumas coisas mudaram no layout geral da paisagem humana, mas tão poucas, que praticamente confirmam a regra.

Hoje, por exemplo, as pessoas se tatuam e usam piercing muito mais do que há 20 anos, a preocupação com a ecologia entrou na rotina doméstica, e os corpos sofreram um processo de “padronização estética”, com a globalização do peitão e da magreza extrema como padrão de beleza.

Em compensação, tênis, camiseta e camisa xadrez permanecem como uniforme dos jovens há mais de 20 anos, e Lady Gaga ainda não fez nada que Madonna não tenha feito (melhor) antes.

Ao contrário de décadas anteriores, em que a única constante era a permanente mudança de estilo, não apenas encalhamos em uma espécie de presente contínuo, mas transformamos a nostalgia em uma das tendências dominantes da nossa época.

Kurt Andersen arrisca alguns palpites para tentar entender esse quadro. Talvez a maneira de as pessoas se relacionarem umas com as outras e com a informação esteja mudando tanto e tão rapidamente em função da tecnologia, que essa desaceleração que o artigo aponta seja apenas uma espécie de reação natural para mantermos um certo equilíbrio em meio ao bombardeio de novidades a que somos submetidos todos os dias.

Ou, quem sabe, ali na esquina, já nos aguarda o próximo movimento do pêndulo da História. Algo que vai tornar tudo o que a gente veste e escuta hoje completamente anacrônico em 2032. Vai saber. Por enquanto, o que nos cabe é aproveitar 2012 da melhor forma possível – antes que este futuro que começa hoje também comece a virar nostalgia.

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