quinta-feira, 30 de março de 2017


30 de março de 2017 | N° 18806 
CARLOS GERBASE

ETERNOS INIMIGOS?


A recente polêmica travada no jornal O Globo entre Bruno Wainer (da Downtown, poderosa distribuidora de filmes brasileiros) e o diretor Cacá Diegues (de Xica da Silva, Bye Bye Brasil e Deus É Brasileiro), travada com civilidade, mas com golpes fortes de lado a lado, me lembrou o melhor documentário de vida animal de todos os tempos (na minha modesta opinião): Leões e Hienas: Eternos Inimigos. Produzido pela National Geographic, com direção de Dereck e Beverly Joubert, tem imagens muito fortes e um texto espetacular, que nos leva a pensar em conflitos que acontecem bem longe da savana africana.

Wainer escreveu: “Acredito que as razões para essa grande quantidade de filmes produzidos que não encontram espaço nas telas de cinema é que, salvo honrosas exceções, estes são realizados na sua origem sem planejamento, sem compromisso com resultado, sem parceria com um distribuidor. A verdade é que os maiores sucessos do cinema brasileiro nasceram da colaboração estreita entre distribuidores e produtores”. Em outras palavras: produtores, roteiristas e diretores não sabem o que o público quer e não perguntam para quem sabe. Portanto, “fracassam” quase sempre.

Diegues respondeu: “O que Bruno Wainer escreve poderia ser esquecido, se não representasse perigosa concepção conservadora, concentracionária e financista, capaz de atrair incautos responsáveis pelo nosso cinema. (…) O cinema é uma indústria, mas não é apenas uma indústria. Reduzi-lo a isso seria como reduzir a indústria farmacêutica, por exemplo, a seu resultado de vendas. O cinema é uma economia criativa, muito mais complexa que a banalidade de uma indústria de resultados imediatos”. Em outras palavras: não dá pra julgar filmes só pela sua bilheteria.

A questão é: esse conflito, que reaparece de tempos em tempos desde a invenção do cinema, um dia terá fim? Ou estamos condenados a assistir para sempre a um documentário chamado Cineastas e Distribuidores: Eternos Inimigos? O final do documentário sobre leões e hienas não é muito otimista: “Nem sempre é fácil testemunhar essas batalhas. Mas, no fim de tudo, talvez possamos aprender mais sobre nós mesmos e as batalhas constantes que habitam nossas almas. Criaturas de instinto, incapazes de mudar seu destino, esses eternos inimigos continuarão lutando para sempre”.

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