quinta-feira, 23 de julho de 2026

 

Tempo acelerado

Será que, por dentro, sabemos que vamos morrer?

Há uma intuição adormecida do nosso fim? Guardamos uma duração estimada do nosso tempo por aqui? Talvez não a hora exata, porém uma baliza capaz de revelar que não falta tanto, que devemos acelerar as memórias?

Será que o inconsciente possui um cronômetro, que faz com que certas pessoas sejam mais intensas e passionais, com que sintam mais urgência, sede, gula de viver?

Porque uns caminham, outros correm, e alguns poucos voam. Porque uns têm paciência, outros prudência, e alguns poucos uma voracidade enigmática.

É o que me peguei pensando ao assistir ao documentário Eu Não Ando Só, que acabou de estrear na Globoplay.

Preta Gil foi um vulcão, um escândalo de espontaneidade.

Despediu-se jovem, aos 50 anos, em julho de 2025. No entanto, a sensação é a de que atravessou séculos entre nós.

Começou a cantar publicamente só aos 30 anos, nem por isso adotou uma postura medrosa. Misturou balada, samba, funk, afoxé e MPB. Extrapolou seu berço famoso com um estilo próprio, com a autoridade de quem não levava desaforo para casa. Sua leveza e seu humor tornavam qualquer show irrepetível.

Pretinha acumulou encarnações e várias biografias simultaneamente. Atuou como atriz e empresária, defendeu o corpo livre e o empoderamento feminino com o álbum Prêt-à-Porter, desafiou convenções, calou o racismo e a gordofobia, arrastou 1 milhão de foliões em um único desfile na capital fluminense com seu bloco de Carnaval, dominou rádios e plataformas de streaming com os hits Sinais de Fogo, Só o Amor e Decote.

No especial, a amiga Ivete Sangalo destacou sua soberania de existir. Dava sempre o melhor de si. Não se economizava. Apesar de presa a uma cama, debilitada, não abria mão do capricho de escolher o pijama ideal para uma noite: de coração, de sorvete ou de gato.

Tudo em sua passagem parece se encaixar. Como num filme roteirizado antes de seu nascimento. Sua última apresentação, suportando dores lancinantes de um câncer terminal, aconteceu ao lado do pai, Gilberto Gil, interpretando Drão, a música dedicada a sua mãe, Sandra. Criou um adeus a sua voz com os protagonistas de seu parto. Não é arrepiante, mágico, estranhamente perfeito?

Ela queria viver mais. Dizia que ainda viveria muito a cada volta por cima, a cada cirurgia, a cada tratamento, a cada nova tentativa médica. Nunca deixou de viver, mesmo quando sobrevivia. Nunca deixou de despertar emoções nos mais próximos.

Como se não pudesse esperar. Como se o amanhã fosse logo embora. Como se carregasse uma clarividência escondida.

Suas cinzas estão espalhadas em pingentes distribuídos entre 12 leais amigos, seus apóstolos da alegria. Já seu fogo jamais se apaga. Somos testemunhas de seu calor humano inextinguível. _

CARPINEJAR

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