quinta-feira, 9 de julho de 2026

09 de Julho de 2026
CARPINEJAR

Excessivamente humano

Os argentinos são tão metidos quanto nós, tão vaidosos quanto nós, tão confiantes quanto nós, tão megalomaníacos quanto nós. Mas, diferentemente de nós, jamais se rendem a um fracasso. Veja o que fizeram com o Egito, revertendo um placar de 2 a 0 nos 20 minutos derradeiros, com uma adoração à garra, com uma entrega incondicional, com um nacionalismo passional, com uma loucura contagiosa.

Tivemos os mesmos 20 minutos para mudar o resultado contra a Noruega e não suamos sangue como eles. Acolhemos o golpe e nos despedimos com antecedência. Costumamos desistir antes do apito final. O improvável nos convence rapidamente. Somos servis à realidade adversa.

Se Pelé era de outra galáxia, Messi nos comove por uma genialidade profundamente humana, à imagem e semelhança de seus conterrâneos. Um general que se destaca sendo soldado na linha de frente, oferecendo o exemplo de sacrifício.

Ele é o ídolo da superação. Luta contra o seu corpo de 39 anos, contra o cansaço, contra o desânimo dos seus colegas, contra o rival. Duela com unhas e dentes contra o fim, o adeus, a aposentadoria simbolizados na desclassificação. Ao negar a morte, revela-se um sujeito comum.

Não é um extraterrestre. Jamais perde a conexão com o nosso mundo, privilegiado por um hiperfoco. Dá a volta por cima. Junta o fôlego para se recuperar dos tropeços e transformá-los em redenção. O que leva o torcedor a explodir de um sentimento de justiça, regurgitando em pesados decibéis o grito engasgado.

É mortal no revés e na glória. É aquele que erra um pênalti, mostrando que qualquer um está propenso a um lapso, e se vinga com um golaço, mostrando que qualquer um pode se redimir. Messi aparenta estar alheio ao comportamento dominante de desaparecer pelo desperdício de uma penalidade. Já falhou em quatro das oito cobranças nas suas participações no Mundial, num retrospecto risível de 50% de aproveitamento.

Ele cresce no ocaso, encontra o auge mental no esgotamento físico. Ao festejar a reação, desferiu um emblemático soco no ar, à moda de nosso Rei do Futebol. Foi um salto sobre si próprio: a euforia de ter ido novamente além de seus limites.

Ele atinge a plenitude de sua técnica pelo esforço mundano. Marcou em todas as partidas da Copa de 2026. Tanto que é o recordista da história da competição com 21 gols - experimentando sucessivas quebras de expectativas.

Esconde a bola como um prestidigitador em sua canhota, e a bola ressurge de repente dentro das redes, para espanto do arqueiro. É a mágica derivada da aplicação tática, da dedicação geoespacial, um trunfo da mortalidade vivida ao extremo.

Gera uma inveja planetária a todos que não são argentinos. Uma inveja que culmina numa admiração contrariada. É impossível não amar Messi, por mais que o odiemos, cheios de raiva e rancor porque ele não farda as cores de nossa bandeira.

Pelé e Garrincha são incomparáveis, Messi e Maradona são igualmente de cepas distintas. Os dois duetos são capazes de conquistar Copas: exércitos de um homem só. É possível alegar que o Egito acabou desfavorecido: o que valia para a Seleção Argentina não valia para ele. Entretanto, não há como não reverenciar a busca dos hermanos pela ressurreição até o último minuto. São campeões e se portam como campeões.

É quase inútil secá-los. Eu comemorei a derrota deles antecipadamente e me frustrei, e apaguei as mensagens enviadas aos amigos. Conclamo meus compatriotas a empregar um novo método: torcer pela Argentina contra a Suíça. Vá que a secação reversa funcione. 

CARPINEJAR

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