DIA DO AGRICULTOR
A rotina do produtor que há 28 anos leva alimentos para a feira da Redenção
Dia do Agricultor
Todos os sábados, produtos da Granja Santantonio viajam quase 30 quilômetros até o corredor verde na José Bonifácio, onde encontram uma clientela fiel. No Bom Fim, feirantes se encontram há mais de 30 anos. É o ano todo em produção, variando a oferta conforme a estação e a época de plantio.
Ainda é noite e faz silêncio na Avenida José Bonifácio, em Porto Alegre, quando os primeiros agricultores começam a chegar para mais um sábado de feira na beirada da Redenção. O trabalho que se materializa ali, no colorido das bancas, começa muito tempo antes e a quilômetros de distância do parque, nas lavouras onde brotam a produção.
Há 28 anos fazendo o trajeto de quase 30 quilômetros entre a zona rural da Capital e o Parque Farroupilha, o agricultor Vasco Machado, 60 anos, é um entre a centena de produtores que se reúnem toda semana para vender alimentos frescos, jogar conversa fora com os clientes e trocar ideias sobre produção agroecológica.
Os produtos orgânicos vêm da Granja Santantonio, propriedade familiar fundada em 1968 pelo avô de Machado. Os 12 hectares de terra, dos quais quatro são de mata nativa, ficam no número mil do Beco do Paraíso, nos Caminhos Rurais de Porto Alegre. Além da atividade agrícola, a propriedade recebe visitações turísticas e de escolas.
Hortaliças em geral, batata inglesa, batata doce, beterraba, cenoura, berinjela, limão, alecrim, manjericão, espinafre, couve chinesa, alface baby, moranga e abobrinha estão entre a infinidade de alimentos que a Santantonio produz. É o ano todo em produção, variando a oferta conforme a estação e a época de plantio.
Adaptações ao clima
Em 2026, por causa da projeção de chuva farta, Machado conta que fez ajustes na produção. Diminuiu nas folhosas e ampliou nos legumes, porque as folhas sentem mais o peso da água.
Mesmo com os contratempos naturais, nunca optou por outro sistema que não o agroecológico, que une cultivo e preservação do ambiente. O objetivo, diz, é levar qualidade a todos, para que possam comer e viver bem.
- Porque a mesa é a mesma: a nossa e a de quem compra - diz o agricultor.
Uma a uma, as plantas são delicadamente retiradas da terra ou dos seus caules para serem colocadas em caixotes. Ao todo, quatro pessoas trabalham na lavoura, incluindo o próprio Machado.
Já a esposa dele, Carmen Nunes Soares, 59 anos, fica com a pesagem, a amarração e a parte burocrática da certificação e da rastreabilidade dos alimentos. Tudo o que sai da propriedade precisa ser devidamente registrado. _
É um trabalho que não tem dia, não tem horário, não tem férias. Mesmo assim, é prazeroso.
Vasco Machado
Agricultor e feirante de Porto Alegre
Mais do que uma banca, um ponto de encontro
Retirado o alimento da terra, é hora de vender. Enquanto colhia, o produtor anunciava:
- Tudo vai estar na feira!
Machado já conhece mais ou menos a quantidade que tem saída entre os clientes, e por isso costuma vender quase tudo o que leva para a banca. Cerca de 50 caixas de alimentos são transportados semanalmente da terra para o Bom Fim.
A produção é carregada na sexta-feira à noite, para no sábado de madrugada partir. A caminhonete deixa a propriedade ainda no escuro e sob o cantar dos primeiros pássaros, por volta das 3h30min.
Uma parte da colheita já vai separada para restaurantes que compram direto do produtor e retiram os itens no estande.
Nuh Asian Food e Capincho, restaurantes da alta gastronomia gaúcha, estão entre os clientes fiéis do agricultor.
- Três horas da manhã é a gente indo feliz para a feira. Porque a banca é diferenciada. Mais que ponto de venda, é ponto de encontro para um café e uma conversa entre amigos. É uma "área vip" da feira, digamos assim - explica.
No último sábado, foi celebrado o Dia Internacional da Agricultura Familiar e o Dia do Colono. Já hoje, se comemora o Dia do Agricultor. As datas próximas só podem justificar a relevância da agricultura, dizem.
Muitos dos frequentadores assíduos, aliás, visitam a banca desde crianças.
Apesar de cativo, o público tem mudado nos últimos anos, observa Machado. Há muito mais jovens frequentando a feira, mas comprando em menor quantidade. _
Clima de amizade e parceria
Além de cuidar da terra, o agricultor é um dos coordenadores da Feira Ecológica do Bom Fim. A coordenação é dividida entre cinco colegas. São responsabilidades deles cuidar da segurança e organização das bancas, eventos e qualquer contratempo.
- É um trabalho que não tem dia, não tem horário, não tem férias. Mesmo assim, é prazeroso - confessa Machado.
Ao todo, 150 bancas ocupam o corredor verde entre a Avenida Osvaldo Aranha e a Rua Vieira de Castro. Duas feiras se juntam no espaço: a Feira de Agricultores Ecologistas (FAE), que comemora 37 anos em outubro, e a Feira Ecológica do Bom Fim (FEBF), que completa 35 anos em agosto.
Cerca de 70% dos agricultores que participam das feiras são de fora de Porto Alegre e o clima entre eles é de parceria. Da carona entre vizinhos aos sábados pela manhã a uma olhadinha rápida na banca quando alguém precisa momentaneamente se ausentar, a maioria se considera grandes amigos.
O traço amigo e familiar é uma das marcas da agricultura gaúcha. Conforme dados da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado (Fetag-RS), a agricultura familiar está presente em 365 mil estabelecimentos rurais no Rio Grande do Sul. O setor responde por 40% do PIB da agropecuária gaúcha, mesmo ocupando somente 25% das áreas agrícolas.

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