sábado, 13 de fevereiro de 2010



14 de fevereiro de 2010 | N° 16246
VERISSIMO


Teses

O Felipe tinha teses. Começava sempre com a mesma frase.

– Vocês já notaram...

A turma do bar gozava.

– Ih, lá vem o Felipe com outra tese.

– Não. Vocês já notaram como as vacas, pastando no campo, estão sempre viradas para o mesmo lado?

– Ninguém da turma do bar tinha muita experiência com vacas pastando.

– É mesmo, Felipe?

– Podem conferir. Vacas no campo estão sempre viradas para o mesmo lado. E é sempre na mesma direção.

– Que direção?

– Nordeste.

– Por que as vacas estão sempre viradas para o Nordeste?

– Minha tese é que elas não estão viradas para o Nordeste. Estão viradas para Meca.

– Meca?!

– O lugar sagrado dos muçulmanos.

– Espera aí Felipe...

– A vaca não é um animal sagrado para os árabes? Pois então. Tudo se encaixa. Não sei como, mas se encaixa.

Durante algum tempo, ninguém na mesa falou, digerindo a tese do Felipe. Que tomava seu chope, triunfante. Até que alguém se lembrou:

– Espera lá. Vaca é sagrada na Índia. Não tem nada a ver com árabes.

Mas Felipe já tinha outra tese.

– Elas estão alinhadas com o eixo magnético da Terra.

O NATURAL

“O homem é naturalmente polígamo” foi a tese que o Oscar propôs aos casais de amigos, depois do churrasco e de muitas cervejas na casa do Remi e da Luciene.

– Ah é, Oscar? – disse Maria Helena, sua mulher.

Todos riram, alguém disse “Iiih”, outro disse “sai dessa, Oscar”, e o Oscar se apressou a explicar que estava falando em tese, não defendendo a poligamia legal, muito menos o harém particular. Mas, de acordo com sua tese, todos os monógamos ali viviam em conflito com a Natureza. A mulher era naturalmente monógama. O homem não.

– Rá! – disse a Lucilene.

– Como, “rá”? – perguntou o Oscar.

– Você acha, então, que o instinto sexual é o que determina o que é natural ou não?

As risadas tinham parado com o “Rá”. Agora estavam todos prestando atenção. Afinal, era uma questão científica. O Oscar pensou na resposta, girando a cerveja no copo. Depois de alguns segundos, disse.

– Acho.

– Natureza é sexo?

– Não, mas é a nossa natureza sexual que determina o nosso comportamento. Ou devia determinar. Nossa cultura monógoma é antinatural.

A Lucilene tinha bebido demais. Normalmente, quase não falava. Agora estava de pé, nariz a nariz com o Oscar.

– O homem está no seu apogeu sexual aos 17 anos de idade, certo?

Oscar concedeu o ponto. Certo.

– A mulher, aos 35. Certo?

Oscar abanou a cabeça, querendo dizer sim, não, talvez, mas... Lucilene insistiu.

– Está provado. É científico. O macho aos 17, a fêmea aos 35. Segundo a sua tese, o único casal natural, o único casal de acordo com a natureza, seria um homem de 17 e uma mulher de 35.

Lucilene não disse “como eu”, mas foi o que todo mundo ficou pensando. Lucilene estava com 35, e Remi estava mais perto dos 70 do que dos 17.

– Todos nós somos antinaturais, está entendendo? Todos os nossos casamentos estão errados!

Julinha decidiu intervir na conversa.

– Alguém quer mais rocambole?

– Em casa, a Maria Helena cobrou do Oscar.

– Tinha que começar aquela conversa?

– Era puramente teórico, Leleninha!

E concordaram que o Remi precisava pensar menos nos seus churrascos e mais no seu casamento com a Lucilene. O Remi colecionava espetos e os guardava em ordem, pelo tamanho. Aquilo sim, não era natural.

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