sábado, 27 de fevereiro de 2021


27 DE FEVEREIRO DE 2021
MARTHA MEDEIROS

Minhas águas

Watsu é um tratamento que se faz dentro de uma piscina aquecida e que é inspirado nos movimentos do zen shiatsu: você fecha os olhos enquanto o terapeuta segura seu corpo e o conduz com tanta lentidão e suavidade que você entra num estado de quase sedação. Serve para atenuar estresse, insônia ou apenas para relaxar, como fiz recentemente num spa. Desconectei do ambiente externo e vivi uma regressão: eu parecia um feto boiando no útero materno. Não costumo ser viajandona, então me dê um crédito. Nunca havia pensado na minha relação com a água e em como ela também conta a minha história.

Tudo começou no apartamento onde vivi os primeiros anos: no banheiro, tinha um box com cortina, limitado por uma muretinha de azulejos amarelos, e era ali, dentro daquele pequeno espaço onde caía a água do chuveiro, que eu fantasiava ter a piscina que nunca tive.

Mas havia o clube, onde, depois de saltar e correr pela piscina das crianças (enquanto minha mãe advertia: "Devagar para não escorregar!"), eu recebia permissão para entrar na piscina dos adultos, que não dava pé - me agarrava na borda e meu coração saltava pela boca nas vezes em que era levada até o outro lado nos braços do meu pai.

Nas férias, havia o mar gelado de Torres, com ondas irregulares e pouco azul, mas era meu Caribe, onde pegava jacaré com uma prancha de isopor e saía da água com os dedos murchos. Torres faz fronteira com Santa Catarina, e assim que cresci mudei de mar, upgrade celebrado nas areias de Bombinhas: nos meus 18 anos, era uma extensão de praia quase desabitada, onde passei os melhores dias da juventude, numa casa de pescador com amigos da vida toda e um visual que não perdia para o da Tailândia.

Chegamos à idade adulta, onde o oceano se expande e mergulho em cartões-postais: em Koh Pee Pee, vivi uma epifania, nadando ao lado de peixes luminosos enquanto superava medos infundados. Em Fernando de Noronha, o mergulho foi ao lado de tartarugas gigantes, o mais perto que cheguei do universo Jacques Cousteau. No México, duas experiências aquáticas longe do mar: um banho regenerador num cenote (depressão circular inundada de água fresca e cercada por vegetação) e um banho pelas águas esmeralda de uma gruta subterrânea, sob estalactites penduradas no teto: mistério, silêncio e fascínio.

Faltou espaço para falar da companhia dos botos cor-de-rosa nas águas doces do rio Negro, dos banhos de chuva na calçada, de uma tarde de sol dentro do mar do Arpoador e da única cachoeira da minha vida, quase na beira da estrada. Distante de mim mesma nesta longa e árida pandemia, uma simples sessão de watsu veio me lembrar: tão pé no chão, tão terra e fogo, essa também sou eu, de cabelos molhados e alma lavada.

MARTHA MEDEIROS

Nenhum comentário: