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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
21 de dezembro de 2011 | N° 16924
DIANA CORSO
Meus heróis não morreram de overdose
A foto não me sai da cabeça. Tirada em 1970 e só recentemente divulgada, mostra a presidente Dilma Roussef. Ela estava com 22 anos, sendo interrogada por militares que escondem a face com as mãos. O olhar desafiador da jovem militante, que vinha de uma jornada de tortura, contrasta com os rostos ocultos dos inquisidores.
Em 70 eu tinha apenas 10 anos, mas a próxima década me jogou numa militância que tinha conexão com aquela imagem. Nossa principal reivindicação era a abertura política e a libertação dos presos políticos: sentíamos um compromisso com os mais velhos que, mesmo apanhando, conquistaram o pouco ar rarefeito que se respirava. Admirava sua coragem, pois lembro bem do medo que sentia.
O clima ainda era de caça às bruxas, de paranoia: agentes infiltrados nas aulas e reuniões, pancadaria nas passeatas, a maior parte dos bons professores expulsos. Na vida cotidiana da maior parte das pessoas dos anos de chumbo imperava a alienação orgulhosa de si, a mediocridade convicta, o discurso retrógrado. Os rebeldes eram exceção.
As famílias classe média tomavam seu Campari e sentiam-se prósperas. Os governantes militares davam arrepios, mas pareciam ter chegado para ficar. Sentia que nadava contra corrente, não conseguia me acomodar. Embora barulhentos, éramos poucos os chatos que discursávamos proselitismos de revolução. O despotismo se firma esbravejando certezas nas quais muitos se acomodam, aniquilando discordâncias. Uma espécie de bullying em escala gigante.
Os efeitos desse mundo de adultos, pais, governantes e mestres, vivendo alegremente graças à ditadura se fizeram sentir em várias gerações de adolescentes, hoje adultos. Sofremos as sequelas culturais e psíquicas da tentativa de extermínio, ou do exílio de uma boa safra de pensadores, artistas, militantes.
Muitos morreram, outros nunca voltaram ou desistiram. O psicanalista Winnicott dizia que o questionamento dos jovens, sua irresponsabilidade criativa, capaz de pensar soluções novas para velhos problemas, era um tesouro para qualquer sociedade. Mas o despotismo nutre-se de salgar essa terra, cortar o broto da transformação. As ditaduras são estruturadas sobre a morte dos opositores e das utopias, com elas morre a juventude.
Eu devia ter visto antes aqueles rostos ocultos, vexados. É o detalhe da foto que mais me impacta: pelo jeito, a soberba dos repressores não era tão senhora de si. Se soubesse disso, poderia ter encontrado mais coragem.
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