17 de Julho de 2026
RELAÇÕES COMERCIAIS
RELAÇÕES COMERCIAIS
Metade das exportações do Estado aos EUA será atingida por tarifaço
Levantamento técnico da Fiergs aponta que apenas 2% do volume financeiro comercializado com os Estados Unidos conseguiu escapar da
nova taxa de 25% sobre diversos produtos brasileiros. Setores de calçados, metalurgia e máquinas são os mais afetados
A nova sobretaxa de 25% anunciada pelo governo dos Estados Unidos na noite de quarta-feira vai atingir em cheio o comércio exterior do Rio Grande do Sul. Segundo levantamento técnico da Federação das Indústrias do Estado (Fiergs), a barreira alfandegária impactará diretamente quase metade das vendas gaúchas (48,2%) ao mercado norte-americano, que é o segundo principal destino das exportações do Estado.
No caso do Brasil, segundo o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, a sobretaxa deverá atingir cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano.
A medida da administração de Donald Trump passa a valer a partir do dia 22, com base em apurações feitas por Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês). A decisão norte-americana foi tomada no âmbito de investigação conduzida sob a seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.
A apuração iniciada há um ano pelo USTR concluiu que certas práticas brasileiras são descabidas e oneram ou restringem o comércio de agricultores, trabalhadores, inovadores e exportadores norte-americanos. Entre as medidas citadas pelo USTR, estão "práticas de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico; tarifas preferenciais injustas; interferência anticorrupção; proteção da propriedade intelectual; acesso ao mercado de etanol; e desmatamento ilegal". O governo rechaçou as alegações (leia mais na reportagem abaixo).
Ao somar a nova alíquota às restrições setoriais que já vigoravam para o aço e o alumínio (sob a seção 232), 85,1% de tudo o que o Rio Grande do Sul vende aos EUA passará a sofrer algum tipo de taxação extra.
Nichos
Apenas 2% do volume financeiro exportado pelo RS conseguiu escapar da nova tarifa - com isenções restritas a nichos muito específicos, como alguns tipos de pescados e itens de couro.
O presidente da Fiergs, Claudio Bier, avalia que o aumento do custo de acesso ao mercado americano coloca as empresas gaúchas em severa desvantagem frente a concorrentes internacionais.
- A tarifa de 25% coloca o Brasil entre os países com maior custo de acesso ao mercado norte-americano, atrás apenas da China - analisa Bier.
Com a nova tarifa, a Abicalçados, por exemplo, revisou sua projeção para as exportações totais de calçados em 2026, estimando queda média de 7,1%, piora de 3,5 pontos porcentuais em relação à previsão anterior, de retração de 3,6%.
O USTR publicou lista com mais de 2 mil produtos que ficaram isentos da taxação. Além de carne bovina, café, laranja e suco de laranja, que já constavam de rol divulgado pelo órgão em junho, itens como mel orgânico, hidróxido de alumínio, sucata de ferro e de aço, peixes e frutos do mar, couros, alguns produtos de madeira, medicamentos e insumos farmacêuticos foram excluídos da taxa. Entre os 50 produtos brasileiros mais exportados para os EUA em 2025, ficam de fora da nova cobrança petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio.
O governo americano disse que rejeitou solicitações de pedidos de isenção para outros produtos, como vestuário, calçados e máquinas agrícolas e industriais. Os EUA justificam a isenção afirmando que os insumos são matérias-primas que poderiam levar à indisponibilidade de oferta doméstica e causar "perturbações" na economia do país caso fossem submetidas à nova tarifa. _
A situação
Os setores produtivos gaúchos mais expostos
Máquinas e equipamentos
Calçados e metalurgia
Equipamentos elétricos, móveis e tabaco
Cronograma de transição
22 de julho de 2026: início da vigência da nova tarifa de 25%.
29 de julho de 2026: prazo-limite para a entrada de mercadorias isentas nos EUA, desde que o embarque tenha ocorrido antes da data de início da vigência.
Governo Lula repudia sobretaxa e avalia uso da Lei de Reciprocidade
O governo brasileiro divulgou nota repudiando a sobretaxa de 25% sobre produtos nacionais. O comunicado, assinado pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República e compartilhado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em rede social, destaca que o Brasil não reconhece a legitimidade das investigações dos EUA, que não teriam amparo nas regras multilaterais de comércio. E acrescenta que não há justificativa para medidas unilaterais norte-americanas contra o Brasil.
O comunicado diz que a Lei de Reciprocidade brasileira será acionada imediatamente, além de instrumentos para solução de conflitos no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). "O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável", diz a nota.
Ontem, Lula reuniu vários ministros para tratar do assunto. Após o encontro, o titular das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que o novo tarifaço teve "motivação política" e "não tem lastro na realidade". E afirmou que o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atacou o chefe de Estado de um país amigo "de forma grosseira". Na madrugada de quinta-feira, Rubio disse que Lula e o governo brasileiro "não negociaram de boa-fé", que o chefe do Executivo "colocou seu próprio ego à frente de um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro" e que as políticas econômicas adotadas pelo presidente são "ruins para os americanos e ruins para os brasileiros".
Para Vieira, o que incomoda os norte-americanos é o fato de o Brasil "não ter se curvado" a demandas da gestão Trump, como a abertura total e exclusiva de setores da economia nacional aos interesses dos EUA:
- Em outras palavras, exigiam capitulação.
Em outra entrevista, o vicepresidente Geraldo Alckmin e o ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, disseram que as empresas afetadas pelo tarifaço poderão contar com ajuda do governo federal. Alckmin contestou as alegações norte-americanas para justificar a sobretaxa e disse que a medida é "injusta e descabida". Ao lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, classificou a decisão como "interferência indevida externa".
Conforme a nota brasileira, nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, houve 78 intervenções de representantes do setor privado dos dois países, das quais 63 foram contrárias ao tarifaço. O comunicado ressalta que nos últimos 15 anos os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil. "Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%", diz a nota.

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