segunda-feira, 20 de julho de 2026

 

CLAUDIA LAITANO

O canto da sereia

Mas o que uma coisa tem a ver com a outra, pergunta meu intrigado leitor, tentando adivinhar onde esse assunto vai dar. Para começar, a origem de tudo. Apenas. Tanto o futebol quanto a nova versão de A Odisseia reencenam a mais antiga e sedutora de todas as narrativas: a jornada épica de um herói (ou de uma seleção de heróis) que encara desafios excruciantes - os externos, mas também os que guarda dentro de si - antes de chegar ao destino que lhe está reservado. No caso de Ulysses, Ítaca. No caso de um time campeão, a vitória.

Mas tem mais. Uma Copa e uma superprodução hollywoodiana são uma tromba d?água na borboletinha inconstante da nossa atenção. Arrastados por uma gigantesca onda de estímulos, colocamos o pé para fora da nossa bolha e voltamos todos a brincar no mesmo parquinho - como se ainda vivêssemos no tempo em que havia apenas três ou quatro canais de TV à disposição. Parece natural, mas nada nesse congraçamento global é gratuito. Para que a mágica aconteça na dimensão desejada, somos atolados de trivialidades a ponto de o espetáculo se tornar não apenas uma escolha individual, mas uma necessidade coletiva - mesmo para quem não gosta muito de futebol ou raramente vai ao cinema.

Era mais ou menos isso que a Escola de Frankfurt estava tentando nos dizer quando criou o conceito de Indústria Cultural, lá nos anos 1940: o entretenimento feito para atingir o maior número de pessoas é capaz de rebaixar nosso espírito crítico e nos empurrar qualquer outra mercadoria goela abaixo. No século 21, os apelos desse camelô que não nos dá sossego nem quando estamos tentando nos divertir ou emocionar se tornaram ainda mais escancarados e invasivos.

Por mais sublime que seja o espetáculo, e muitas vezes é, não são apenas o esporte e a arte que entram em campo quando milhões de pessoas estão assistindo ao mesmo jogo ou ao mesmo filme. Quando tanta gente está atenta, é provável que um cardume de sereias esteja aproveitando a audiência cativa para vender algum produto ou ideia. Homero nos deu a real há quase três mil anos: quem não se amarra no mastro, corre o risco de se afogar. 

Cláudia Laitano

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