23 de Julho de 2026
OPINIÃO RBS
Reagir não significa confrontar
O Brasil está desde ontem sob um novo e ilógico tarifaço imposto pelos EUA. Quatro mil produtos brasileiros passaram a ser onerados em mais 25%. É provável que, nos próximos dias, o país e outras dezenas de nações sofram com outra taxação de 12,5%, pela acusação de que de alguma forma se beneficiariam de trabalho forçado para ganhar competitividade. A melhor resposta que o Brasil pode dar passa longe de querer dar um troco na mesma moeda às agressões comerciais despropositadas da Casa Branca. A reação deve ser refletida e combinar estratégias nas frentes interna e externa, com medidas de curto e longo prazo.
Seria um erro uma retaliação frontal, taxando exportações norte-americanas. O principal argumento contra o tarifaço é o de que a estratégia dos EUA é contraproducente. Encarece insumos e produtos finais para empresas e consumidores. Não faria sentido lançar mão do mesmo expediente, que parece descartado. Esse método, aliás, tenderia a contaminar politicamente ainda mais negociações. Exacerbaria o ímpeto vingativo do governo Donald Trump, que, como define o linguajar sulino, se comporta como um prevalecido.
É possível o uso da Lei da Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso em 2025. O emprego do instrumento, porém, teria de ser muito bem calibrado. Como a sua aplicação depende de uma tramitação longa, com tratativas diplomáticas, avaliação da Câmara de Comércio Exterior (Camex) e consultas públicas, há tempo para perscrutar cenários, evitar medidas açodadas e até fazer a legislação funcionar como um mecanismo de pressão.
Neste primeiro momento, é essencial ouvir empresas e setores mais atingidos e prestar o apoio necessário às companhias prejudicadas pelo tarifaço. Muitas estão no Rio Grande do Sul. A nova sobretaxa afeta 18% das exportações brasileiras, mas chega a quase metade dos embarques gaúchos para os EUA. O programa de amparo anunciado ontem, de R$ 18,5 bilhões, precisa chegar à ponta sem maiores entraves.
Em paralelo, há a promessa de empenho para abertura de novos mercados, por meio de um programa da ApexBrasil, autarquia federal que atua na promoção comercial do país no Exterior. O caminho é acertado, mas nem sempre dá resultados imediatos. Ademais, muitas empresas produzem itens bastante específicos, em conformidade com as normas norte-americanas, e não têm facilidade de redirecioná-los para outros destinos.
Por fim, é vital ampliar a aposta na diplomacia empresarial. Está claro que os canais de interlocução entre os governos deixaram de fluir. As diferenças políticas dificultaram o diálogo. A retórica de ambos os lados não suscita a esperança de retomada de tratativas produtivas. Torna-se imprescindível que companhias e entidades empresariais brasileiras reforcem os contatos com os clientes ou congressistas norte-americanos, para que estes pressionem a Casa Branca ao menos para que a lista de exceções aumente. Quanto mais despolitizada a mobilização, melhor. A estratégia, no entanto, tem de ser coordenada com o governo.
A assimetria de poder econômico indica que a resposta brasileira não deve ser a confrontação direta. Isso não significa falta de firmeza, mas habilidade para ler cenários e definir as melhores linhas de ação para contornar a investida da Casa Branca contra o Brasil.

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