13 de Julho de 2026
CLÁUDIA LAITANO
Amor em SP
Foi uma manobra ágil e certeira. Como se alguém tivesse me arrancado do prumo sem a necessidade de qualquer contato físico, apenas agitando as moléculas do ar à minha volta. Antes de completar o primeiro pensamento a respeito, antes mesmo de conseguir reparar na motocicleta que disparava na contramão da rua movimentada, ouvi a voz de uma mulher gritando que o motoqueiro tinha levado o celular da moça. A moça, no caso, era eu.
Eu havia chegado a São Paulo na sexta-feira, um dia antes do roubo, e até ali era só amor por SP. Assistindo a um concerto da Osesp na Sala São Paulo, agradeci mentalmente a todos os pés de café que ajudaram a financiar a construção daquele prédio magnífico - e aos arquitetos (Nelson Dupré e Luizette Davini) que transformaram uma antiga estação de trens em um dos teatros mais bonitos do mundo. Mas São Paulo me pega não apenas pelos teatros, museus, livrarias, restaurantes. Gosto das ladeiras sinuosas, dos becos pichados, do sotaque anasalado e até da absoluta confusão urbana. Como não amar um lugar que é o avesso do avesso do avesso para qualquer um que não nasceu ali?
Meu idílio urbano foi interrompido abruptamente no momento em que eu chamava um Uber, despreocupada e míope, como sempre. Perto de 600 celulares são roubados todos os dias na cidade, nenhum lugar era seguro e ali onde eu tinha ido passear (a Praça Benedito Calixto) era pior ainda. Não tinham me avisado? O relatório sobre a situação da segurança pública em São Paulo não era exatamente o que eu precisava ouvir enquanto ainda tentava voltar a raciocinar. Como eu ia sair dali sem celular? Quando foi que ficamos tão dependentes de um troço que comanda nossas finanças, nosso transporte e toda a nossa comunicação com o mundo? Como eu tinha coragem de sair de casa antes dos anos 2000?
Um casal que estava acompanhando meu desamparo se prontificou a ligar para a operadora telefônica e avisar algum conhecido. Depois me acalmaram, trouxeram água, ofereceram café e só soltaram a minha mão quando um amigo de São Paulo, acionado por um amigo de Porto Alegre - de quem, exceção das exceções, eu sabia o número (anotação mental: decorar pelo menos cinco números de telefones além do meu) -, chegou ali para me resgatar.
Passado o susto, o motoqueiro fantasma, o BO e as horas de lazer perdidas vão virar anedota de viagem, como costuma acontecer nesses casos, mas o gesto de quem parou tudo que estava fazendo para acudir uma estranha em apuros, isso não se deve nem se pode esquecer. _
CLÁUDIA LAITANO

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