17 de Julho de 2026
INFORME ESPECIAL - Rodrigo Lopes
Resposta dura, mas de manual
O Brasil decidiu responder dentro do protocolo diplomático clássico. Não entrou na lógica de Donald Trump de personalizar conflitos. Não transformou a crise comercial em uma disputa entre Lula e Trump. Não respondeu postagem por postagem em redes sociais. Ou seja, optou pelo caminho institucional.
A reação, ao menos até agora, segue a cartilha da Casa de Rio Branco, ao preservar interlocutores, respeitar a hierarquia, produzir registros formais e demonstrar que a negociação ocorreu antes de qualquer medida de retaliação.
O discurso adotado pelo ministro Mauro Vieira, o porta-voz do governo na reação ao tarifaço, chama atenção pelo tom duro dirigido ao secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Mas, repare, foi uma resposta de chanceler para chanceler, preservando a hierarquia institucional e evitando transformar uma crise comercial em um embate pessoal entre chefes de Estado.
Reação madura
O governo poderia ter escolhido outro caminho. Lula poderia ter convocado cadeia de rádio e TV para responder diretamente a Trump ou elevar o confronto retórico. Não o fez. Ao colocar na mão de Vieira, o Brasil envia uma mensagem adulta, de que trata o episódio como uma questão de Estado, não como um duelo entre presidentes - a ver até quando esse tom será mantido, especialmente a partir de falas de improviso do presidente brasileiro a partir de hoje e à medida que a campanha eleitoral avançar.
Trump aparece apenas duas vezes no discurso, ao referir tentativa de interferência no Judiciário. Mas, em vez de atacar o presidente americano, concentra críticas na investigação da Seção 301, no caráter unilateral das tarifas e na ausência de fundamento econômico.
Isso é relevante porque, ao medir palavras, o Itamaraty procura manter aberta a possibilidade de negociação. Não fecha portas. Mais: procura construir um histórico:
Vieira faz questão de listar as mais de 30 reuniões entre os dois lados, 11 contatos diretos com Rubio, duas defesas técnicas, viagens a Washington e conversas entre os presidentes.
O Brasil tenta construir uma narrativa para mostrar à comunidade internacional - e eventualmente à OMC - que negociou de boa-fé e esgotou os canais diplomáticos antes da escalada comercial. Em vez de dizer que Trump "está errado", ele demonstrou por que os argumentos americanos são pouco consistentes. _
Rei Charles vai afogar as mágoas
"Talvez seja um bom dia para afogar algumas mágoas". Foi o que disse o rei Charles III, acompanhado da rainha Camila, ontem, ao tomar algumas cervejas na cervejaria Hall & Woodhouse Badger em Blandford, Dorset. O fato ocorre um dia após a Inglaterra perder, de virada, para a Argentina na semifinal da Copa do Mundo de 2026, na quarta-feira.
Entrevista - Diego Pautasso
Doutor em Ciência Política, graduado em Geografia e professor da rede federal
"Vilanizar a China serve para que os EUA não enfrentem seus problemas internos"
Nas últimas décadas, a ascensão da China foi acompanhada por uma avalanche de narrativas antichinesas. Para o governo dos Estados Unidos, o país seria uma ameaça à democracia liberal, uma nação que compete de maneira desigual e uma potência neoimperial. Mas como esse discurso é produzido e a quem serve? Esse é o tema do livro Quem Tem Medo da China? A Construção da Ameaça Chinesa (Editora de Cultura), de Diego Pautasso e Isis Paris Maia. Pautasso conversou com a coluna.
A suposta ameaça chinesa é real ou construída?
Do ponto de vista do livro, ela foi construída como uma narrativa para contê-la (a ameaça). Agora, só faz sentido se construir uma narrativa para contê-la, uma vez que essa seja uma ameaça real aos Estados Unidos ou a determinadas elites do Ocidente. Porém, a ameaça chinesa não é sobre o poder do Partido Comunista ou a pretensão de destruir a civilização ocidental. Não há uma coincidência entre o que se vocifera como narrativa e aquilo no qual a China é realmente competitiva. A China se apresenta como uma alternativa sistêmica que faz um contraponto estratégico e decisivo à liderança que os EUA até então vinham exercendo.
Essa vilanização da China não é algo novo na história. Em outros momentos, rivais do Ocidente foram também tratados como inimigos.
Exato, trata-se da construção de inimigos como forma de legitimidade. Essa produção de legitimidade passa, por um lado, por vender a ideia de que estou oferecendo o melhor: a responsabilidade de proteger, a democracia, o livre mercado, e uma série de coisas que são vendidas como um pacote de bondades. Mas, por outro lado, isso é combinado com uma estratégia de vilanização de todos aqueles que não querem esse pacote de bondades, que resistem ou que propõem algo alternativo. Nesse caso, a ameaça pode ser os nazistas, os soviéticos, o perigo amarelo, o fundamentalismo islâmico ou o terrorismo na América Latina, que está na ordem do dia.
Costuma-se chamar a disputa entre EUA e China de uma nova Guerra Fria. O senhor concorda com essa expressão?
Os EUA estão procurando dar o mesmo remédio, ou seja, a Guerra Fria, usar a mesma estratégia, a mesma construção de ameaças (da época da Guerra Fria). Porém, e aí que está o equívoco americano: o mesmo remédio para uma doença diferente. A China do século 21 não tem absolutamente nada a ver com a União Soviética do século 20. Enquanto a União Soviética estava contida e restrita a um bloco, a China tem uma projeção global.
Ao acusar a China de autoritarismo e violação de direitos humanos, os EUA ocultam seus próprios erros, como torturas no Iraque e no Afeganistão?
As pessoas falam: "Olha o Tibete, Xinjiang". Não é que não haja contradição. Um país com 1,3 bilhão de habitantes, com 56 etnias, com desigualdades sociais e regionais, tem contradições sociais e étnicas. A questão não é a existência ou não disso, que é importante. Primeiro, isso é colocado de maneira seletiva com o objetivo de atacar a China, de cercá-la. Isso também serve para, seletivamente, não falar de outros casos que não são convenientes: a Arábia Saudita, as petromonarquias. Também serve para não enfrentar, tal como no caso da competição econômica, os seus problemas internos: os EUA têm uma população carcerária, uma drogadição em expansão, que, aliás, também tentam atribuir à China ou à América Latina a responsabilidade. Eles têm de olhar no próprio espelho.
E o Brasil, como deve se equilibrar entre a China e os Estados Unidos?
Parece relativamente óbvio que o alinhamento automático não interessa ao Brasil. Mas aí entra o ponto: a gente não vai casar com ninguém na festa, vai barganhar as melhores condições. Mas tu não entras em um jogo da Libertadores se tu não quiser bola dividida. Vai ter bola dividida, esse é o ponto fundamental: não querer alinhamento automático e querer barganha é muito bom até o momento que começa o jogo. Na hora que começa o jogo, a gente vai ter de fazer uma leitura objetiva dos custos da tomada de decisão e de qual a maior ou quais as maiores janelas de oportunidades.

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