Percalços e horizontes
da agricultura familiar
Dois levantamentos divulgados na semana passada dão a dimensão da importância e dos desafios da agricultura familiar no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo que o trabalho exercido em pequenas propriedades gera 42% do Valor Bruto da Produção (VBP) da agropecuária gaúcha, cerca de R$ 47 bilhões, esse misto de atividade econômica com modo de vida tem o futuro turvado pela falta de sucessão e pelas dificuldades para se viabilizar financeiramente. É preciso encontrar caminhos para dar novas perspectivas a esses mais de 360 mil estabelecimentos existentes no Estado.
Um dado de uma pesquisa que constou no livro Agricultura Familiar em Transformação, lançado na quarta-feira, ilustra bem esse momento cercado de incertezas. Um levantamento com 662 produtores ligados à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do RS (Fetraf-RS), de 34 municípios, concluiu que mais da metade dos entrevistados (53%) não tem a intenção de investir na propriedade nos próximos anos. É um sintoma claro do sentimento de que as melhorias não dariam retorno, talvez fruto das dificuldades atuais.
O principal obstáculo apontado é o encarecimento dos insumos. Os eventos climáticos extremos e os preços não remuneratórios dos produtos que vendem também geram desânimo. São os fatores que levaram os produtores ao endividamento.
Mas, muito além de fatores conjunturais, as famílias que vivem, trabalham e empreendem no campo enfrentam a dúvida sobre quem tocará as propriedades no futuro. Dados apresentados pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag) escancaram o problema do envelhecimento no campo e da falta de jovens dispostos a seguir nas propriedades. A opção tem sido o êxodo para as cidades. A partir dos dados do IBGE, a entidade demonstra que, da população rural do Estado, apenas 10% tem idade entre 25 e 35 anos e somente 2% está na faixa abaixo de 25 anos.
A agricultura familiar é um ativo econômico e social do RS. Está na base da organização de diversas cadeias que estão entre as mais importantes do Estado. Entre elas, a do fumo, a da suinocultura, a da avicultura e a da vitivinicultura. Sem esquecer da produção diversificada dos hortigranjeiros que chegam todos os dias às mesas da população urbana. A agricultura familiar é, ainda, cada vez mais reconhecida pela qualidade das agroindústrias, onde agrega valor ao que extrai da terra.
É natural que uma parcela de jovens opte por outros tipos de trabalho e é positivo que busque a cidade para avançar na escolaridade. Ainda assim, a manutenção dessa tendência indica que milhares de pequenas propriedades, em um futuro nem tão distante, podem parar de produzir alimentos por inviabilidade e por não terem quem trabalhe nelas. Convém analisar se políticas de crédito, de seguro rural, de capacitação e de assistência técnica para enfrentar os desafios das mudanças climáticas estão adequadas a essa nova realidade. Ao mesmo tempo, é preciso viabilizar melhor infraestrutura no meio rural e pensar em formas de proporcionar maior mecanização e investimento em tecnologia para que morar no campo volte a ser atrativo para os jovens, em termos remuneratórios e de qualidade de vida. _
A atividade está na base da organização de diversas cadeias que estão entre as mais importantes do Rio Grande do Sul

Nenhum comentário:
Postar um comentário