domingo, 25 de outubro de 2009



Sexo, luto e martírio

Em "Anticristo", de Lars von Trier, a violência tremenda eleva imediatamente a qualidade do filme; as cenas foram feitas com um evidente fascínio

JORGE COLI - COLUNISTA DA FOLHA

Muita coisa em "Anticristo", de Lars von Trier, é difícil de engolir. As afetações estilísticas neodogma, com a lente que tarda em conseguir o foco, com a aparente negligência da montagem. O tom de poesia rasa, com tomadas em câmeras lentas, lentíssimas; o preto e branco estudado; o hit de música clássica.

A simbologia voa baixo: um refúgio no meio da floresta se chama Éden; glandes de carvalho caem em quantidade sobre o telhado; uma corça arrasta seu feto mal expulso.

Na hora da transa em comunhão com a natureza, saem braços que se retorcem em meio às raízes da árvore imensa; é a foto do cartaz [do filme]. Solução que lembra certas montagens kitsch de óperas.

Sam Raimi concebeu um estupro na, e pela, floresta, em "Evil Dead" (A Morte do Demônio ou Uma Noite Alucinante, 1981). Cena espantosa de invenção e realização: lembrar dela é acusar ainda mais as afetações de "Anticristo".

Nos dois filmes (e mesmo nos três, incorporando "Evil Dead 2", que se concentra não no isolamento de um grupo, mas de um casal), existem grandes pontos em comum.
Há, porém, uma grande diferença: Raimi fez cinema com vontade devorante, deixando que terrores, angústias, aflorassem, trazendo consigo suas complexas profundidades. Elas emergem por si mesmas, sem intenções ocultas.

Lars von Trier faz um terror cabeça e nele expõe, insistente, seus propósitos existenciais e metafísicos.

Gritos e sussurros

Durante longo período, "Anticristo" centra-se na ligação e nos conflitos de um casal. Eles perderam um filho, ainda bebê.

Como num [Ingmar] Bergman que, ao invés de sugerir, ensinasse em tom professoral. A pretensão e o autoritarismo do marido psicólogo são sublinhados. Diante do desespero da mulher, contraria e despreza as receitas do psiquiatra; passa a analisar a própria mulher, o que é contra todas as regras.

Para ilustrar o racionalismo masculino, suas terapias são patéticas: "Respire fundo; conte; 1, 2, 3, 4, 5". Mais ainda, querendo que a mulher se esqueça do luto, ao invés de levá-la para Ibiza ou Nova York, enterra-se com ela numa casa sinistra, em meio a floresta ameaçadora.

Quando o desastre começa, dá vontade de dizer: "Bem feito".

O sacrifício

A violência tremenda, que causou um cheiro de enxofre e de escândalo na crítica e no público, eleva imediatamente a qualidade do filme. As cenas foram feitas com um evidente fascínio e fazem emergir um paroxismo cinematográfico para além dos símbolos e das intenções.

Espectros

"Anticristo" é um filme que parece sinceramente obsessivo, apesar de seu desequilíbrio. Vários críticos condenaram, ou assinalaram, a misoginia de Von Trier.

No entanto a situação exposta não o confirma: a mulher se retirara numa casa isolada para escrever uma tese sobre assassinatos de mulheres na história. O tema é feminista. Ela não a conclui, e as anotações mostram que sua letra desanda.

Cercada por ilustrações terríveis e sugestivas, passa a encarnar a maligna, a perversa, a criminosa, que os homens, os antigos torturadores, viam nela. Não é uma revanche, é a encarnação de uma imagem projetada. "Anticristo" está menos entre Nietzsche e Marylin Manson do que entre Lilith e Madre Joana dos Anjos.

Uma de suas falas, "mulher chorando é mulher armando", poderia ser a de algum inquisidor para sublinhar a falsidade má e astuta. O diretor, no entanto, insiste na ária de Handel, "Lascia ch'io Pianga", deixe que eu chore, tão cheia de verdadeira dor feminina.

jorgecoli@uol.com.br

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