24 de Julho de 2026
Opinião RBS
O teste da nova enchente
O evento extremo que atingiu o Estado nos últimos dias pode ser uma amostra do que está por vir, em especial na primavera, estação que já é mais chuvosa no Rio Grande do Sul. Os prognósticos climáticos apontam para a formação de um El Niño de magnitude histórica, com efeitos espalhados entre este ano e 2027.
Diante dos alertas de tempo severo, era importante observar, como ressaltou este espaço na quinta-feira da semana passada, o quanto se evoluiu desde a grande cheia de 2024 em preparação e adaptação para tempestades, chuvas volumosas e possíveis enchentes. É preciso reconhecer os avanços. De forma geral, Estado, prefeituras e concessionárias de serviços públicos mostraram-se prontos para agir. Mas é dever registrar que há pontos importantes a serem revistos e aprimorados.
Em relação aos aspectos que precisam de melhor exame, sobressai o caso da previsão equivocada, na noite de terça-feira, de inexistência de risco de o Rio Taquari ultrapassar as cotas de inundação. As informações passadas pela Defesa Civil do Estado e pelo Serviço Geológico do Brasil descartavam essa possibilidade. A mensagem foi divulgada pelo próprio governador Eduardo Leite. Mas, já na madrugada de quarta, poucas horas depois, o cenário foi revisto e as prefeituras da região, instadas a acionar os planos de contingência. Deflagrar durante a madrugada uma mobilização que poderia ser iniciada antes cria dificuldades adicionais.
De forma transparente, o coordenador da Defesa Civil estadual, Luciano Boeira, admitiu que o volume de chuva que caiu nas cabeceiras do Taquari foi acima das previsões meteorológicas com que o órgão trabalhava. Referiu ainda que "os modelos hidrológicos subestimaram a resposta dos rios". Ou seja, não foi possível antecipar com acurácia o comportamento da bacia hidrográfica do Taquari. Ocorreu o mesmo com o Rio Caí. Aqui estão, portanto, dois pontos que devem ser analisados pelas instituições estaduais e federais envolvidas. A politização do tema é natural em um período pré-eleitoral, mas não traz nenhuma solução efetiva.
A região do Vale do Taquari é a mais traumatizada pelas enchentes de 2023 e 2024. É natural que a população e as autoridades locais esperassem previsões mais precisas e tempestivas, até pelos investimentos anunciados em sensores e estações para acompanhar o volume de chuva e o comportamento de mananciais. A antecipação é essencial para agilizar as decisões, como evacuar áreas de risco com maior rapidez e salvar pertences. A despeito dos sobressaltos, foi possível remover a tempo os moradores.
Até ontem à tarde, a Defesa Civil registrava 1.675 pessoas fora de suas casas. Quase 200 municípios contabilizaram estragos pelos temporais e pela chuva. O Guaíba deve chegar à cota de alerta, mas sem possibilidade de extravasamento na região central da Capital, embora a população das ilhas deva sofrer com inundações. Não deve ser subestimado o sofrimento de nenhuma pessoa atingida, até porque muitos já padeceram com cheias anteriores.
A enchente em curso é bem menos grave do que as de poucos anos atrás, mas serviu de teste. Resta diagnosticar as causas das falhas e corrigi-las. É parte do aprendizado de um Estado que não tem outro caminho senão o de reforçar a sua resiliência climática.

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