terça-feira, 29 de janeiro de 2013



29 de janeiro de 2013 | N° 17327
DAVID COIMBRA

Não consigo esquecer

Vi uma menina em meio aos cadáveres, no ginásio de Santa Maria.

Não consigo esquecer aquela menina.

Eu estava caminhando pelos corredores de corpos das vítimas do incêndio na boate, estava angustiado com o cenário de horror. Na verdade, não sabia exatamente o que pensar nem o que sentir, e ainda estou pensando, ainda estou sentindo.

Então, avancei pelo corredor central, até onde haviam sido dispostas as mulheres, todas elas cobertas até a cintura por uma lona.

E a vi.

Ela estava deitada à direita do corredor principal, numa das fileiras frontais. Era uma moreninha de cabelos pretos e lisos que lhe escorriam até um palmo abaixo dos ombros. O que primeiro me chamou a atenção foram, exatamente, os cabelos. Pareciam estar penteados.

Tinham brilho. Em seguida, olhei bem para seu rosto. Era bonita, de feições delicadas, boca e nariz pequenos. Os olhos escuros estavam semiabertos, como se ainda enxergassem ou estivessem se abrindo de um sono reparador. Era muito jovem. Quantos anos teria? Dezoito? Dezenove no máximo.

Eu ia para um lado e para outro, mas acabava voltando e olhando-a. Por algum motivo, precisava olhá-la. Pensei que parecia uma menina bem cuidada. Sim, uma menina tratada com doçura, como têm de ser tratadas as meninas. Devia ser o orgulho dos pais, a paixão dos avós. Provavelmente estudava nos semestres iniciais de alguma das faculdades de Santa Maria. Talvez Veterinária. Sim, aposto que era Veterinária, a menina devia adorar bichos.

Devia ser uma menina alegre, que iluminava os locais em que chegava. Devia estar no primeiro namorado, nos primeiros beijos, nas primeiras dores de amor. Espantoso como dela emanava serenidade. A impressão era de que logo se ergueria dali, sorridente e estremunhada do adormecer, e olharia para mim, e me cumprimentaria com leveza, e sairia daquele lugar macabro com passos de quem já foi bailarina.

Lembrei de uma história contada no Evangelho de São Marcos. Jesus chega ao velório de uma menina. Todos choram, e ele diz:

– Por que estão chorando? Ela não está morta, está apenas dormindo.

As pessoas caçoam de Jesus, mas ele se aproxima do corpo e ordena:

– Talita, cumi!

Ou seja: – Menina, levanta!

E a menina se levantou para a vida.

Pensei que aquela menina de Santa Maria poderia se levantar para a vida naquele momento. Porque ela parecia, mesmo, viva. Tão bela, tão criança, tanto para fazer neste mundo. E aí olhei para ela e pensei: menina, levanta! E, por um momento, acreditei que ela pudesse, de fato, se levantar.

Olhei, olhei, mas ela não se mexia. Como podia, aquela menina ali? Não podia. Não devia. E de novo pedi: menina, levanta! E a fitei, fixamente. Levanta, menina, pedi outra vez. Levanta. Levanta. Levanta. Levanta.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013



28 de janeiro de 2013 | N° 17326
ARTIGO - Paulo Brossard*

Camada de cinza

Há substantivos que dispensam adjetivos para realçar o que enunciam. Tragédia é um deles. Diante de uma tragédia, tudo o que se disser é ocioso. Não precisa do socorro da adjetivação para agravar seu significado. De modo que, para sublinhar uma tragédia, pode-se dizer quase tudo em poucas palavras.

É nessa situação que me encontro diante da sugestão que recebo da Redação de Zero Hora no sentido de trocar o artigo entregue ao jornal na sexta-feira, como de costume, por outro que se aproxime do luto que domina a edição funérea em tudo e por tudo.

Sinto-me despojado de qualquer elemento que me possa explicar o acontecimento, mas, em verdade, ele não tem explicação, nem essa seria consolo para ninguém. A tragédia não se explica, não tem lógica nem desfecho aceitável. Dela, fico com a surpresa que no caso é vizinha do terror. Refugio-me em velhas lembranças e me lembro da cidade cujas ruas percorri tantas vezes em diversas cruzadas.

Dos amigos desaparecidos, por todos Alberto Tomás Londero, cidadão, professor, cientista. De sua catedral, cujos silêncios tantas vezes ouvi. De sua gente, da cidade universitária por excelência que atraía crescente e variada população jovem, principalmente jovem.

Nada sei sobre o local, mas verifico se tratava de uma festa onde reinavam a alegria, a música, a dança. Mais não sei. E me ocorre um fato que me tem impressionado: a violência que se filtra e infiltra nas situações menos compatíveis com ela. O canto, a música, a dança cheiram à antítese do que a ela se relaciona. O ritmo da música, o ríctus das faces, o marcial dos movimentos traduzem fenômeno a espelhar a desordem das emoções sentidas e externadas em desalinho. Não sei se devera mencionar isso, mas por uma associação de ideias repercutiram em meu espírito como ressoa na tristeza dos meus dias tristes.

A brutalidade do ocorrido em uma casa de espetáculos na noite de sábado se me apresenta como uma camada de cinza que apagou de repente o alarido de um bando de moças e rapazes, reduzindo-os ao silêncio definitivo para tantos que apenas madrugavam para as aventuras e desventuras da vida. Do que era promessa resta o luto.

O infortúnio foi tão inesperado, que imagino a mágoa a incorporar-se à antiga alacridade da vida universitária. Contudo, a vida continua em sua implacável sucessão de alegrias e tristezas, mas as marcas desse momento nunca serão esquecidas para a cidade. Mas Santa Maria é um universo e dentro dele existem e sobrevivem algumas pessoas. De cada uma delas, eu me lembro, embora não as conheça pessoalmente. São os pais que não ouvirão mais as vozes de seus filhos, nem verão o brilho dos seus olhos.

Quando falo em pais, englobo todos os que – pais, avós, irmãos, namorados, noivos, amigos – formam o universo afetivo que acompanha cada um de nós.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF



28 de janeiro de 2013 | N° 17326
MARTHA MEDEIROS

Nós que temos filhos

Por uma infelicidade tremenda, fui ler os comentários de um site sobre o acontecido em Santa Maria e dei com uma criatura funesta que falou coisas impublicáveis. Um só. Um único demente entre tantos solidários, e pensei: precisa mais que um para lamentarmos a falta de compaixão? Porque essa foi a palavra que me invadiu desde as primeiras horas de um domingo ensolarado lá fora e nublado aqui dentro: compaixão.

Qualquer pessoa que tenha um filho ou uma filha não tem como não se colocar no lugar dos pais, dos avós, dos tios daquela garotada que saiu no sábado à noite para se divertir e que foi vítima do destino – poderíamos também chamar de descaso, insensatez, irresponsabilidade –, mas é cedo para diagnósticos precisos. Destino é uma palavra mais abrangente.

Tenho duas filhas que comumente saem à noite, dançam, se divertem em lugares fechados, e eu não faço vistorias prévias, não peço laudos, não investigo, simplesmente confio que elas estarão em segurança. Quem pode garantir? Alguém deveria, mas o destino não se responsabiliza. Nunca se responsabilizou.

Sei de dois irmãos e de um casal de namorados que tinham relações com amigos meus e que estão entre as vítimas. De íntimo, eu não conhecia ninguém. Isso me afasta da tragédia? Nada nos afasta dessa tragédia, a não ser que não tenhamos compaixão. Essa palavra não me sai da cabeça. Um mundo individualista como o nosso precisa abraçar esse conceito, esse sentimento: compaixão. Se colocar no lugar do outro. Dói, mas é necessário.

Quem não tem filhos sofre. Quem tem se arrebenta. Não é algo que se explique. Nenhum racionalismo conforta. É um soco que nos tira o ar e nos faz lembrar o que tanto buscamos esquecer: que somos todos vulneráveis diante da fragilidade da vida.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
ROSANE DE OLIVEIRA

Que não se repita

No celular de um dos jovens mortos na tragédia da boate Kiss, em Santa Maria, a polícia encontrou 104 chamadas de uma mesma pessoa: “Mãe”. Os bombeiros contaram que os telefones espalhados pela boate tocavam sem cessar – e ninguém podia atender. Jovens universitários que saíram na noite de sábado para se divertir não voltaram para casa.

Os pais, ao acordar e saber do desastre, puseram-se a ligar para os celulares com a esperança de ouvir uma voz dizendo “calma, eu estou bem”. Os que não ouviram saíram desesperados a procurar pelos filhos nos hospitais ou no ginásio para onde foram levados os corpos.

Essa tragédia que enlutou o Rio Grande do Sul, comoveu o Brasil e foi notícia nos principais veículos de comunicação do mundo deve servir de lição para que não se repita em outras cidades. A pergunta que as autoridades responsáveis pela concessão de licenças, os bombeiros, os proprietários de casas noturnas, os jovens e os pais precisam fazer é o que pode ser feito para que não se repita.

Os jovens não se perguntam se os lugares que frequentam são seguros, se têm rotas de fuga e alvará de funcionamento. Os pais também ignoram as condições dos locais que seus filhos frequentam, confiantes de que têm autorização dos bombeiros, equipamentos de segurança e alvará da prefeitura. Ontem, jovens frequentadores de festas usaram as redes sociais para apontar falhas na segurança de casas noturnas em que estiveram recentemente.

Fiscalização precisa ser mais rigorosa

Se os bombeiros ou as secretarias responsáveis pelo licenciamento fecham uma arapuca, chovem protestos, como ocorreu em Porto Alegre quando o então secretário municipal da Indústria e Comércio de Porto Alegre, Valter Nagelstein, endureceu a fiscalização das casas noturnas. Há duas semanas, a prefeitura de Santa Maria fechou a boate do Diretório Central de Estudantes e o prefeito Cezar Schirmer foi chamado de autoritário. Na Kiss, o plano de prevenção a incêndios estava vencido desde agosto, mas até então a boate tinha autorização legal para funcionar.

O governador Tarso Genro e a presidente Dilma Rousseff fizeram o que se espera de uma autoridade: foram ao local da tragédia dar apoio aos feridos, consolar as famílias dos mortos e colocar as estruturas do governo à disposição para ajudar. Tarso disse que o inquérito deve ser “profundo, incisivo e rápido, com provas científicas e técnicas”, mas que é desrespeito apontar culpados agora.

De fato, não é o caso de se fazer prejulgamentos, mas de identificar os gargalos que ampliaram a extensão da tragédia. Como primeira medida, não seria o caso de proibir todo e qualquer tipo de fogo de artifício em locais fechados? É preciso que se faça uma inspeção rigorosa em todas as casas noturnas, conferindo se os alvarás estão em dia e se todos têm autorização dos bombeiros para funcionar.

Nagelstein diz que, quando foi secretário, eram comuns os casos em que a Smic negou alvará a empreendimentos e os proprietários foram à Justiça e conseguiram liminar para funcionar sem cumprir as exigências da fiscalização. Pode um juiz autorizar o funcionamento de um empreendimento que não passou no crivo dos técnicos?

Prefeitos em Brasília hoje
Apesar do luto oficial decretado pela presidente Dilma Rousseff, está mantida a programação do encontro nacional com novos prefeitos e prefeitas, que começa hoje, em Brasília.

Prefeitos do centro do Estado suspenderam a participação no encontro para ficar em suas cidades apoiando as famílias enlutadas.

O encontro, que se estende até quarta-feira, tem como objetivo apresentar aos gestores municipais os programas que têm reflexo direto nas prefeituras. Entre os temas prioritários, estão o crescimento econômico, a inclusão social, o equilíbrio ambiental e a participação cidadã.

Sem marola
A presidente Dilma Rousseff fará a abertura do encontro, na tarde de hoje.

Depois, os participantes poderão assistir a palestras com 28 ministros. No total, o encontro terá cinco auditórios onde ocorrerão as palestras das programações principal e paralela, além de oficinas de capacitação.

Dilma não quer discursos, palestras nem tom político.

Estarão à disposição dos gestores municipais 26 estandes de ministérios e de órgãos com influência direta no cotidiano dos municípios, como o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o BNDES, o Sebrae, os Correios e a Infraero.

ALIÁS
Abalado, o prefeito de Santa Maria, Cezar Schirmer, disse que a prefeitura não licencia nenhum empreendimento sem o aval do

Corpo de Bombeiros e que o fato

de o plano de prevenção a incêndios estar vencido não foi determinante para a tragédia, provocada pelo disparo de um sinalizador.

Mutirão
Com a morte da mãe do prefeito José Fortunati, dona Amélia, de 87 anos, coube ao vice-prefeito Sebastião Melo oferecer o apoio de Porto Alegre à prefeitura de Santa Maria.

Melo acredita que nos próximos dias será montado, sob o comando de Fortunati, um grupo para avaliar o que pode ser feito para aumentar a fiscalização e garantir a segurança dos frequentadores de casas noturnas.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
MOISÉS MENDES

A romaria dos parentes

– Era o fim do mundo.

A enfermeira Luciana Morales, 31 anos, não tem outra definição para o que viu quando chegou à emergência do Hospital de Caridade Astrogildo de Azevedo, na madrugada de domingo. E não há como descrever aqui o que Luciana viu e ouviu. O fim do mundo começava ali, por volta das 4h, e se prolongaria ontem, como deve se estender hoje, até quando ninguém sabe.

Ontem à tarde, os dramas eram cruelmente renovados a cada minuto no hospital, por maior que fosse o esforço para aquietar a angústia da pior de todas as esperas numa tragédia – a da informação que não vem e, quando chega, pode ser arrasadora. Circulei por três horas pelos corredores do Caridade à tarde. Invadi o desespero dos outros e vi que foi-se mesmo o mundo de tanta gente em Santa Maria, e não só o dos que morreram, mas de pais, irmãos e amigos que terão de sobreviver.

A ronda no Caridade, o que mais recebeu feridos, fazia com que parentes atraídos de cidades vizinhas transformassem o saguão e todas as alas numa romaria de lamentações. Uns corriam e outros arrastavam-se nos corredores do Caridade. A família Pereira começou uma vigília às 5h da manhã e desabou por volta das 17h. Igor Stephan Pereira, filho do seu Neri e da dona Leones, não resistiu.

Mas até ser informada da morte, no fim da tarde, a família ficara mais de 12 horas sem informações. Parentes andaram por todos os hospitais. Ninguém tinha notícia do rapaz. No pátio do Caridade, a mãe, o pai e as primas Liege e Paola esperavam por alguma informação que não vinha.

– Quanto mais passa o tempo, mais bate o desespero – dizia Liege Brum.

O tempo estancou de repente às 17h. A família foi informada de que Igor havia morrido. O estudante do primeiro semestre de psicologia saiu em estado grave da boate em que comemorava aniversário. Morreu um dia antes de fazer 20 anos.

A informação parcial, que maltratou os Pereira, muitas vezes se resumia ao que estava escrito numa lista, na entrada do hospital, com os nomes de “pacientes que vieram da Boate Kiss”. Na lista, os nomes das estudantes Flavia Maria Torre Lemos, Andrieli Righi e Vitória Sacol. Mas, assim com os Pereira nada sabiam de Igor, ninguém sabia nada das três amigas.

Procuravam por Flavia, Andrieli e Vitória os amigos Vagner Ferreira e Kefen Corrêa. Não eram encontradas no próprio hospital. O tio Fernando Alves também procurava por Andrieli. Às 16h40min, uma funcionária o informou:

– Ela não está mais aqui.

O tio retrucou:

– De Porto Alegre, informaram que ela estava aqui.

O tio insiste e dá uma pista, sabendo que a identificação das mulheres, que levam documentos em bolsas, era mais difícil:

– Ela é morena, usa um piercing na boca.

Meia hora depois, fui à emergência, de onde saíam macas com pacientes graves, entubados, para hospitais de Porto Alegre. Numa maca, uma moça morena. Alguém diz:

– Esta é a Drieli.

Seria a Andrieli procurada pelos amigos e pelo tio? Não era. Drieli Pedroso Lucas estava sendo embarcada numa ambulância que a levaria ao Hospital Mãe de Deus, na Capital. A emergência do pronto-socorro do Caridade chegou a receber mais de 70 pessoas durante a madrugada. Foi quando a enfermeira Luciana Morales viu o horror. Drieli era das 20 pessoas que ainda estavam ali, no final da tarde – a maioria na CTI.

Aquela não era, como se poderia imaginar, a hora em que a urgência cede lugar à tensão controlada. Luciana continuava ali, sob pressão intensa.

Era a hora em que alguns pacientes começavam a piorar, entre os quais os que inalaram muita fumaça e tiveram queimaduras nos pulmões. Foi o que aconteceu com Lauro Clos Marçal, 30 anos. Lauro estava bem até o início da tarde, quando piorou e foi levado para a unidade coronariana. Na vigília, tinha a distância a companhia dos pais, Amilton Valandro Marçal e Evelyn Russowsky, do irmão Diego e da prima Karen.

Lauro, estudante de Direito na Faculdade Metodista, não deveria estar na boate. Amilton, professor da faculdade de Veterinária da UFSM, ganhou o convite para a festa de uma colega da universidade. Diego ficou com o ingresso. Desistiu de ir e o repassou ao irmão.

À tarde, a família se revezava no canteiro entre as avenidas Pinheiro Machado e José Bonifácio, onde fica o hospital. Marcelo Morais, 32 anos, porteiro, estava ali à espera de notícias do primo Pablo Ricardo Pacheco, 21 anos.

– Esta é a praça da agonia – disse Morais, enquanto se consolava por ter notícias do primo, que estreava na madrugada de ontem como segurança da Kiss.

Pablo estava ao lado do palco, onde o fogo começou. Marcelo achava que o pior já havia passado, e assistia aos outros dramas de quem também ficava à espera de algo na pracinha:

– Agora há pouco, aquela senhora que estava aqui foi informada da morte da filha.

Pais viviam a aflição de ter perdido um filho e saber que o outro ainda lutava para sobreviver. Edson Luís Pereira Biscaino, de Manuel Viana, buscava notícias de Renan, 25 anos, internado na CTI. O outro filho, Cássio, 20 anos, morreu na boate. Teriam morrido pelo menos nove jovens de Manuel Viana.

Eliana Brondani Rosso, mãe de um dos sobreviventes, Delvani Rosso, 20 anos, também internado na CTI, orgulhava-se do outro filho que participava da festa. Jovani, de 26, salvou muita gente que conseguiu carregar para fora da boate, quando as portas foram arrombadas.

– Ele arrastou gente pelos cabelos – contava a mãe.

A desinformação não tinha culpados, nem poderia ter. Como conseguir identificar tanta gente? Não havia como, dizia a enfermeira Luciana, que não estava na escala e foi para a boate, para ajudar no socorro, e depois para o hospital – ao ser informada da tragédia por uma amiga. Ao seu lado, Zuriel Cristo, 40 anos, tentava acalmar parentes que buscavam notícias. Zuriel é enfermeira do hospital, formada em psicologia. Nos corredores, atuava como psicóloga:

– O importante é estar junto.

Laís Pires Moreira tinha três informações destruidoras: perdeu o sobrinho Leonardo Lima Machado, 27 anos, cabo do Exército, acompanhava outra sobrinha, Jarlene Moreira Spitzmacher, na CTI, e tentava obter notícias do primo Douglas Machado, 23 anos, que ninguém sabia onde poderia estar.

No fim da tarde, o revezamento de parentes na pracinha em frente e nos corredores do hospital mantinha de prontidão muito mais irmãos, tios, primos e amigos do que os pais de quem estava internado, ou tinha o nome na lista mas não era localizado. Muitos pais haviam sido vencidos pelo cansaço. A notícia ruim andava por ali, ainda encoberta, pronta para massacrar alguém.

A notícia ruim poderia estar ali ou no Centro Desportivo Municipal, o Farrezão, para onde os corpos eram levados. Foi ali que Leandro Alves, primo de Andrieli, teve a informação de que os amigos Vagner e Kefen e o tio Fernando não queriam receber. Entrou na fila de identificação dos mortos e reconheceu a prima ao lado dos corpos das outras duas amigas também procuradas – Flávia Maria Torres Lemos e Vitória Saccol. Andrieli tinha 22 anos e estudava num cursinho para fazer vestibular.

Ontem, às 20h30min, quando telefonei para o tio de Andrieli, conforme havia combinado, para saber se ela havia sido localizada, torci por ela, por ele, por Vagner e por Kefen. A voz de Fernando Alves, quando atendeu ao telefonema, tinha o peso, a densidade da notícia ruim. Esvaiu-se ali a ilusão de que, em meio ao horror, eu poderia encerrar este texto com uma notícia boa.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
HUMBERTO TREZZI

A pior notícia

*Santa Maria

Escorada no ombro de familiares, a mulher com vestido azul e calça branca sai da parte menor do ginásio, tenta sentar em uma cadeira de plástico e desaba, indo ao chão com estrondo.

– Médico, médico! – gritam, desesperados, os parentes da senhora, que acaba de reconhecer o filho de 20 anos como um dos mais de 200 mortos na tragédia da danceteria Kiss.

Um grupo de enfermeiras e psicólogas, com esparadrapos identificatórios no lugar de improvisados crachás, acode a mãe, que não para de gritar:

– Meu filho, meu filho! Eu quero meu filho, tragam meu filho de volta!

Mas ele não volta.

Assim como não voltarão dezenas de jovens cujos parentes tinham, desde o final da manhã da ontem, a missão de identificar as vítimas do incêndio, o maior desastre já ocorrido no país desde a década de 1960.

Zero Hora acompanhou, de dentro do Centro Desportivo Municipal, o Farrezão (homenagem ao ex-prefeito santa-mariense e atual vice, José Farret), a dor de quem perdeu o familiar na flor da idade. Tia e madrinha do rapaz cuja mãe se desesperava, uma comerciária de 48 anos mal conseguia falar. Ela e o marido reconheceram o jovem em meio à montanha de corpos que se formou inicialmente em uma das alas do ginásio. Inconfundível, porque estava pilchado, “gaudério” como sempre foi. Tanto que tinha ido à boate, como sempre fazia, para curtir um grupo de fandango. Morreu pisoteado e asfixiado, como a maioria.

– Estou tão nervosa que voltei a fumar – desabafou ela, acendendo um cigarro no outro.

O ginásio parecia um formigueiro, tomado por centenas de voluntários que acorreram ao chamado de ajuda feito por meio das rádios. Além de médicos e psicólogos, compareceram assistentes sociais, enfermeiros, soldados e policiais. Muitos em chinelos de dedo e bermuda, que emergência não combina com etiqueta. Um jovem de branco, cabelo despenteado, comentou com colegas:

– O Exército me convocou. Eu não estava de plantão, mas tinha de ajudar. Conheço gente que estava na boate.

Adeus na Sala do Desespero

A maioria dos voluntários nem conhecia vítimas e, mesmo assim, se dispôs a sair do conforto caseiro para o cenário de guerra em que se transformou o centro de Santa Maria na madrugada de domingo. A confusão era tanta que mesmo quem queria ajudar tinha de ter crachá para passar por uma sólida barreira formada por PMs do Batalhão de Operações Especiais de Santa Maria. Assim que ingressava, o voluntário recebia uma etiqueta para colar na roupa, com nome e profissão anotados. Aí, era designado, pelo Comitê de Crise, para consolar parentes, ministrar medicamentos ou examinar os corpos.

Foi por volta do meio-dia de ontem, sob um calor sufocante, que os familiares, em fila, começaram a entrar na Sala do Desespero. Assim foi apelidado o local onde os corpos eram depositados, um ginásio menor do que o Farrezão, mas também situado no CDM. Gritos, lágrimas e desmaios se sucediam, em sequência. Um vaivém desesperado que incluía o uivo da sirene de ambulâncias, a gritaria de policiais e o entra e sai de agentes funerários, trazendo mais cadáveres. Todos jovens que a tragédia ceifou.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
DIANA LICHTENSTEIN CORSO

Como se não houvesse amanhã

É fácil evocar o que pensamos em momentos de agradável intensidade: “azar, não posso deixar de viver por medo, é tão legal que podia acabar agora”. Já pensei isso. Quantas vezes nos colocamos em situações de risco ou, pelo menos, naquelas em que o bom senso não impera? Não negue, mesmo que você seja o rei da precaução, todos nós já fomos apresentados à cara do perigo.

Sair à noite em nossa sociedade violenta, beber mais do que gostaríamos, estar em um lugar confinado, fazer uma aventura arriscada de carro, escaladas, voar de asa-delta, tomar banho em cachoeira, dirigir bêbado, subir no carro do amigo destemido ou alcoolizado, ficar íntimo de alguém que não se conhece, frequentar ruelas escuras. A lista é longa.

Essa leveza beirando a irresponsabilidade é coisa típica da juventude, mas também, com sorte, reencontramos esse sentimento mais adiante. Os jovens vivem momentos festivos de euforia coletiva, atravessam juntos uma noite que faz o tempo parecer infinito. A festa é nossa desde o início dos tempos e costumava ser um momento sagrado, onde os excessos e descontroles eram prescritos. Hoje celebra-se a alegria, a força vital, o direito de dançar de qualquer jeito, só pelo prazer de partilhar o ritmo com os amigos e contemporâneos.

Jovens se arriscam, mas desta vez o culpado é outro. A tragédia de Santa Maria, causada por irresponsáveis que, espero, serão descobertos e punidos, não foi culpa deles, que estavam se divertindo, nem da permissividade das famílias que não os acorrentaram em casa. Eles acorreram ao evento sem conferir se havia saídas de emergência, portas corta-fogo.

Mas isso não era tarefa deles. A alegria pressupõe a confiança de que vai dar tudo certo. A felicidade é otimista, por isso muitas vezes envolve riscos, que devem ser sanados por aqueles que têm a diversão alheia como forma de trabalho. Vale para uma festa, um parque de diversões ou um programa de mergulho.

Investigações e punições são uma dívida com as vítimas. Mas as famílias e os amigos sobreviventes não terão nada devolvido com isso, já perderam o essencial: aquela mínima isenção do medo e da culpa que nos ajuda a viver. A morte, principalmente em sua face trágica e quando se perde um jovem, é a maior experiência de impotência. Nada porta o sem-sentido da vida como a inclemência do fim, principalmente o de quem teve reduzido o tempo de dizer a que veio.

Perder um filho é a pior das mortes, é um assassinato da esperança, impossível de assimilar. Cuidamos zelosamente nossos descendentes, pois seguirão nossos passos quando cessarmos. Sua morte é 1 milhão de vezes mais insuportável que a nossa, restamos sem sua transcendência. Um filho morto diminui a chance de nos tornarmos lembrança. Apesar disso, não podemos ser egoístas e guardá-lo numa redoma, esperando que viva para nos cultuar.

Sou mãe de duas jovens da idade da maior parte das vítimas da boate Kiss. Tanto quanto elas, estivemos muitas vezes em muitos lugares assim. Se meus pais tivessem me impedido, se eu proibisse minhas filhas de viver seu tempo, certamente sua segurança estaria melhor garantida. Porém, um filho cerceado em sua liberdade é alguém cujo corpo é confinado para que sua mente só se ocupe de amar aos pais. Lá fora é perigoso, porque o mundo está cheio de perversos e irresponsáveis, mas é para onde todos temos que ir.

Às pessoas queridas dessas mais de duas centenas de jovens mortos gostaria de transmitir muito mais do que a solidariedade, também a identificação. E principalmente dizer: não, vocês não poderiam ter impedido seu filho, sua irmã, sobrinho ou amigo de estar lá.

Ele exerceu o direito de ser livre e feliz, você tinha o dever de respeitá-lo. Desta vez, não houve amanhã, mas se um jovem é proibido de conviver com seus pares ele também acaba privado de se conhecer, do seu futuro. A dor é inevitável, mas gostaria de aliviá-la da culpa. Correr riscos faz parte de ensinar a viver, embora, repito, essa dor seja tão imensa que certamente não estou, no momento, servindo de consolo.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
FABRÍCIO CARPINEJAR

A maior tragédia de nossas vidas

Morri em Santa Maria ontem. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1.925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30min, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só, e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido. 


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
PAULO SANT’ANA

Oremos pelos mortos

Ponhamo-nos no lugar dos familiares das vítimas da inigualável tragédia de Santa Maria.

Cria-se entre eles naturalmente um clima de revolta pelo acontecido. E é justamente em torno disso que quero me fixar.

Um dos impulsos naturais surgidos logo após uma tragédia dessas, a maior da história gaúcha, é a do justiçamento moral dos proprietários de uma boate que só tinha uma saída física e das autoridades responsáveis por licenciar para o funcionamento aquele local fatídico.

Cumpro alertar a imprensa gaúcha e a sociedade rio-grandense para que não se exerça uma caça às bruxas pós-tragédia.

Tudo tem de ser feito como manda a lei e o bom senso: a Polícia Civil apurará prováveis responsabilidades, e a Justiça, serenamente, examinará os fatos, decidindo sobre even- tuais autorias.

Ponho-me no lugar dos cerca de 400 pais e mães das vítimas da tragédia. Hoje em dia, sempre que um filho sai para a diversão noturna, os pais ficam com os corações apertados de apreensão.

Esses pais das vítimas de Santa Maria foram acordados na madrugada e souberam que houve um grande incêndio na boate Kiss.Logo a seguir, constataram que seus filhos não retornaram para casa.

A seguir, tiveram um sofrimento inenarrável, primeiro porque pressentiram que seus filhos poderiam ter morrido. Segundo, porque tiveram a tortura horrível de se dirigir até o ginásio municipal e reconhecê-los e identificá-los, carbonizados ou intoxicados.

Uma dor incomparável. Qualquer pessoa que morra numa tragédia ocasiona uma desolação, seja jovem, seja adulto, seja idoso.

Só que em Santa Maria morreram centenas de jovens. E gente universitária, pronta para estudar e formar-se, o futuro da nação. Mocidade estuante, livre para estudar, formar-se e realizar a sua vida.

E, como se viu, livres também para morrer. Morrer num braseiro ou numa câmara de gás de uma boate trágica de uma cidade universitária.

Não sei mais o que dizer. Sei que a vida implica risco de morrer a qualquer momento. Mas esse momento escolhido pelo destino para sacrificar estes jovens foi especial: era janeiro, decorriam as férias, tempo de alegria entre os pais e os filhos.

E sobreveio nesse tempo alegre e esfuziante a tragédia.

Só resta que se tomem providências para que nunca mais isso volte a ocorrer. Que nunca mais nenhum estúpido qualquer atire sobre o palco de uma boate um sinalizador no rumo de um teto coberto de material inflamável.

Que nunca mais se permita uma boate para grande público com uma saída só, além disso, quando os jovens tentaram de início fugir por essa saída, os seguranças da boate os impediram, imaginando que eles estavam saindo para não pagar a consumação, já era madrugada e portanto a consumação seria grande.

Uma tragédia, pior até porque foi entre nós e chamou a atenção do Brasil e do mundo. Tomara que todos os jovens gaúchos que sobreviveram a essa tragédia terrível um dia venham a chamar a atenção do Brasil e do mundo por grandes feitos deles que ainda hão de vir.

Prontamente, com rapidez impressionante, a presidente Dilma Rousseff e o governador Tarso Genro dirigiram-se a Santa Maria e foram solidarizar-se com as vítimas fatais, os feridos e seus familiares, confortando a cidade.

Tarso Genro tinha ontem uma emoção acessória, Santa Maria é a cidade que ele adotou para viver, estudou lá e fez carreira política também. Tarso nasceu em São Borja, mas, como milhões de gaúchos, escolheu Santa Maria como sede de seus estudos universitários.

Cada um de nós tem algo a ver com Santa Maria, que é o centro geográfico do Estado. Eu, por exemplo, me casei há 43 anos lá em Santa Maria, na Paróquia da Medianeira, daí por que fiz muitos amigos naquela cidade. Fico ainda mais tocado.

Os jornais e a imprensa em geral estão classificando a tragédia de ontem como a maior da história do Rio Grande do Sul.

Lembro-me de tragédias aéreas ocorridas aqui, assim como o célebre incêndio nas Lojas Renner, com muitas vítimas, na esquina das ruas Dr. Flores e Otávio Rocha, na Capital.

Os incêndios sempre estão ligados às tragédias, eles se salientam até nos terremotos. Por sinal, até a hora em que encerrava ontem esta coluna, não fiquei sabendo quantos minutos depois do incêndio chegou ao local a primeira unidade do Corpo de Bombeiros.



28 de janeiro de 2013 | N° 17326
LUIZ ANTONIO DE ASSIS BRASIL

Antonioni

Ouve-se nada. É um espaço interior e sombrio. É uma antiga igreja romana, com altas colunas. Pela luz do pórtico, delineia-se a sombra de um homem que avança. O homem logo aparece, caminhando com passos vacilantes de velho. A câmera aproxima-se do rosto. É Antonioni. Os cabelos brancos, iluminados por trás, formam-lhe uma auréola de santo. Tudo é de pedra e tudo é frio. Antonioni vai em direção a um conjunto escultórico. O silêncio persiste.

O olhar de Antonioni percorre o conjunto escultórico, fixando-se no rosto de um papa adormecido. Tudo é de mármore. Tudo, logo reconhecemos, é de Michelangelo. “Eis-me aqui, Michelangelo, eu, que tenho o teu nome, eu com minha humanidade que logo será pó e cinzas, e tu com tua eternidade.” A câmera faz um close no rosto do papa, captura suas pálpebras cerradas. Nunca um papa foi representado dessa forma humana e terrestre.

Muito lentamente o olhar de Antonioni desce, e então, em pormenores minuciosos, vai revelando o Moisés. Era isso que Antonioni busca. Antes, o olhar divagava. Agora, eis o semblante de Moisés, colhido por Michelangelo no tenso momento de ira ao constatar que seu povo se entregava à idolatria.

O olhar de Antonioni, atrás das lentes sujas dos óculos, age como outra câmera, levada pelas intenções do cineasta; mas não é apenas uma câmera, é mais do que isso, é uma alma que dialoga com o Moisés e com Michelangelo. “Agora te entendo, Moisés. Se tua cólera dirige-se a teu povo, minha indulgência a todos absolve. Estou pronto para partir. Essa é minha última visita. Minhas pernas trôpegas logo não terão forças.”

A mão de Antonioni, longa, trêmula, murcha, com dedos pontiagudos, aproxima-se da estátua. A mão procura o toque no mármore. Hesita um pouco, logo alcança seu objetivo. A ponta dos dedos percorre as volutas do tecido, desliza pelas reentrâncias, adentra os vãos na obscuridade. Já não se trata de toque orgástico, sequer erótico, sequer sensual. É um toque de quem busca descobrir o mistério e, não obstante, sabe que este jamais lhe será revelado.

Depois de 15 minutos, Antonioni abandona a igreja de San Pietro in Vincoli. Só agora se ouve algo, quase imperceptível, é música de Palestrina. Antonioni sai por onde entrou.

Eis o que é o filme Lo Sguardo di Michelangelo, de 2004. Está no YouTube.

Antonioni morrerá três anos depois. Um filme soberbo. Nenhuma palavra. Nada.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
LUIS FERNANDO VERISSIMO

Providências

Notícias como a da tragédia em Santa Maria provocam uma reação em cadeia: primeiro o choque, depois a incredulidade, depois a empatia emocionada com quem foi diretamente tocado pelas mortes, finalmente a revolta: contra a imprudência, contra as falhas da fiscalização, contra a ganância – enfim, contra todas as causas evitáveis do horror.

As outras emoções são manifestações humanas de solidariedade, mas só a revolta é útil, e tem – ou deve ter – consequência. A revolta pede providências para que tragédias assim não se repitam. Pede responsabilização clara e exemplar.

Pede, enfim, o que raramente se vê no Brasil.


28 de janeiro de 2013 | N° 17326
DAVID COIMBRA

A dor que jamais terminará

O horror, o horror.

A frase que encerra um dos maiores clássicos da literatura universal, O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, bem serve para descrever o que ocorreu em Santa Maria a partir da noite de sábado para domingo, e que ainda não terminou, e que, para centenas de pessoas, não terminará jamais. Pelo menos 230 jovens (até a noite de ontem) morreram em um incêndio que destruiu a boate Kiss, no centro da cidade.

Eram, quase todos, estudantes de diversos cursos da Universidade Federal. Até o meio da madrugada, estavam festejando a vida, rindo, dançando e se divertindo. Horas depois, quando o sol se ergueu sobre a cidade, jaziam no chão do ginásio municipal, o Farrezão, como se fossem vítimas de alguma guerra terrível.

Quem esteve no interior desse ginásio nunca esquecerá o que viu. Não poderá esquecer. As ruas do entorno foram bloqueadas pela polícia. Populares silenciosos se aglomeravam atrás dos cordões de isolamento. Só os familiares das vítimas podiam passar.

Eram encaminhados para o primeiro prédio do ginásio, sentavam-se nas arquibancadas e esperavam. Pelo que esperavam aqueles pais e mães? Esperavam que o nome de seus filhos fosse anunciado pelo sistema de som. Então, se erguiam trêmulos dos bancos de pedra e eram encaminhados por funcionários para o prédio ao lado, para proceder à identificação dos corpos.

E ali, no prédio ao lado, uma grande quadra de futebol sete, nesse prédio habitava o pesadelo. Mais de duzentos corpos estavam deitados de costas, lado a lado, formando corredores macabros que se estendiam de uma ponta a outra da quadra.

Caminhei por esses corredores. Vi os rostos daqueles meninos e meninas, muitos com expressões surpreendentemente serenas. Alguns estavam queimados e muito machucados, alguns ainda manchados de sangue, vários deles com as faces enegrecidas, mas quase nenhum carbonizado. Morreram de asfixia. Por causa da fumaça, não do fogo.

Os rapazes foram colocados na primeira metade da quadra, as moças na segunda. Todos sobre uma lona preta. As meninas foram pudicamente cobertas até a cintura por outra lona, já que muitas vestiam minissaias. As carteiras, documentos e celulares foram postos sobre o peito de seus donos.

Durante boa parte da manhã, esses celulares tocavam sem parar. Os funcionários circulavam por entre os corpos e não sabiam o que fazer. Deviam atender? Deviam falar com os pais desesperados que queriam notícias dos filhos?

A identificação dos homens foi mais fácil, porque a maioria deles levava documentos nos bolsos das calças. As mulheres carregavam os documentos nas bolsas, obviamente esquecidas na confusão que se iniciou às 2h30min. Um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava no palco situado no fundo da boate, acendeu um sinalizador para incrementar o show. Uma faísca do sinalizador saltou para o teto de isopor e espuma, que, de imediato, pegou fogo.

As pessoas começaram a correr para a saída, mas foram barradas pelos seguranças, que acharam que se tratava de uma briga. Outros confundiram a porta do banheiro com a de uma saída de emergência e correram para lá. Foi a pior das decisões. Desesperadas, as pessoas tentavam sair pelas basculantes e acabaram se pisoteando umas às outras. Quando os bombeiros chegaram ao banheiro, encontraram os corpos empilhados.

É a maior tragédia da história do Rio Grande do Sul. Nunca, no Estado, houve um cenário como o do ginásio municipal de Santa Maria, com mais de 200 corpos dos filhos desse chão rojados sobre uma lona vulgar, deitados de olhos fechados, os membros já tomados pelo rigor da morte, alguns com os braços estendidos como se pedissem socorro, alguns com as mãos em garra, tantos outros parecendo calmos, como se dormissem. Muitas meninas lindas, muitos meninos de tênis e camiseta, todos tão jovens, tão jovens, tão jovens.

O horror, o horror.

domingo, 27 de janeiro de 2013


FERREIRA GULLAR

Com saudade e com afeto

Não alcançava o nível das crônicas que o Rubem Braga escrevia e fizeram dele um mestre do gênero

Conheci Rubem Braga na revista "Manchete", em 1955, quando lá trabalhei como redator. Aliás, ali conheci muita gente, a começar por Otto Lara Resende, seu diretor, que me chamou para lá, onde trabalhavam Armando Nogueira, Darwin Brandão, Borjalo e, depois, Janio de Freitas e Amilcar de Castro.

Não por acaso, logo se tornou a melhor revista do Brasil. Rubem, como Paulo Mendes Campos e Fernando Sabino, era colaborador, escrevia uma crônica por semana. Fui para lá por indicação de Millôr Fernandes, meu companheiro de praia em Ipanema, ao saber que tinha sido demitido de "O Cruzeiro".

Como não havia vaga de redator, Otto me pôs provisoriamente como revisor, mas, para Adolpho Bloch, dono da revista, eu não era mais do que isso. Tanto assim que, quando Otto me passou a redator, criou-se um problema: "Ele não é redator, Otto, é revisor!". E Otto: "Não fala besteira, Adolpho, Gullar é um poeta, escreve muito bem".

Ele se calou, mas não se convenceu. Acontece, porém, que Rubem Braga, por alguma razão, não mandou a crônica da semana e Otto me pediu que a escrevesse em lugar dele. Aí entra Adolpho na Redação: "Otto, esse Rubem é um gênio. Viu que bela crônica escreveu nesta semana?". Armando e Borjalo logo se aproximaram para ouvir os elogios.

E Otto: "Quer dizer que a crônica do Rubem desta semana é uma maravilha?". "Pode dizer a ele que adorei!"."Acontece, Adolpho -disse Otto- que o autor dessa crônica não é Rubem Braga, é o Gullar."

Adolpho amarelou: - Você está de gozação comigo!

- Então pergunta ao pessoal aí.

- É verdade, Adolpho, quem escreveu a crônica foi o Gullar -garantiu Armando.

- Vocês estão querendo me sacanear! -alegou Adolpho, saindo da Redação, com um gesto obsceno.

- Aqui pra vocês, oh!

Mas não me tornei logo amigo de Rubem Braga, que pertencia à turma do uísque e eu à do chope. Naquela época, eu morava num quarto de pensão, no Catete, com Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira, que era espírito-santense como Rubem, e seu fã. Embora nunca tivesse grana para completar o aluguel do quarto, passava as noites tomando uísque com ele, Tom Jobim e Fernando Sabino. Viria a ser também um ótimo cronista.

Estive algumas vezes na cobertura de Rubem, ali na Barão da Torre. Numa dessas vezes, foi para encontrar com o poeta Pablo Neruda, que passava pelo Rio. Ao final do encontro, convidei-o a assistir à peça "Dr. Getúlio, Sua Vida, Sua Glória", do Dias Gomes e minha, no Teatro Opinião. Ele foi em companhia de Rubem, que o ajudou no esclarecimento de certos detalhes da peça.

No final, ele aplaudiu de pé e foi me agradecer o convite: "Agora, conheço melhor o Brasil", exagerou ele. Pouco tempo depois, embora não mexesse com teatro, escreveu uma peça, não sei se levado pelo entusiasmo daquela noite.

Outro convite do Rubem foi para encontrar com Gabriel García Márquez. A conversa estava animada, quando chegou um convidado que só me conhecia de nome.

- Você é o poeta Ferreira Gullar?

- Às vezes -respondi eu, para a risadaria geral. García Márquez quis saber o motivo dos risos e eu então lhe expliquei: - Respondi "às vezes" porque meu nome mesmo não é Ferreira Gullar, mas José de Ribamar Ferreira e, também, porque não sou poeta 24 horas por dia. Só às vezes.

Ele gostou da minha tirada, tanto que, pouco depois, ao falar a um jornal mexicano, a contou, mas atribuindo-a a Jorge Luis Borges.

Quem me informou disso foi Leon Hirszman, que também esteve na casa de Rubem naquela noite. Estava desapontado. Entendi: a tirada era boa demais para ser atribuída a um desconhecido.

Adolpho, ao elogiar a crônica que escrevi com o nome do Rubem Braga, estava mais uma vez equivocado. Era apenas interessante, não alcançava o nível das crônicas que o Rubem escrevia e fizeram dele um mestre do gênero na imprensa brasileira.

Agora, ao falar dele aqui, quando se comemora seu centenário de nascimento, lembro-me de uma linda crônica sua que começa assim: "Vieram alguns amigos. Um trouxe bebida, outros trouxeram bocas. Um trouxe cigarros, outro apenas um pulmão. Um deitou-se na rede e outro telefonava. E Joaquina, de mão no queixo, olhando o céu, era quem mais fazia: fazia olhos azuis".

DANUZA LEÃO

Hora de mudar

Começo a pensar que a viagem certa é ficar numa cidade pequena, passear a pé e observar as pessoas

Eu amo Paris, mas adoro Lisboa; é a cidade mais amável e gentil de toda a Europa.

Nos poucos dias que passei lá, vindo de Paris, num primeiro momento houve uma inevitável comparação com a cidade que havia deixado -com vantagem para Paris. Já no segundo dia tudo estava diferente. Era como se tivesse chegado a um Rio de 1800, pois algumas coisas em Lisboa não mudam, e é delas que mais gosto: um comércio antigo, chapelarias, pequenas lojas que apregoam "cintas e soutiens", e os alfacinhas, como são chamados os lisboetas, encostados nos prédios, conversando e fumando.

Fuma-se muito em Lisboa, e um dia, num restaurante, o garçom perguntou se eu preferia ficar na sala dos fumadores ou na outra, onde não se fuma. Acho que é o único restaurante que conheço em que existe uma sala onde se pode fumar durante a refeição.

Os cinco dias que passei em Lisboa viraram minha cabeça; começo a pensar que a viagem certa seria escolher uma cidade -pequena - e lá ficar por 10, 15 dias, prestando atenção às pessoas, aos costumes, vivendo uma vida normal, passeando a pé, sem obrigação de ver nada.

Eleger um café para passar duas vezes por dia, onde acabaria sendo reconhecida e tivesse alguém que me dissesse bom dia, um restaurante onde o garçom talvez me chamasse pelo nome, e me sugerisse o que comer. Uma cidade onde não houvesse nada para comprar, a não ser um queijo da terra, um doce da terra; uma cidade que, sobretudo, não estivesse na moda.

Penso em uma cidade pequena, talvez o Porto, e vou contar por quê. Como haveria um jogo de futebol importante, entre um clube do Porto e outro de Lisboa, a televisão fez uma grande matéria sobre as duas cidades.

E as pessoas que foram entrevistadas disseram que Lisboa é uma cidade desumana, onde ninguém recebe as pessoas em casa, só nos cafés e restaurantes, mas que eles, do Porto, não: têm o hábito de abrir suas casas para os amigos a qualquer hora do dia, e prazer em fazer um almoço para mostrar como lá se come bem -e aí mostraram o mercado de peixes, as frutas, os vinhos, e falaram sobre o que cozinhariam para bem receber um forasteiro.

Coisas incríveis, como salada de orelha, bochechas de porco, do porco do qual se faz o melhor presunto do mundo, o pata negra, nem gosto de pensar. Estou louca para conhecer o Porto ou uma cidade parecida, onde não aconteça nada; que delícia, 15 dias em um lugar onde nada acontece.

E afinal, o que se quer de uma viagem? Preocupações zero, compromissos zero, comer bem e, se tiver exagerado no vinho durante o almoço, poder ir dormir um pouco sem o menor remorso de não ter visto um museu incrível, ou mais um castelo. Quando estava em Paris inventei de ir a Versailles, e foi lamentável. Montes de ônibus de turistas, todos tirando fotos -enfim, tudo que já se sabe. Mil vezes tivesse comprado um belo DVD para ver em casa.

Mas nada é perfeito, e em Lisboa tive momentos de angústia: não houve um só dia em que não tenha sido abordada por duas, três pessoas, pessoas de 25 a 50 anos; elas se apresentavam, diziam o nome, idade, origem, e pediam uma ajuda em dinheiro. Não eram mendigos nem pareciam pobres; todas/todos vestidos corretamente, educados, mas precisando de uma ajuda financeira, o que foi muito triste.

Mesmo assim, Portugal é o país ideal para passar dias encantadores de muita paz -e, aproveitando, dar uma ajuda para o país sair da crise.

P.S. 1 - Chegando ao Brasil e lendo os jornais, tive uma saudade enorme da figura de Marina Silva, da correção de Marina Silva, da integridade de Marina Silva. Precisamos de Marina em 2014.

P.S. 2 - Estou de férias, oba, e volto em 24 de fevereiro, bom Carnaval.

ELIO GASPARI

A festa de Abraham Lincoln

Presente para o verão: um grande filme com um grande ator, saído de um belo livro, sobre um período memorável

Coisa muito boa. Um grande filme ("Lincoln") de um soberbo diretor (Steven Spielberg), com um magnífico desempenho (Daniel Day-Lewis no papel do presidente), extraído de um belo livro ("Team of Rivals", de Doris Kearns Goodwin) sobre um luminoso período da história, o final da Guerra Civil americana, com o triunfo do progresso sobre o atraso.

São duas horas e meia de arte, prazer e instrução. Spielberg fez seu filme tratando das poucas semanas durante as quais Lincoln dobrou a Câmara dos Deputados, aprovou a 13ª emenda à Constituição e acabou com a escravidão nos Estados Unidos. O Sul já estava derrotado, mas a libertação definitiva de 4 milhões de negros significaria o maior confisco patrimonial da história.

O filme saiu do "Team of Rivals", no qual o episódio da aprovação da emenda, com suas tramoias, ocupa menos de dez páginas. A mágica de Spielberg esteve em capturar a alma da obra de Doris Kearns Goodwin. Ela trabalhou na Casa Branca, escreveu sobre os presidentes Roosevelt, Kennedy e Lyndon Johnson. (Seu marido, Richard Goodwin, assessorou os dois últimos e, em julho de 1962, defendia que os militares derrubassem logo o presidente João Goulart.)

O Lincoln de Daniel Day-Lewis entrará para a história do cinema como uma das melhores caracterizações de um personagem, disputando com o general Patton de George C. Scott, que era mais fácil.

Aquilo que parece exagero tem tudo para ser acerto. O andar de Lincoln era esquisito, sem se apoiar no calcanhar, porque tinha pés chatos. Ademais, era desengonçado mesmo. Resta só um problema: não há gravação de sua voz.

Spielberg cometeu poucas licenças cenográficas. Uma delas, deliberada. Na rendição do general sulista Robert Lee, Ulysses Grant, comandante das tropas do Norte, aparece com o uniforme em razoável estado e as botas limpas. Na realidade, estava enlameado e a roupa, amarfanhada. Quem os visse, pensaria que o vencedor da guerra fora Lee. Além disso, é improvável que Thaddeus Stevens (Tommy Lee Jones) tenha levado para casa o original da emenda.

A edição americana do "Team of Rivals" tem 944 páginas. A autora fez uma versão resumida que foi publicada na França e saiu no Brasil, com um terço do tamanho. Com os cortes, sumiu a cabala narrada no filme.

O "Lincoln" acaba de chegar às livrarias. Custa R$ 34, e não tem versão eletrônica. Desse jeito, cria-se um pedágio para o uso da língua portuguesa, pois o e-book da edição integral, em inglês, sai por R$ 20,39.

LOTA JÁ SABIA

Para os arquivos do prefeito Eduardo Paes e da doutora Jurema de Sousa Machado, presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

No dia 28 de outubro de 1964, o governador Carlos Lacerda pediu ao criador do Iphan, Rodrigo Mello Franco de Andrade, o tombamento do parque do aterro do Flamengo. Foi atendido.

Em dezembro daquele ano, Lota de Macedo Soares, a quem se deve a maravilha, enumerou para o doutor Rodrigo todas as obras e edificações do parque, "feitas ou a fazer". Lá está uma "marina na enseada da Glória". Não há previsão de auditórios, estacionamentos ou centro de convenções. Até aí, nada de novo. O relevante na carta de Lota foi sua premonição:

"Pelo seu tombamento, o parque do Flamengo ficará protegido da ganância que suscita uma área de inestimável valor financeiro, e da extrema leviandade dos poderes públicos quando se trata da complementação ou permanência de planos".

O parque foi tombado. Se Paes ou Souza Machado olharem em volta, verão a "ganância". Se deixarem que se construa um mafuá na área da marina, verão no espelho a "leviandade dos poderes públicos".

IVETE NÃO DÓI

O governador Cid Gomes contratou a cantora Ivete Sangalo para animar uma inauguração de hospital pagando-lhe R$ 650 mil pelo show.

Quando o Ministério Público reclamou, ele disse que "doa a quem doer", realizará o evento.

O doutor pode torrar R$ 650 mil na inauguração de um hospital. O que ele não pode é misturar o nome de Ivete Sangalo com algo que doa.

EM PINDORAMA, O SUL VENCEU

Deve-se a Darcy Ribeiro um resumo da desdita brasileira na segunda metade do século 19: "Aqui o Sul venceu". Enquanto na Guerra Civil americana morreram 600 mil pessoas e entre 1863 e 1865 libertaram-se todos os escravos, em Pindorama, nessa época havia cerca de 2 milhões de pessoas escravizadas, mas a abolição só veio em 1888.

D. Pedro 2º manteve-se neutro (piscando o olho para o Sul) e os portos brasileiros davam guarida a navios rebeldes que pirateavam no Atlântico Sul. Isso até outubro de 1864, quando o governo acolheu no porto de Salvador uma embarcação confederada. Uma canhoneira do Norte atacou o barco, sequestrou-o e afundou-o em alto mar.

A essa época, o embaixador americano no Brasil era James Webb, um jornalista americano, cupincha do secretário de Estado William Seward (aquele que usa roupa de brocado no filme).

Um picaretaço. Achava que a abolição era mais perigosa que a escravatura. Diante da simpatia de Lincoln pela ideia de uma deportação dos negros americanos, Webb foi à luta e tentou organizar uma empresa de colonização capaz de trazer 100 mil negros para a Amazônia. Ela teria um capital binacional de até 5 milhões de dólares e cada deportado receberia um lote de 40 hectares, uma choupana e algum equipamento.

O presidente da companhia seria nomeado pela Casa Branca. Quem? Ele. O plano naufragou em Washington, em Londres e no Rio de Janeiro. Aqui, mostrando que Darcy Ribeiro tinha razão, o marquês de Abrantes disse a Webb que a migração lhe parecia inviável, pois o governo imperial não pretendia admitir negros livres na Terra de Santa Cruz. (Passados mais de 150 anos, o gerente da concessionária Autokraft da BMW, na Barra da Tijuca, enxotou da loja uma criança negra livre de sete anos.)

A Guerra Civil americana causou tanto horror à sociedade escravocrata brasileira que o maior dos poetas abolicionistas, Castro Alves, passou batido no assunto. Seis anos depois da morte de Lincoln, chamou seu assassino de "cavaleiro sinistro".

Terminada a guerra, d. Pedro foi aos Estados Unidos, visitou o presidente Grant e andou de braço dado com o general Sherman, o devastador do Sul. Sua obra foi mostrada em "E o Vento Levou...".

As relações dos Estados Unidos com o Brasil nesse período estão contadas num grande livro: "O Sul mais Distante" ("The Deepest South"), do professor americano Gerald Horne. A tradução, em papel, sai por R$ 59,50. O original está na rede por R$ 20,72.