segunda-feira, 19 de dezembro de 2011



19 de dezembro de 2011 | N° 16922
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL


Ainda escândalos

Dezenas de leitores pediram para trazer mais escândalos literários, tirados do livro Les Scandales Littéraires, de Claire Julliard. Isso é fácil, pois essa obra traz inúmeros casos, antigos e modernos. Quem sabe um editor brasileiro se inspire e o mande traduzir?

Pode-se falar, por exemplo, na saborosa questão do plágio, que é coisa tão antiga, como bem observa a autora, quanto a própria literatura. Há, entretanto, que fazer diferenças: uma coisa é a cópia servil de um texto alheio, outra é tomar o texto alheio como inspiração. A literatura atual pratica bastante esse recurso.

Vejamos os pequenos escândalos nessa área. Sabe-se que Vinte Mil Léguas Submarinas, de Jules Verne, tem uma forte ressonância de Victor Hugo. Verne, sabendo que mais cedo ou mais tarde iriam acusá-lo de plágio, se defende assim:

– Para pintar esses quadros (literários), precisaria a pena do mais ilustre de nossos poetas, o autor de Trabalhadores do Mar.

Cita a autora, também, George Orwell que, em 1984, tirou muito de Nous Autres, romance futurista de Ievgueni Zamiatine, do qual Orwell fez a crítica para a revista Tribune. Um caso atual: o livro A Bicicleta Azul, de Régine Desforges, inspira-se direta e declaradamente em E o Vento Levou, de Margareth Mitchell. Sucede que lá pelas tantas, Desforges distancia-se de seu modelo. Os herdeiros de Mrs. Mitchell propuseram um processo judicial contra Desforges, mas perderam.

Coisa interessante é o “plágio irreverente”. Para verificar o quanto eram (in)cultos seus leitores, Gilles Lapouge copiava páginas inteiras de outros autores e incluía em seus próprios textos. Assim fez, nada mais, nada menos, com Rimbaud, do magistral Uma Estação no Inferno.

Lapouge tirou duas páginas de Rimbaud, aquelas que descrevem os bucaneiros, e incluiu-as em seu livro Os Piratas, várias vezes reeditado. Ninguém, completamente ninguém, apercebeu-se da cópia, nem editor, nem leitores, nem críticos. Quarenta anos mais tarde, Lapouge reflete:

– Ou os críticos não leram todo o meu livro e pularam, ao acaso, estas páginas, ou jamais leram Arthur Rimbaud. Neste último caso, eles deveriam ter escrito uma frase do gênero “Este livro sobre os piratas é bem escrito, mas assinalamos aos leitores as páginas 102 e 104. Eles saborearão uma passagem que se aproxima dos mais belos trechos de toda literatura francesa”.

Aí fica, para divertimento de segunda-feira. E é melhor terminar, para que esta coluna não seja acusada de plágio do excelente livro de Claire Julliard.

Nenhum comentário: