sábado, 4 de março de 2017



04 de março de 2017 | N° 18784 
LYA LUFT

Ainda me espanto

Até algum tempo atrás, eu quase me vangloriava de dizer que nada mais me espantava neste mundo. Depois, mais humilde, dizia “pouca coisa me espanta”. Hoje, eu me espanto a toda hora.

Por isso, nestes dias, lembrei divertida episódios de minha avó paterna, fiel luterana, uma das melhores pessoas que conheci, minha avó Olga, quando o namoradinho dos meus quinze anos, na deliciosa cidade onde nasci e vivi até vir fazer faculdade aqui (hoje é uma bela cidade universitária), voltou de férias no Rio vestindo camiseta e meias cor de gema de ovo. Ela murmurou, mãos postas, em alemão: “O mundo vai acabar”. Não acabou, apesar das meias amarelas, nem está acabando, apesar das tragédias ou óperas-bufas que se desenrolam aqui e no mundo (as locais me interessam sobretudo).

Me espantam os trágicos acontecimentos ligados a pré-adolescentes: coma alcoólico em festinhas ou espetáculos, lindas meninas cobertas de vômito, meninos quase em síncope, drogados, bêbados, sem que os pais imaginem o que se passa. Um médico atende uma grávida de treze anos: ela não sabe de quem é o pai, pois aconteceu numa “brincadeirinha em grupo”. Para o psicólogo de uma grande escola, um dos mais difíceis trabalhos é atender adolescentezinhos levados a sua sala por fazerem sexo no banheiro, meninas e meninos de onze, doze anos. “Cadê os pais?”, arregalei os olhos. A resposta foi breve e dura, pode ter sido exagerada e cruel, mas me fez pensar: “Muitos não têm pais em casa como a senhora pensa. Têm um gatão e uma gatinha”.

Terá sido sempre assim? Estarei perdendo a memória de forma seletiva, esquecendo as coisas que décadas atrás também eram assustadoras? Não creio. Meus filhos nessa idade jogavam bola com os meninos da comunidade ali perto, e era raro um desses colegas de futebol usar maconha. A meninada de menos de quinze anos não chegava frequentemente aos festivais já tendo bebido metade de uma garrafa PET onde misturavam vodca com energético. 

Claro que aqui e ali se sabia de uso de drogas, bebedeira, gravidez imprevista e precoce, mas talvez tudo fosse menos: menos gente, menos propaganda fatal, menos angústia, menos ausência de pais, hoje obrigados a trabalhar fora de hora para conseguir pagar o essencial para a família – ou perseguindo ideais fúteis de físico e dinheiro. 

Menos mimos: a gurizada começava a trabalhar cedo. Hoje, para que sobrecarregar os pobrezinhos ensinando-lhes o valor do trabalho e do dinheiro? Serão pobrezinhos? Seremos hoje mais frágeis do que antes ou apenas mais acomodados? Bebida e outras drogas (álcool é droga) eram menos populares, menos disponíveis e “normais” do que hoje. Meninas ao fazer quinze anos pediam, de presente, uma viagem, não silicone nos seios ou uma “lipinho básica” no corpo ainda nem formado. Sexo ultraprecoce era mais raro.

Sim, estou parecendo antiquada e chata com esse espanto. Não só com as aventuras da meninada: algumas figuras públicas envolvidas em denúncias ou investigações por uma corrupção gigantesca, às vezes, não controlam a grosseria e a língua, e se expõem a um ridículo – como o que hoje circula no cyberspace para divertimento geral – espantando, e muito, esta que aqui escreve.

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