Pior Copa desde 1990
Não consigo aceitar que é a melhor Copa. É a pior para os brasileiros. A pior para a secação. Todas as seleções pelas quais passamos a torcer depois de nossa derrota caíram. Todas, sem exceção. Na largada das Eliminatórias em 2023, se alguém perguntava sobre os favoritos, qualquer um dizia: França, Espanha, Argentina e Inglaterra. Exatamente os quatro semifinalistas.
Não houve nenhuma surpresa, nenhum azarão. Transcorreram três anos e não surgiu uma potência alternativa. É a Copa de cartas marcadas, a mais previsível, a mais normal, a mais conservadora, a mais hegemônica, o sonho dos patrocinadores que odeiam sobressaltos.
Os quatro intervalos para hidratação e os descontos generosos permitiram que quem é superior acabasse por sair vitorioso. Uma hora a bola iria entrar sob tamanha pressão.
Os semifinalistas já foram campeões do mundo. Isso não acontecia desde 1990, que, a meu ver, foi a edição mais semelhante à atual (quando o Brasil também tombou nas oitavas). Noruega e Marrocos, que enfrentamos e não vencemos, não obtiveram êxito contra a Inglaterra e a França. O hexa da desclassificação demonstra que éramos realmente medianos, ao lado da Alemanha, que repetiu a eliminação precoce nos três últimos certames consecutivos.
Ainda que o torneio tenha reunido mais participantes (48), os times asiáticos não chegaram às quartas, um só time africano atingiu essa fase (Marrocos), observou-se a supremacia europeia do início ao fim. Os anfitriões México, Estados Unidos e Canadá sucumbiram. Nem o fator local garantiu a permanência no mata-mata. Nem a anulação de um cartão vermelho para o destaque dos estadunidenses, após pedido de Trump à Fifa, reverteu a desvantagem.
Não assistiremos a um novo campeão. É a Copa de sempre para os mesmos. Apenas oito nações levantaram a taça, e parece que será assim eternamente.
Não existe espaço para novidades. A lógica prevalece. Ninguém espera uma outra final que não França e Argentina, reprisando 2022. Teremos um remake das Malvinas de 1986, entre os ingleses de Harry Kane e os argentinos de Lionel Messi, e das oitavas de 2006, entre os franceses de Kylian Mbappé e os espanhóis de Lamine Yamal.
Pode-se considerar, como contraponto à minha opinião, que estamos diante da média mais vultosa de gols desde 1970 - a fase de grupos excedeu inclusive a de 1958. E que desfrutamos de uma lista abundante de atletas com escores altos: Mbappé e Messi assinalaram oito gols; Haaland, sete; Kane e Bellingham, seis.
Em 23 Copas, somente duas, além desta, apresentaram goleador e vice-goleador com sete gols ou mais: 1970 e 2022. Seria um dado inédito e impactante se não contássemos com a presença de países sem experiência, como Curaçao, Catar, Uzbequistão, Iraque e Tunísia, que viraram sacos de pancada.
A Copa incorporou seleções desprovidas de tradição e combatividade, inflacionando o número de gols. A Tunísia, por exemplo, levou 12 gols em três partidas.
Se Miroslav Klose (Alemanha), Ronaldo Fenômeno (Brasil), Gerd Müller (Alemanha), Just Fontaine (França), Pelé (Brasil) e Sándor Kocsis (Hungria), os antigos artilheiros da história da competição, atuassem no modelo implantado em 2026, com adversários tão fáceis e com mais rodadas, triplicariam os seus recordes.
Apesar da tecnologia, fazia tempo que não testemunhávamos tantos erros de arbitragem. Se Messi recebesse cartão vermelho no primeiro jogo, se Suíça, Egito e Cabo Verde não fossem prejudicados, o enredo seria diferente. Mas tudo favorece o ídolo no Inter Miami, ouro da casa, principal atração da Major League Soccer (MLS), para que seja entronizado como o rei do futebol.

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