17 de Julho de 2026
MARCO MATOS
O que ganhei com a maratona
42.195 metros é só uma distância. Concluir uma maratona, porém, é algo muito maior do que simplesmente terminar de correr tudo isso.
A maratona nasce meses antes do dia da prova. São muitas semanas de preparação, de adaptação da rotina, de foco em hábitos saudáveis e de mudanças que vão muito além dos treinos. É preciso reconfigurar a alimentação, respeitar o descanso e preparar o corpo e a mente para encarar desafios cada vez maiores.
São horas e horas de dedicação. Alguns treinos passam de duas horas e meia. Organizar a vida para cumprir pelo menos quatro sessões de corrida por semana, além do fortalecimento na academia, exige disciplina, comprometimento e, acima de tudo, prioridade.
Ao longo dessa jornada, aprendi a abrir mão de tudo aquilo que não contribuía para o objetivo. Dormir tarde? Nem pensar. Trocar um treino pela cama quentinha? Sem chance. Cada escolha passou a ter um propósito claro. E foi justamente essa clareza que transformou não apenas minha preparação esportiva, mas também minha forma de enxergar a vida.
Semana após semana, a gente aprende a conhecer melhor o próprio corpo. Descobre sinais que antes passavam despercebidos, entende limites e, principalmente, percebe que muitos deles existem apenas na nossa cabeça. A maratona é uma experiência extraordinária porque ensina, na prática, que somos capazes de realizar muito mais do que imaginamos.
Durante a preparação, consegui alinhar diversas áreas da minha vida que estavam precisando de mais atenção. A maratona não permite improvisos. Não há atalhos. O planejamento é uma parte fundamental do processo, mas ele só tem valor quando é colocado em prática diariamente. Levar essa lição para além do esporte é um dos maiores presentes que essa experiência oferece.
No dia da corrida acordei ansioso. Nervoso mesmo. Por mais que os treinos indicassem que eu estava pronto, os questionamentos apareciam sem pedir licença. E se uma câimbra me tirasse da prova? E se eu não suportasse correr tanto tempo? E se precisasse caminhar? Foram muitas dúvidas que desapareceram assim que cruzei a linha de largada.
Os 42 quilômetros foram vencidos um de cada vez. Não existe outra maneira. Ninguém corre uma maratona pensando nos 42 quilômetros o tempo inteiro. Minha estratégia foi simples: sentir o corpo, encontrar o ritmo e continuar correndo. Um passo após o outro.
Foram 3 horas e 34 minutos sem parar. Ainda assim, ouvi cada incentivo. Por isso, deixo meu agradecimento a todos que gritaram meu nome ao me ver passar, aos amigos que suportaram meu assunto quase exclusivo nos últimos meses, a vocês que acompanharam aqui as colunas sobre essa preparação, aos parceiros de treino e aos profissionais que caminharam comigo nessa jornada: treinadores, fisioterapeuta e médicos.
Cruzar a linha de chegada não mudou quem eu sou. Mas mudou a forma como eu vejo aquilo de que sou capaz. Parece bobagem, mas, de um jeito difícil de explicar, tudo ficou diferente depois daquele momento. Porque a maior conquista da maratona não foi completar 42.195 metros. _
O conteúdo desta coluna reflete a opinião do autor
MARCO MATOS

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