sábado, 18 de julho de 2026

18 de Julho de 2026
MARCELO RECH - Marcelo Rech

O que une esquerda e direita

Uma das formas de se identificar a praga do populismo é quando políticos e governantes ignoram os ditames básicos da responsabilidade fiscal para, às custas do dinheiro público, agradar o eleitorado às vésperas de eleições. Aprovam-se benesses seletivas e distribuem-se recursos a rodo como se o Tesouro fosse um butim infinito e sem dono.

A última do populismo desenfreado é a aprovação pelo Congresso de benefícios, sem origem ou sustentação prévia, a 360 mil agentes de saúde. A bolada vai custar R$ 27 bilhões em 10 anos. Não por acaso, é chamada de pauta-bomba. Ela não explode só o orçamento. A benesse, que antecipa aposentadorias com vencimentos integrais, suga recursos que poderiam ir para hospitais, estradas, investimentos em segurança ou serem usados em momentos de emergência, como enchentes.

Há aspectos assustadores sobre como as pautas-bomba avançam no Brasil. O mais vistoso é a placidez com que políticos de todos os matizes se juntam no festim populista. Com a honrosa exceção do senador gaúcho Hamilton Mourão, que votou contra, e quatro ausências, a prebenda aos agentes foi alegremente endossada por todos os demais senadores, não importa se de esquerda, centro ou direita. Se há algo capaz de unir todo o arco político brasileiro, esse é o uso de dinheiro do contribuinte para comprar simpatias eleitorais e implodir a responsabilidade fiscal.

A noção de que o Estado deve servir primeiro a ele próprio, a seus cupinchas e aos que nele trabalham, e não à maioria silenciosa de seus cidadãos, é particularmente fértil no Brasil por culpa coletiva. Em alguns países, vota-se em candidatos que se esmeram em fiscalizar o uso dos impostos, de modo que ele seja aplicado da forma mais responsável, apropriada e com melhor retorno possível para toda a coletividade. Quem se vale de recursos públicos para espalhar bondades eleitorais é execrado.

Aqui, fazemos o contrário. Os poucos que resistem à farra são tachados de inimigos do povo, como se o povo entendesse e soubesse como seu suado dinheiro é torrado nos plenários e palácios. Reside aí, na cândida ignorância sobre como recursos públicos são manuseados ao bel-prazer de quem os controla, a origem dos penduricalhos, das emendas secretas ou não, dos desperdícios, dos privilégios e da manutenção de currais políticos mediante bolsas disso e daquilo.

Só uma república que inibisse o extrativismo do Estado por ambições políticas faria com que um dia a chaga do populismo tirasse votos, em vez de despejá-los nos seus arautos. Até lá, seguiremos com a festa de arromba nas contas públicas, com todas as suas consequências nefastas - dos juros nas alturas à sufocante carga tributária. E o eleitor? Este agradece quando a esmola cai da mesa e vota, feliz, no populista. 

MARCELO RECH

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