sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010



12 de fevereiro de 2010 | N° 16244
DIANA CORSO


Nossas coisas selvagens

Estrearam simultaneamente no começo do mês dois filmes de estética infantil, mas complexidade nem tanto. No Fantástico Sr. Raposo, um pai de família é incapaz de entender-se com seu filho e consigo próprio após perder a identidade juvenil de predador.

É um belo filme sobre a paternidade contemporânea e a forma como a vida adulta, com suas convenções e chatices, não traduz o que mais prezamos em nós, que parece morrer junto com a irreverência da juventude.

Mas é no segundo filme, Onde Vivem os Monstros, que esse mesmo assunto da dificuldade de domesticar a força de nossos sentimentos e aplacar as frustrações se aprofunda. Em inglês, o título do livro infantil de 1963 que lhe deu origem é mais explícito: “Onde vivem as coisas selvagens”. É disso que se trata, de onde colocar nossas coisas selvagens.

No livro, Max é um menino que fica com muita raiva depois de ter sido mandado dormir sem jantar por ter feito muitas travessuras e ameaçar sua mãe de devorá-la, já que ela o havia chamado de “coisa selvagem”.

Em seu quarto, ele vive uma aventura imaginária onde viaja para essa terra das coisas selvagens, e lá se torna seu rei. Brinca com eles até cansar e sentir falta do aconchego materno, e volta a tempo de encontrar seu jantar servido no quarto, ainda quente.

A adaptação cinematográfica precisou ampliar a trama enxuta e dirigida à primeira infância. Criou um menino inconformado com a separação dos pais, a ocupação da mãe com o trabalho, e com a indiferença da irmã adolescente.

Quando recebem a visita do namorado, da mãe, para ele é o fim: num acesso de raiva, morde-a e foge para essa terra imaginária trajando sua fantasia de lobo.

Em ambas as situações, é a dificuldade de controlar a fúria por ter sido preterido pela mãe que move o menino Max, quer seja por negar-lhe alimento, quer por arranjar um namorado.

No filme, os monstros são cheios de inquietudes: desejam ser notados, apreciados, querem brigar menos e que seu grupo fique unido para dormir e brincar e sentem-se abandonados pela personagem mais materna entre eles e esperam que o rei Max faça isso.

A volta para casa se dá quando ele reconhece sua incapacidade para liquidar os sofrimentos com urros e brincadeiras e unir o que insiste em se romper. Mesmo acompanhado das coisas selvagens, ele não consegue impedir sua solidão.

Max e o Sr. Raposo esperam que a vida lhes dê mais poder, que seja menos frustrante, que as bravatas e urros resolvam no grito nossas limitações. Somente crianças e jovens para ser tão ingênuos. Somente?

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