sábado, 13 de fevereiro de 2010



13 de fevereiro de 2010 | N° 16245
NILSON SOUZA


A pintora e o perguntador

Gosto muito mais de ouvir do que de falar. Sempre fui assim, um recatado observador da vida alheia – primeiro por timidez, depois por opção profissional. Descobri, na idade escolar, que é mais prudente esperar ser chamado do que levantar voluntariamente o dedo indicador da vaidade.

No jornalismo, aprendi a arte da perguntação. Exerço-a até mesmo quando estou de férias, pelo simples prazer de auscultar a alma do outro e também, provavelmente, pela curiosidade de saber como estou sendo percebido na minha condição de repórter e entrevistador.

Passemos à prática.

Dia desses, numa caminhada matinal pela beira do mar, encontrei uma senhora cercada de quadros com belas e coloridas pinturas. Parei e perguntei:

– São seus?

Ela então me contou que sempre gostou de pintar, que o fazia por diversão, mas acabou tomando gosto, fez cursos, desenvolveu uma técnica própria e agora – relatou com os olhos brilhando de orgulho – vivia de sua arte, já tendo obras vendidas até para estrangeiros. Quando tomou fôlego, ampliei o questionamento:

– Por que você escolheu o mar como tema?

Ela me disse que sempre viveu naquela praia, que amava pescar, que já superara numa competição de anzol um punhado de homens experientes na atividade, que conhecia aquelas águas, aquelas pedras, aquelas espumas e aquelas areias como uma abelha conhece as flores do jardim. Aproveitei a metáfora:

– Você trabalha no seu jardim?

Já sem qualquer resistência ao desconhecido perguntador, ela me falou de sua casa, de seu estúdio, de sua juventude, de seus amores, de seus desgostos e dos seus projetos. Continuei lançando pontos de interrogações e fisgando cardumes de respostas.

Entreti-me por vários minutos na deliciosa tarefa de ouvir e provocar, até que aquela história de vida extraída do cotidiano fizesse sentido. Então, convencido de que havia desempenhado com competência um fundamento do meu ofício, a arte de questionar, resolvi levantar o dedo e arrisquei:

– Depois de todo esse interrogatório, qual você acha que é a minha profissão?

A pintora me olhou de cima abaixo, como se estivesse tomando uma perspectiva para dar a primeira pincelada na tela em branco. E respondeu convicta:

– Advogado, sem dúvida!

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