domingo, 2 de junho de 2013

MAURICIO STYCER

Renovar ou repetir?

Depois de "Salve Jorge", há alívio no ar com perspectiva de que "Amor à Vida" seja, ao menos, decente

Neste ano comemoram-se 50 anos da primeira telenovela exibida de forma diária no Brasil, "2-5499 Ocupado", um texto argentino adaptado por Dulce Santucci, com Tarcísio Meira e Glória Menezes como protagonistas, exibida na TV Excelsior entre julho e setembro de 1963.

Não cabe aqui descrever a rica história do gênero no Brasil, onde adquiriu uma especificidade única, nem detalhar as diferentes etapas do seu desenvolvimento, quase sempre em paralelo com o próprio país.

O fato é que a novela, desde o início da década de 1970, tornou-se o principal produto da televisão, e ainda hoje ocupa um espaço notável no cotidiano do brasileiro.

Item mais nobre desta indústria, a chamada "novela das oito" (hoje, "das nove"), da Globo, é uma espécie de instituição nacional há mais de 40 anos. Mesmo com a audiência em queda, sofrendo a concorrência de outras mídias, ela permanece como referência em matéria de entretenimento.

Veja, por exemplo, "Salve Jorge", encerrada há duas semanas, depois de acumular as mais baixas audiências da história neste horário. O último capítulo registrou 46 pontos no Ibope (cada ponto equivale a 62 mil domicílios na Grande São Paulo), sendo responsável por 76% dos aparelhos ligados no horário. Para um fracasso, os números impressionam.

A novela de Gloria Perez foi um ponto fora da curva não apenas em matéria de ibope. "Salve Jorge" destoou, também, de um movimento, que parece em curso, de renovação do gênero. Mesmo que não tenha uma política clara neste sentido, a Globo tem apoiado produções nitidamente destinadas a dar um novo impulso à indústria.

"Cordel Encantado" (2011), "Avenida Brasil" e "Cheias de Charme", ambas em 2012, apresentaram novidades interessantes e, em alguns aspectos, fixaram novos padrões. A primeira mostrou o potencial de uma história mágica filmada com técnicas de cinema. A segunda introduziu padrão de seriado americano em um novelão. E a terceira contou uma história infantil em ritmo de internet.

Não bastasse, os três folhetins chamaram a atenção pela qualidade dos textos, o cuidado com a produção e os elencos bem dirigidos.

"Avenida Brasil" e "Cheias de Charme", cada uma à sua maneira, conseguiram ainda retratar o fenômeno de mobilidade social vivido pelo país nos últimos anos.

Exibida logo depois de "Avenida Brasil", "Salve Jorge" passou a impressão de ser uma novela do século passado. Fiel ao estilo que a notabilizou a partir da década de 1990, Gloria Perez propôs, mais uma vez, o que a crítica Esther Hamburger chama de "novelas de intervenção" ""histórias calcadas em situações reais, destinadas a mobilizar a população e prestar serviços"" sem se dar conta de que isso já não é mais tão necessário nos dias de hoje.

Depois deste "desastre" há um clima de alívio no ar com a perspectiva de que "Amor à Vida" seja, ao menos, uma novela decente.

Walcyr Carrasco está imprimindo ritmo alucinante à trama, o que mostra sensibilidade às demandas do espectador atual. Também tem recorrido a diferentes "golpes baixos" (vilão gay, discurso contra aborto, participação especial de Neymar), mas parece-me não ter nada de novo a dizer. Seu objetivo, dá a entender, é apenas o de recuperar a audiência perdida por "Salve Jorge".


mauriciostycer@uol.com.br
JOSÉ SIMÃO

Disparada Gay! Cadê o Feliciano!

Acho hilárias aquelas bichas evangélicas que viraram homens. Viraram héteras. Héteras de Jesus! Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Hoje é Corpus Alegres! Parada Gay! Ops, Disparada Gay. Porque gay não tem parada nem pra tirar foto 3x4!

E este ano vai ser: Viva Daniela Mercury! Fora Feliciano! A Daniela arrombou o armário e jogou do décimo andar. E Feliciano? O pastor da chapinha? O Feliciano vai pra Parada Gay fantasiado de armário!

Já imaginou o Feliciano de chapinha, em cima dum trio elétrico, fantasiado de armário? E depois esticar a noite assistindo a um show da Preta Gil na The Week! Bolsonaro não vai porque foi pescar com o Ricky Martin e o Elton John! Todo pitbull é uma Lassie enrustida!

E um cara postou no Twitter: "Na física, Lei de Newton. Na lógica, Lei de Murphy. E na Parada Gay, Lady Gaga". A Lei da Lady Gaga.

Treze quilômetros de biba. A maior minoria do planeta.

E eu conheço uma rua perfeita pra estacionar pra Parada Gay. Aquela rua atrás do Masp: Professor PICAROLA! Como diz aquela biba: "Gostei dos dois!". Rarará.

E sabe como se chama Parada Gay em Portugal? Portugays! E acho hilárias aquelas bichas evangélicas que viraram homens. Viraram héteras. Héteras de Jesus!

E aquele ex-gay pastor e deputado baiano pelo PSB revela: "Não posso ficar perto de homem, a carne é fraca". Então, não é ex-gay. A cura saiu pela culatra. Rarará!
E a maior biba do mundo foi Santos Dumont. Que adorava voar! Rarará!

E com toda essa confusão, a Caixa devia gravar outro comercial: "O Dudu tá lendo errado". Rarará! E tô adorando o Aécio contando piadas no intervalo da novela. Concorrência com o Ary Toledo!

E o site "Sensacionalista" revela a estratégia do Barcelona pro segundo semestre: o Neymar cava o pênalti e o Messi bate! Rarará. É mole? É mole mas sobe!

E eu tenho uma amiga tão carente que se apaixonou pelo telemarketing! "Você é muito importante para nós." Aí, ela acreditou, chorou e se apaixonou!

E o Daniel continua se esgoelando na abertura da novela: "Grita! Grita! Grita!". E mais um predestinado. Um guarda municipal em Curitiba chamado Guardiano! Rarará!

Nóis sofre mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!


simao@uol.com.br
DANUZA LEÃO

Terra em transe

De onde tinham vindo, será que eram da mesma festa? Ninguém sabia, e garanto que ninguém tinha bebido

Para quem não sabe: Millôr Fernandes disse uma vez a um amigo que quando morresse não queria homenagens, mas gostaria muito de ter um banquinho com seu nome no Arpoador, para que os namorados sentassem e vissem o por do sol. Na tarde cinzenta da última segunda-feira, o banquinho de Millôr foi inaugurado oficialmente. Banquinho, em termos: projetado por Jaime Lerner e com o perfil de Millôr desenhado por Chico Caruso, virou um superbanquinho.

Os amigos foram chegando aos poucos e se acomodando debaixo de uma grande tenda, onde cariocamente eram servidos os carioquíssimos mate, água de coco e biscoitos Globo. Como o Rio é muito animado, uma musiquinha animava a festa, tocando única e exclusivamente bossa nova.

O elenco era de primeiríssima: o que havia de mais mais em cada setor, nos quesitos jornalismo, arquitetura, poesia, artes plásticas, design, música, boemia, mundo teatral e televisivo, mundo jurídico etc. etc.; e mulheres, muitas mulheres, como Millôr gostava. Ele era dos poucos homens que tinha amigas, amigas mesmo --e apenas amigas.

Houve um momento em que olhei em volta distraidamente e vi, em cima de uma pedra, um homem exercendo seu duro ofício de estátua viva; nesse dia ele era um verdadeiro pirata, com colares, brinco em uma orelha só, botas, lenço na cabeça. Perfeito, ele não se moveu durante todo o tempo do evento, com o qual, aliás, não tinha nada a ver. Muito curiosa sua presença.

Apesar da ausência do homenageado --por força das circunstâncias--, estavam todos alegres, lembrando, contando histórias. E mais gente chegando, mais gente chegando. Eis que, por detrás das pedras do Arpoador, por detrás do pirata, aparece um casal de noivos, ela vestida da maneira mais tradicional: branco longo, véu e grinalda. Foi um toque quase surrealista, assim do nada. Já estava escurecendo, e eis que do mar começam a surgir homens lindos, que pareciam saídos de grutas no fundo dos oceanos; em relação com a realidade, apenas as pranchas de surfe. Detalhe: foi naquele mar que foram jogadas as cinzas de Millôr.

Mas melhor ainda foi quando se juntaram a esses homens oito ou dez mulatas deslumbrantes, todas vestidas --despidas, aliás-- como destaques de escola de samba, cada uma com o biquíni de uma cor, penas na cabeça, e de repente começaram a dançar, na areia, com os homens saídos do mar. De onde tinham vindo, será que eram da mesma festa? Ninguém sabia, e garanto que ninguém tinha bebido, foi tudo verdade.

Mas nossa festa era outra, e eis que Fernanda Montenegro, convidada a ler um texto do próprio Millôr, foi chamada pelo título "a grande dama do teatro brasileiro". Ela deu uma risada marota --pela originalidade, talvez; grande Fernanda.

Depois dela falou Helio, irmão de Millôr, com seus juvenis 92 anos, e, como não podia deixar de ser, as "otoridades": o sub prefeito da zona sul da cidade, o responsável pela preservação dos monumentos e, como não podia deixar de ser, os agradecimentos de praxe às firmas que colaboraram com o cimento, a tinta e não sei mais o quê para que o banquinho virasse uma realidade etc. e tal.

O mais incrível de tudo: todos viram tudo que eu vi e estou contando, e ninguém nem falou sobre o assunto, achando tudo absolutamente normal, grande Rio de Janeiro.

Cena de Fellini? Melhor ainda: de Glauber. Só faltou mesmo Paulo Autran, para que se visse, ao vivo e em cores, uma nova versão de "Terra em Transe" 2013.


Uma tarde absolutamente inesquecível.
ELIANE CANTANHÊDE

Murro em ponta de faca

BRASÍLIA - Poderia até ser engraçado, mas é apenas um dado de análise: a situação política de Eduardo Campos, governador de Pernambuco, tem lá suas semelhanças com a de Getúlio Vargas, então governador do Rio Grande do Sul, em 1929.

Ambos governadores. Ambos aliados ao governo federal, Campos ao de Dilma, Getúlio ao de Washington Luís. Ambos candidatos à Presidência da República à revelia dos palácios (Planalto hoje, Catete antes). Ambos numa luta infernal para atrair apoios e evitar que potenciais aliados escorreguem pelos dedos.

A campanha de Eduardo Campos repete até a montanha-russa das emoções da de Getúlio, na base do "cada dia sua agonia". Ora avança firmemente, ora recua estrategicamente. Ora parece arregimentar apoios inusitados, ora perde apoios considerados óbvios, naturais.

Ao longo do processo, é claro que o humor vai e volta, o coração dispara, as surpresas se acumulam e a dúvida persegue a candidatura do início ao fim: seria Getúlio realmente candidato? Irá Eduardo Campos subir mesmo nos palanques?

A primeira providência de Campos, como fez Getúlio, é tentar cimentar uma aliança sólida no próprio Estado. Até por isso seu vice troca o PDT pelo PSB e o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB) engoliu em seco, superando velhas divergências para apoiá-lo em 2014.

A segunda providência é se tornar a opção do próprio partido e a terceira é extrapolar alianças e apoios para além de Pernambuco. Mas nada disso é fácil. Getúlio viu os presidentes estaduais (ou governadores) pularem no barco governista, um a um, sem ter meios para impedir. Chegou ao final com o RS, Paraíba e Minas -- que, aliás, não entregou a mercadoria, ou seja, os votos.


Hoje, dos seis governadores do PSB (incluindo Campos), pelo menos três são a favor da reeleição da presidente Dilma. E, se nem os do PSB vêm com ele, por que outros viriam? Só se a economia empurrar.

sábado, 1 de junho de 2013


02 de junho de 2013 | N° 17451
MARTHA MEDEIROS

A secretária e a patroa

Estreou semana passada o filme francês A Datilógrafa, que ainda não vi e possivelmente não verei em função do meu pouco tempo livre. Minha patroa anda cada vez mais ocupada, e quem segura o rojão sou eu, claro.

Mas seria ótimo assistir a um filme onde, finalmente, sou protagonista. Pelo que ouvi dizer, a história se passa em 1958, quando as mulheres estavam começando a colocar as manguinhas de fora. Uma garota de 21 anos recebe de presente uma máquina de escrever e resolve aventurar-se no excitante mercado de trabalho, esforçando-se para ser uma boa secretária, que era a atividade adequada às moças daquela época.

Depois o filme parece que vira uma competição, e daí por diante não sei mais nada, mas o resumo inicial me fez lembrar de quando ganhei, aos 13 anos, uma Olivetti Lettera 32. Tirei-a do estojo com o maior cuidado e suspirei: estava ali o passaporte para a profissão que eu sempre havia sonhado exercer.

Fiz um curso de datilografia e passei a praticar todo dia. Comecei a escrever poemas só para exercitar os dedos no teclado, eu que até então me atrevera apenas aos diários escritos à mão. Vinha um verso, vinha outro, e eu ali, treinando, fazendo de conta que era poeta, até que tivesse idade suficiente para virar a secretária que eu desejava ser.

Num acesso de loucura, acabei mandando uns poemas para uma editora e, pra encurtar a história, publicaram um livro meu. Já trabalhava como redatora publicitária nessa época, porque tinha que ganhar algum dinheiro, mas lembro que, quando faltava uma secretária na agência, eu me oferecia para ficar no lugar dela. E tive meu dia de telefonista também.

O tempo passou e lancei outro livro, e mais outro, e depois da poesia veio a crônica, abandonei a propaganda, fui apresentada ao computador, comecei a escrever para vários jornais, meus textos passaram a ser adaptados para o teatro, iniciei na ficção e aí aconteceu: virei secretária de mim mesma.

Hoje, realizada, passo 80% do dia atendendo ligações, respondendo toneladas de e-mails, avaliando contratos, agendando entrevistas, negociando prazos de entrega, indo ao cartório para reconhecer firma, ao correio para remeter livros, ao súper para fazer as compras da casa, negociando cachês com revistas, trocando mensagens com a contadora, marcando sessões de fotos, providenciando vouchers de hotéis e passagens aéreas para os compromissos fora do Estado, autorizando publicações de textos em livros didáticos, avaliando novas propostas de trabalho e me desculpando em nome da minha patroa por ela não conseguir atender todos os pedidos de leitura de blogs.


Não sei o que seria dela se não contasse comigo para esse serviço de secretariado, se bem que hoje a madame abusou: me botou para escrever sua coluna. Espero que não acostume, só me falta ter que assumir os seus 20% restantes de tempo.

02 de junho de 2013 | N° 17451
CLAUDIA TAJES

Na cama com a insônia

Foi matéria nos jornais: estamos dormindo menos e mal. O celular, sempre à mão para olhar os e-mails e o Facebook entre uma virada e outra na cama, é uma das razões para isso. O barulho da rua, coisas por fazer e a cabeça que não desliga quando a luz apaga, situação típica dos quadros de estresse, são outros dos motivos. Parece que o brasileiro dorme hoje uma hora a menos do que há 40 anos.

E que a média nacional é de seis horas e meia por noite, bem distante das ideais oito horas de descanso das modelos para ter a pele fresca e a aparência louçã. Os homens são os mais afetados pela falta de sono. E a falta de sono causa vários tipos de mazelas, como alterações na memória e no humor, interferências no metabolismo, propensão a diabetes e impotência. Não se espante, pois, se a sua senhora aparecer com um chazinho de camomila todas as noites. O seu sono também é do interesse dela.

Na literatura, a insônia já deu assunto para muita história boa. Existem insones em obras de Proust, Tchekcov, Borges, Dostoievski e muitos mais autores que ou não lembro, ou não li. A insônia confere dignidade a um personagem. Já eu durmo tão fácil que chega a ser constrangedor. Em situações de tristeza extrema, de pindaíba absoluta, de solidão completa, de desilusões variadas, de hecatombe no trabalho, de desavenças familiares, mesmo assim eu durmo.

Pode passar a errônea impressão de que não sei sofrer, mas juro que sei. A questão é que durmo fácil. Em compensação, a maioria das pessoas das minhas relações frita na cama todas as noites. Sem remédio, muitas preferem nem deitar. Conheci um rapaz que não dormia há quatro anos. Era o que ele dizia. Faz tempo que não o vejo. Espero que tenha conseguido pregar os olhos ou que, pelo menos, vire personagem de livro. Nem que seja o Guinness Book.

Para quem não consegue dormir de noite, existe o recurso dos pequenos sonos reparadores. A sesta na cadeira do escritório ou sob a mesa de trabalho é um deles. Quando meu filho era bebê, desenvolvi o método de dormir de pé durante o minuto em que o leite da mamadeira esquentava no micro-ondas. Era reconfortante e eu até sonhava. O cansaço de uma mãe recente deveria ser sintetizado por um laboratório e receitado aos insones.

Derruba qualquer um. Sobre sonos de emergência, li certa vez que, após algumas horas em uma festa, a atriz Tônia Carrero ia ao banheiro e tirava uma soneca de 20 minutos. Depois disso, ficava pronta para varar a madrugada dançando. O único senão é que, se o cochilo passasse dos 20 minutos, a Tônia emendava a noite dormindo. Imagino o susto da moça da limpeza ao abrir a porta e encontrar uma diva roncando na privada.

Quem também nunca dorme são os adolescentes, não por insônia, mas porque não concordam que a noite foi feita para descansar. Diferente das manhãs de aula, o horário preferido deles para dormir. O esforço de uma mãe para tirar um adolescente da cama deveria ser sintetizado por um laboratório e receitado aos fracos. Não há nada, mas nada mesmo, que exija mais força, superação e determinação de alguém.

Elena reconta a história de Elena Andrade, atriz em início de carreira que se suicidou aos 20 anos, quando sua irmã e diretora do documentário, a Petra Costa, tinha apenas sete. Aos 29, Petra narra o filme como se fosse uma carta para a irmã.


Elena deixa uma impressão tão forte que o cineasta Jorge Furtado, em debate com a Petra e com o escritor Peninha Bueno, perguntou o que a guria vai fazer agora que já realizou um filmaço como este. O bate-papo está disponível em podcast na radioeletrica.com. E para ver o trailer e mais informações. Depois é pensar em Elena até dormindo.

02 de junho de 2013 | N° 17451
PAULO SANT’ANA

Papa pecador

O Jornal Nacional da última quarta-feira noticiou em manchete inicial que o papa Francisco, perante milhares de fiéis na Praça de São Pedro, confessou em discurso que é ou já foi pecador.

Não achei tão bombástica assim a afirmação do Papa. Talvez porque eu não tenha muita confiança na santidade que atribuem ao Papa.

Se o próprio Jesus Cristo nos faz intuir em várias passagens bíblicas que se recolhia às orações para evitar as tentações, por que o Papa estaria livre delas?

Diga-se a esse respeito que, no episódio da expulsão dos vendilhões do templo por Jesus Cristo, ele usou um chicote para vergastá-los ou pelo menos ameaçá-los. No meu entender, naquele episódio, Cristo pecou pela prepotência. Se usasse de palavras mansas e argumentos persuasivos, poderia ter tido também sucesso na expulsão dos mercadores da religião.

Eu concluo que até os santos pecam, principalmente nos pecados da carne. Eles não são bruxos para escapar...

Tanto que Santo Agostinho, um dos pilares doutrinários da Igreja Católica, pedia a Deus em oração que não o livrasse dos desejos carnais, pelo menos enquanto ainda lhe restasse alguma juventude.

Talvez só São Francisco de Assis não tenha pecado. Emana da sua história uma santidade tão doce e pura, que o torna na nossa lembrança um santo incorruptível.

O papa Francisco não citou qual ou quais pecados comete ou cometeu. Mas eu imagino que sejam pecados relativos não a ações suas, mas a pensamentos.

É muito difícil para qualquer mortal e até mesmo para os santos deixar de ter pensamentos pecaminosos. De repente, a ideia não consegue evitar pensamentos voluptuosos, por exemplo.

Ou, de repente, pode passar pela cabeça de um santo, mesmo que rapidamente, sem consequência fática, a ideia de castigar corporalmente alguém que tenha errado. Isso é um pecado.

Ou será que não pode conter pecado qualquer pensamento, a julgar pelo ensinamento do Direito Penal de que “o pensamento não delínque”?

Além disso tudo, pecar não significa que isso possa acarretar punição definitiva ou cabal ao pecador.

Está aí o ensinamento religioso insistente de que o perdão é um dos mais frequentes atos e faculdades divinas na resposta aos pecados humanos, tanto que Deus e a Virgem Maria são chamados frequentemente nas orações humanas e clericais como “misericordiosos”.

Um samba brasileiro célebre, falando de amor, cita um verso extraordinário: “Perdão foi feito pra gente pedir”. Isso não quer dizer absolutamente que se pode pecar livremente porque em seguida o perdão será obrigatório.

Só quer dizer, no entanto, que o perdão deve ser concedido compulsoriamente quando o fiel se arrepende do erro ou pecado cometido. O arrependimento, este sim, é componente essencial ao perdão.


Seria um equívoco imperdoável que se concluísse que Deus perdoa a quem não se arrepende do pecado cometido. Até mesmo porque não se arrepender de um pecado cometido é, em última análise, cometer pela segunda vez o mesmo pecado.

02 de junho de 2013 | N° 17451
VERISSIMO

O povo das coberturas

Vai-se para uma cobertura atrás de um quintal

Amigo nosso, que acabei de inventar, mudou-se de um apartamento no quarto andar para um apartamento de cobertura. E nos contou que descobriu outra civilização: o povo das coberturas.

Começara investigando as coberturas próximas à sua, num raio que permitia o abano e a identificação fisionômica. Havia quatro à sua volta e ele estabeleceu contato com três. A quarta era de uma mulher de idade indefinível que molhava suas plantas de biquíni e desprezava os seus acenos matinais.

Todas as coberturas próximas tinham plantas, duas tinham pequenas piscinas. Uma tinha o que parecia ser uma coleção de esculturas eróticas. Ele está convencido de que, como um arqueólogo ao contrário, tropeçara numa civilização desconhecida no céu. O povo das coberturas é diferente. Ele só não sabe se é a diferença que o faz procurar as coberturas ou as coberturas que o torna diferente.

Ele encheu o terraço da sua cobertura com plantas, o que serviu para aproximá-lo da mulher de biquíni, com quem ele agora troca saudações entusiasmadas todas as manhãs. Agitam os braços, fazem grandes gestos de agradecimento ao sol e à chuva e desenvolveram uma sólida identificação comunitária pela mímica, de pomar a pomar.

Nosso amigo acredita que é a vegetação que faz a diferença entre o povo das coberturas e o dos outros andares. O povo das coberturas distancia-se o máximo possível do chão atrás de uma paradoxal compulsão agrícola. Em vez da fascinação milenar do jardim suspenso, o que ele tem, no fundo, é uma nostalgia da casa.

A cobertura é o térreo invertido e, portanto, uma espécie de exaltação do térreo. Ao contrário do que se pensa, vai-se para uma cobertura por humildade, pela mais rasteira das virtudes. Vai-se atrás de um quintal.

Nosso amigo conta que está à beira de uma revelação. Suspeita que todas as coberturas da cidade formam uma rede semafórica, uma silenciosa conspiração de sinais trocados acima da percepção comum e do controle das autoridades. Ele já captou luzes piscando numa cobertura e respondida da outra num código desconhecido. E acha que ainda não foi incluído na rede porque talvez duvidem das suas credenciais. Podem ter concluído, observando-o através de suas lunetas (todas as coberturas têm lunetas), que a dele é uma irreversível alma de quarto andar.


Ele tem passado as noites em claro, tentando decifrar o código e saber o que eles dizem. Não tem dúvida de que existe um intercâmbio clandestino entre os tetos da cidade e não descansará enquanto não descobrir o que combinam. Ou o incluírem no mistério.

02 de junho de 2013 | N° 17451
O CÓDIGO DAVID | DAVID COIMBRA

O MUNDO MARAVILHOSO DOS MOTORES

Deixei meu carro na oficina para revisão, outro dia. Quando fui buscá-lo, o encontrei lavado e encerado, rebrilhando como se fosse novo, e com o piso coberto por folhas de jornal.

Por que é que os mecânicos cobrem o piso do carro com folhas de jornal? Francamente. É para mostrar que ninguém mais entrou no carro depois da lavagem? Que o carro está imaculado como uma bandeirante? Ou para impedir que eu o conspurque com o solado imundo das minhas botas?

Até já tentei dirigir com aquele jornal ali, mas não dá – o jornal começa a dançar de um lado para outro e logo se amassa e o pé, que deveria estar firme no pedal, fica solto. Pode até causar acidentes, sei lá.

Tenho ganas de tirar o jornal, quando recebo o carro depois da revisão ou da limpeza, mas penso que o mecânico teve tanto cuidado, tanta atenção de colocar as folhas lá. É falta de consideração minha simplesmente desprezar o jornal que ele se deu o trabalho de esticar no piso, o mecânico de joelhos no meu carro, encaixando o jornal sob o painel e pensando: “Ele vai adorar! Está tão limpinho...” E eu chego e dou de ombros: “Não quero esse jornal. Não quero!”

Não, não posso fazer isso. Não posso ser tão grosseiro. Então, saio com o jornal no piso, agradecendo aos sorrisos tantos, e, quando deparo com a primeira lixeira, amasso-o e jogo fora, torcendo para que ninguém conte ao mecânico. Mecânicos podem ser muito suscetíveis.

A oficina imaculada

Por algum motivo, desconfio desses mecânicos modernos, que usam luvas e avental branco e trabalham em oficinas assépticas, que parecem spas. Onde é que estão a graxa e o óleo, que são o sangue e a linfa do motor? Suponho que, no fundo daquelas oficinas tão limpas, em algum lugar escuso e escuro, mecânicos de verdade estejam se refocilando nas excrescências dos carros. São eles que entendem, eles que fazem o trabalho duro e, literalmente, sujo. Eles!

Mas são anônimos, ninguém os vê. Depois de passar horas lidando entre bielas e amortecedores, eles, suados e esbaforidos, entregam o carro pronto a um funcionário de avental branco e luvas. Este pega a chave entre o indicador e o polegar e faz o carro deslizar até a parte da frente da oficina, o saguão luminoso que é proibido para os verdadeiros mecânicos. Então, o funcionário abre as portas, chama um estafeta, que acode com o jornal do dia anterior debaixo do braço. A um estalar de dedos do funcionário, o estafeta se ajoelha ante a porta aberta do carro. E espalha as folhas de jornal pelo piso.

Conversas de motorista

Aqui vai uma confissão: adoro ter conversas de motorista, mesmo não entendendo nada de carros. Alguém me disse que eles não têm mais carburador. É verdade? O carburador me parecia tão importante. Não sei se quero andar em carros sem carburador.

De qualquer forma, sinto-me muito bem quando converso sobre motores e marcas com algum taxista, por exemplo. Sinto-me mais Homem, entende? Nós estamos ali, falando de injeções eletrônicas e tudo mais. Algo másculo. Algo que têm a ver conosco, os machos da espécie. As mulheres nos ouvem e ficam entediadas e pensam que seus cabelos estão com pontas duplas. Elas e seu mundinho. Deixem-nos com a graxa e o óleo, o sangue e a linfa do motor, os fluidos que movem o planeta!

Afinal, o que é uma Azera?

Sou um motorista temporão. Fui aprender a guiar auto, como diz o Olívio Dutra, depois dos 40 anos de idade. Na verdade, nunca me interessei muito por carros. Meu filho de cinco anos conhece mais marcas do que eu, eu me atrapalho as marcas novas, só consigo identificar, mesmo, Fusca, Opala, Brasília, Corcel e Kombi, os velhos clássicos, além dos difamados DKW e Gordini.

As marcas atuais me fascinam e, ao mesmo tempo, me confundem. Como eles têm criatividade para inventar marca de carro! De onde tiram esses nomes? O que é um Duster? E um Cerato?

Mahindra talvez seja indiano, possivelmente o nome de uma deusa, os indianos cultuam 10 mil deuses.

Astra decerto que é algo celeste.

E o Ka será que foi inspirado no Livro dos Mortos do Antigo Egito, que cita o Ka como a alma imortal? Será que o nome desse carro vulgar submerge tão fundo na História e na Cultura humanas?

Quanto ao Corsa, já pensei que fosse a fêmea do corço, o veado, mas esse animal leva cedilha, além de chifres e má fama. Poderia ser uma mulher nascida na Córsega, a ilha de onde Napoleão saiu para conquistar a Europa, mas aí não seria “O” Corsa, seria “A” Corsa. Que mistério.

Doblô tem um som francês, mas a grafia decepcionantemente nacional. Parece o Cebolinha falando. Mégane é francês certo. Sandero, Fiorina, Camaro e Livina, obviamente italianos. Bongo, claro, é africano. Mas de onde virá um Camry, um Versa e um Tiida? O que será uma Azera? E Wrangler não é um jogador do Grêmio?


São maravilhosos os nomes dos carros do novo século.
RUTH DE AQUINO

Não enlouqueça com os preços

O consumidor não gosta de se sentir otário. Está na hora de boicotar quem mete a mão no nosso bolso. Quando o brasileiro médio começa a viajar ao exterior para fazer compras sem se sentir roubado, é porque nossa economia desandou. Felizmente, ainda não perdemos a referência de preços, como nossos hermanos na Argentina, onde os índices são todos maquiados, e a presidente Cristina Kirchner restringe o direito de ir e vir do cidadão. Mas tudo fica mais caro de um dia para outro – de alimentos a serviços e passagens. E bem acima dos salários.

Fiz um teste com uma lista de supermercado. Grãos, legumes, frutas, carnes, peixe, legumes, verduras, laticínios, produtos de limpeza. Mínima quantidade de cada mercadoria. No mercado Zona Sul do Leblon, paguei R$ 452. No mercado Mundial, da Barra da Tijuca, R$ 345. Mesmas marcas, mesmos pesos. E uma diferença de 30% no preço total. Só 12 quilômetros separam os dois estabelecimentos. Pesquise sempre em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é atestado de loucura.

Muitos bares e botequins do Rio de Janeiro e de São Paulo aprenderam a lucrar o máximo, tirando proveito da crise real e psicológica. Reduzem as porções – e o tamanho dos salgados – e cobram R$ 5 a unidade. Em botecos cariocas recomendados por guias, como Jobi ou Chico e Alaíde, os croquetes e bolinhos de aipim ficaram raquíticos, viraram umas bolinhas. E mais caros. Parece que R$ 5 passou a ser o valor mínimo de qualquer coisa. É quanto os quiosques da praia cobram por uma água de coco que pode acabar em três goles. Absurdo!

O quiosque Palaphita Kitch, com bela vista na Lagoa Rodrigo de Freitas, se define como uma “experiência mística”, onde você “entra um e sai outro” – bem mais pobre e revoltado com os preços e o serviço. Uma caipirinha de cachaça “especial” custava ali R$ 26 até pouco tempo atrás! Em Búzios, na costa norte do Rio, um picolé na Praia de Geribá chega a custar R$ 13. Não, obrigada. Vou direto ao fornecedor para satisfazer o desejo por sorvetes.

Jovens resolveram contra-atacar a carestia desenfreada lançando sites úteis. O www.riomaisbarato.com.br dá dicas de opções culturais gratuitas e lugares para comer e beber que não provoquem indigestão na hora da conta. Em São Paulo, quatro amigos criaram o www.boicotasp.com.br para alertar sobre as armadilhas. Os usuários denunciam o grau de exploração do lugar, de 0 a 5, e podem publicar foto do que consumiram com o preço ao lado.

Pesquise sempre, em qualquer cidade. Rasgar dinheiro é um atestado de loucura 

A remarcação abusiva de preços é um duplo tiro no pé. Primeiro, afasta o cliente. O consumo das famílias brasileiras caiu drasticamente no primeiro trimestre de 2013. Todos pensam duas vezes antes de comprar. A inadimplência aumentou. Uma pesquisa da Fecomércio do Rio em nove regiões metropolitanas mostrou que os brasileiros passaram a parcelar compras de alimentos com cartão de crédito. É a primeira vez que isso acontece nos últimos sete anos.

Não somos o povo mais culto do mundo. Mas a classe média não é desinformada. Os gastos de turistas brasileiros no exterior se multiplicam. Nos Estados Unidos, o que gastamos em compras só perde para japoneses e britânicos. Em Paris, as ruas estão coalhadas de conterrâneos. Não é só porque o poder aquisitivo da classe média aumentou no Brasil. É porque nosso país está caro demais, impraticável. Gasolina, transporte, restaurante, shows.

Uma tendência atual é viajar para Nova York ou Miami para fazer o enxoval do bebê. Compra-se pela metade do preço, ou um quinto do preço às vezes, uma mercadoria de mais qualidade que a oferecida no Brasil.

Nosso país e o governo Dilma não fazem o menor esforço para estimular o turismo e o consumo domésticos, com preços competitivos. Não temos ferrovias, e as passagens de avião são um escândalo no Brasil. Na Europa, há promoções incríveis com hospedagem. Barato para o padrão nacional.

No bairro de Saint-Germain, em Paris, é possível comer direito em restaurante chinês, japonês ou francês por 8 euros (entrada, prato e sobremesa). Restaurantes sofisticados oferecem menus de almoço em conta, numa relação custo-benefício inexistente no Brasil.

E os vinhos? Um chileno de média para baixa qualidade custa, no Brasil, o mesmo que um bom Bordeaux em Paris. Nos Estados Unidos, compra-se um Mouton Cadet por menos de US$ 10. Resultado: turistas brasileiros têm comprado lá fora caixas de vinho.

O vilão são os impostos, as taxas? Está na hora de adequar tudo aos salários. O consumidor não é masoquista. Ninguém está disposto a enlouquecer com os preços. Esperamos que Dilma não imite a viúva Kirchner. A Argentina pune as vítimas de sua política econômica e não os malfeitores. Podemos fazer melhor.



01 de junho de 2013 | N° 17450
PAULO SANT’ANA

A Ilha da Magia

Só em saber que vou passar este fim de semana em Florianópolis, encho-me de contentamento.

Eu cometi um crime contra mim mesmo quando decidi ter passado minhas folgas dos últimos oito anos seguidos em Punta del Este, deixando de lado Florianópolis, isso em se sabendo que nas praias do norte da capital catarinense as águas são cálidas, enquanto não existem águas mais frias que as de Punta, até parecem as da Patagônia.

Foi uma burrice minha, colossal. Olhem que Punta del Este tem uma paisagem deslumbrante, com a península cercada de um lado pelo Oceano Atlântico e do outro lado pelo Rio da Prata, que por vezes lá se mostra como o único rio azul do planeta.

Ainda assim, a paisagem de Florianópolis é mais encantadora. Olhem que Punta del Este tem alguns dos melhores restaurantes da América, salientando-se para mim o Lo de Tere, onde servem o nhoque mais macio da Terra.

Pois, ainda assim, os restaurantes e principalmente os quiosques de Florianópolis, entre os quais o espetacular Box 32 do Mercado Público, dão de 10 nas casas de pasto de Punta del Este.

Na verdade, a única vantagem de Punta del Este sobre Florianópolis – e foi isso que me arrastou para o Uruguai nos últimos oito anos – é que na capital catarinense não há cassinos.

Mas como os cassinos se constituem em uma desumanidade, a julgar pelos resultados que obtive neles nos últimos tempos, Florianópolis é inquestionavelmente mais humana que Punta.

Assim é que me entusiasmo porque vou passar este fim de semana em Florianópolis, a Ilha da Magia, como ela se intitula com justeza.

Além disso, terei a companhia de meu amigo Ricardo Stefanelli, meu guia pelas praias e restaurantes da ilha. Sempre é bom ouvi-lo em suas ideias brilhantes e disposto também a escutar as minhas ideias. Vai ser um fim de semana delicioso.

Tenho de achar um tempo para ir até o quiosque do Lobo do Mar, um pescador sempre cioso em contar suas belas histórias de aventuras marítimas, servindo um pastel de camarão ainda úmido do azeite, que dá água na boca.

E terei muito tempo, horas inteiras, para repousar meus olhos sobre as praias verdes ou azuis, dependendo da intensidade do sol que se derruba sobre elas.

E, apesar do feriadão, hei de topar com um trânsito civilizado. Florianópolis é a cidade mais parecida com o Rio de Janeiro que conheço, com a vantagem de ser menor do que a capital carioca.

Cantarei: “Liberdade, liberdade!/ estou na Ilha do Sol/ pois quem fica preso em casa/ é marisco ou caracol”. Mariscos e caracóis, por sinal, que, junto com ostras, são deliciosos em Florianópolis.

Isso tudo regado a uma cervejinha. Se tiver por lá cerveja uruguaia, melhor ainda. Mas se não tiver, a Brahma Extra me quebra o galho magistralmente. Isso tudo me será proporcionado a apenas 35 minutos de avião aqui de Porto Alegre.


A viagem de carro dura seis a sete horas, causa estafa. Mas, de avião, nunca vi tão perto o paraíso.

01 de junho de 2013 | N° 17450
CLÁUDIA LAITANO

O sermão do médico

A discussão sobre o aborto é uma gigantesca placa tectônica sobre a qual o Brasil repousa como se fosse esplêndido – e não instável e mal resolvido – o berço de alheamento em que estamos precariamente assentados.

Todos sabem que o problema está lá: uma legislação perversa que, na prática, oferece o olhar condescendente às mulheres com dinheiro e a dureza da lei para quem não tem. Os números gritam. Estima-se que no mundo todo são realizados 46 milhões de abortos por ano, 20 milhões de forma clandestina – em países como Haiti, Somália e Iraque, para citar apenas alguns dos que preferem proibir a discutir o problema. No Brasil, as estimativas chegam a 1,2 milhão de abortamentos/ano.

Ainda assim, fala-se muito pouco sobre o assunto por aqui. Políticos, em geral, não querem nem saber do debate – a não ser perto de eleição, quando candidatos ligados a grupos religiosos aproveitam-se da ocasião para pressionar adversários a se posicionar, o que, em vez de enriquecer a discussão, costuma rebaixá-la ainda mais.

Nós, brasileiros favoráveis à revisão da legislação sobre o aborto, estamos relativamente acostumados ao silêncio cínico, interrompido aqui e ali por vozes isoladas como a do médico Drauzio Varella (“Não há princípios morais ou filosóficos que justifiquem o sofrimento e morte de tantas meninas e mães de família de baixa renda no Brasil”), que trata o assunto como uma questão de saúde pública que não pode ser varrida para baixo do tapete. O resto é (quase sempre) silêncio.

E quando nada parecia pior do que ignorar o assunto, eis que a novela Amor à Vida (o título não era tão anódino quanto se imaginava, afinal) mostra que tratar o tema de forma rasa e moralista pode ser um desserviço maior ainda. Em capítulo exibido esta semana, o médico interpretado por Antonio Fagundes trai a ciência, o bom senso e o dever profissional aproveitando uma consulta para dar um banho de moral e pregação religiosa na pobre paciente que o procurou para pedir ajuda diante de uma gravidez indesejada.

É compreensível que um médico se recuse a realizar um procedimento ilegal. É compreensível que esse médico seja contra o aborto por convicções íntimas. O que não é admissível, nem na novela das oito, é um médico dar um sermão em uma paciente. Sem contraponto ou chance de debate, a posição contrária ao aborto foi jogada na cara do espectador. Como um tijolo.

Para quem acredita que é impossível falar sobre esse assunto na TV, o desmentido pode estar logo ali, alguns canais adiante. O Canal Viva está exibindo aos sábados, desde o início de maio, a reprise do seriado Malu Mulher, que, entre outros temas polêmicos ainda atuais, tratou o aborto de forma espantosamente aberta e sem preconceitos. Em 1979. Em pleno governo Figueiredo. No horário nobre da Globo.


O episódio Ainda Não É Hora, com a jovem Lucélia Santos contracenando com Regina Duarte, está disponível no DVD da série. Recomendo fortemente aos mais jovens, que não assistiram na época, e também aos mais velhos, que, como eu, mal conseguem acreditar que, em condições tão adversas, pudesse se produzir no Brasil algo tão lúcido e arejado quanto Malu Mulher.

01 de junho de 2013 | N° 17450
NILSON SOUZA

Impressões digitais

A historinha contada em forma de diálogo é tão engraçada quanto perturbadora. O homem telefona para encomendar uma pizza e descobre que a pizzaria foi comprada pelo Google.

A partir daí, é o atendente que comanda a conversa, antecipando a preferência do cliente, sugerindo o melhor alimento para a sua saúde, lembrando-o de que não está tomando o seu remédio regularmente e mostrando que sabe tudo sobre ele, pois possui um banco de dados com todos os seus gostos e hábitos. É tamanha a intromissão em sua vida, que lá pelas tantas o sujeito explode:

– Estou farto da internet, de computadores, do século 21, da falta de privacidade, dos bancos de dados e deste país...

E cancela o pedido, avisando que no dia seguinte mesmo vai viajar para bem longe, talvez para uma ilha desabitada na Oceania. Depois de um silêncio constrangedor, o atendente avisa:

– Seu passaporte está vencido.

O Grande Irmão, profetizado por George Orwell, venceu a parada. Programas de computador cada vez mais sofisticados mapeiam não apenas o perfil de consumo das pessoas, mas também detalhes inimagináveis de sua personalidade e de seu comportamento.

Cadastros são comercializados a preço de ouro. Lojas e bancos sabem quanto você ganha, se você é bom pagador, se gosta de comer sagu, se viaja sozinho ou acompanhado. Antigamente só o padre sabia isso, porque perguntava. E não contava para ninguém. Agora todos sabem e todos revelam.

Temos um pouco de culpa, certamente, pois vamos deixando impressões digitais por onde passamos. Mas as armadilhas são muitas e irresistíveis. Você ganha um brinde aqui, concorre a um prêmio ali, aproveita uma oferta de ocasião, recebe um cartão de fidelidade, mas em troca tem que informar seu CPF, o nome do seu avô, o gênero de literatura preferido, a geleia que consome no café da manhã.

Aí não pode se surpreender quando estiver percorrendo uma zona comercial da cidade e receber um alerta pelo celular: “Aquela centrífuga que você procura está em liquidação na loja da frente”. Isso, porém, é o de menos. O risco maior é o da discriminação: ao saber que você costuma pesquisar preços antes de comprar, o lojista deduz que seu poder aquisitivo é baixo e dificulta o seu crédito ou oferece produtos de segunda linha.

O homem ama e respeita o homem enquanto não consegue julgá-lo, escreveu certa vez Thomas Mann. Na era da informática, estamos sendo avaliados e julgados o tempo inteiro. E, para sermos amados e respeitados, talvez tenhamos mesmo que viajar para as ilhas Fiji.


Bom, pelo menos o meu passaporte está em dia.

01 de junho de 2013 | N° 17450
A CABEÇA É A ILHA

Nós, os que não somos como os outros

Nova edição do Dicionário de Saúde Mental da Associação Americana de Psiquiatria abre discussão sobre os critérios para separar doença e sanidade.

A utilidade de um dicionário é normatizar para esclarecer dúvidas, mas por vezes uma publicação do gênero provoca questionamentos mais sérios e mais preocupados do que respostas. Ainda mais se o dicionário em questão lida com um tema tão delicado e espinhoso quanto o próprio limite entre sanidade e distúrbio.

Com a divulgação, em maio, da quinta edição do Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (Manual Estatístico e Diagnóstico de Distúrbios Mentais, em tradução livre), ou DSM-5, como vem sendo chamado pelos especialistas, abriu uma nova e acalorada discussão sobre o quanto o objetivo, necessário, de graduar de modo científico os sintomas de doenças mentais não está criando a sociedade da hiperdiagnose, em que a normalidade é conceito cada vez mais rarefeito.

– Classificações como essa são importantes, são válidas para unificar a linguagem e melhorar a comunicação entre profissionais, mas um dos problemas desse tipo de classificação é a criação de diagnósticos excessivos, que não levam em conta a subjetividade – comenta o psiquiatra e psicanalista Celso Gutfreind.

A polêmica teve início com a divulgação das principais alterações na quinta edição do DSM. A publicação é elaborada pela American Psychiatric Association (APA, Associação Americana de Pisquiatria), e é um dos mais conhecidos e utilizados manuais diagnósticos do mundo.

É um dicionário no qual se encontram os critérios para que determinado comportamento seja classificado como transtorno ou distúrbio mental e, assim, tratado de acordo com o entendimento do médico, o que pode (embora não necessariamente deva) incluir a administração de medicamentos.

– Ainda há uma grande discussão a respeito das mudanças desta nova edição aqui nos Estados Unidos. Alguns especialistas manifestaram discordância dessa abordagem mais biológica de diagnóstico – comenta o psiquiatra Rodrigo Machado-Vieira, residente em Maryland, nos Estados Unidos, e diretor do Centro de Pesquisa Translacional em Transtornos de Humor do Instituto Nacional de Saúde Mental, nos EUA.

Um dos mais acirrados críticos da quinta edição do manual, ironicamente, é o homem que ajudou a elaborar a edição anterior do documento, o psiquiatra Allen Frances, professor emérito da Universidade Duke. Em posts que vem publicando com regularidade em seu blog no portal Huffington Post (www.huffingtonpost.com/allen-frances), ele vem apontando o que considera erros conceituais e técnicos nos critérios adotados pelo dicionário. De acordo com ele, o novo manual é composto de “uma mistura irresponsável de novos diagnósticos que podem estigmatizar e submeter pessoas normais a tratamentos desnecessários”:

“A publicação do DSM-5 é um momento triste para a psiquiatria e perigoso para os pacientes. Minha recomendação para os clínicos é simples. Não usem o DSM-5”, escreveu Frances.

– Minha opinião sobre o DSM parafraseia a de Winston Churchill, que dizia que a democracia era o pior sistema de governo, com exceção de todos os outros. O DSM está longe de ser perfeito, mas é a melhor ferramenta que se tem em diagnósticos de psiquiatria – pondera Machado-Vieira.

A discussão a respeito de um manual de saúde mental publicado por uma associação de profissionais dos Estados Unidos não é, como se poderia pensar à primeira vista, distante da realidade brasileira – até porque o dicionário tem uma influência que se alastra para além das fronteiras americanas e que pode ser verificada mesmo no Brasil (leia o texto na página ao lado).

As críticas ao DSM também não são coisa recente ou restrita especificamente a esta quinta edição. Já a versão anterior havia sido alvo de polêmica por apresentar, com o rótulo de distúrbios, comportamentos que poderiam, com gradações, ser incluídos na estranheza nossa de cada um.

Não é coincidência que, desde os anos 1980, o número de diagnósticos de distúrbios mentais tenha se ampliado de tal forma que, de acordo com um estudo conduzido pelo Instituto Nacional de Saúde Mental no início dos anos 2000, 46% dos adultos pesquisados se encaixavam em alguma das categorias do DSM – e isso na quarta edição, antes das atuais modificações.

A nova encarnação do manual amplia a classificação de determinados distúrbios e modifica outros. Em um primeiro momento, chamaram a atenção as definições de distúrbios aplicados a manifestações extremas de birra infantil e apego a quinquilharias mesmo ciente de seu mínimo ou nenhum valor.

A própria idade de controle para o aparecimento de sintomas de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade em crianças, pela nova publicação, agora é de 12 anos. Em uma das mais criticadas medidas, o luto pela perda de um ente querido, se ultrapassar duas semanas, pode ser considerado um indício de depressão – embora o texto seja mais aberto neste caso, a medicação estaria indicada. Mesmo o luto, expressão tão individual de sentimentos, estaria sujeita a um controle de “normalidade”?

– Quando eu estudava Medicina, o tempo que se acreditava apropriado para um luto durava de três a seis meses. No tempo do capitalismo avançado, parece que o tempo é um bem cada vez mais restrito para as pessoas – comenta o psiquiatra e psicanalista Sergio Eduardo Nick, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

Nessa imbricação entre arte, criatividade e normalidade, reside também outro grande paradoxo da catalogação minuciosa de distúrbios em um mundo capitalista que exige, ao mesmo tempo, originalidade, criatividade e eficiência maquinal.

– Precisamos romper a identidade que há na sociedade contemporânea entre normalidade, eficácia e velocidade. Estamos lidando hoje, em vários níveis, com conceitos de maquinização do ser humano. O sujeito precisa estar pronto o mais rápido possível para produzir, para voltar ao trabalho. É uma espécie de psiquismo herdeiro da Revolução Industrial – comenta a psicanalista Diana Corso.

Como pano de fundo da discussão está também uma questão técnica debatida pelos profissionais: a suposta ação rápida de medicamentos versus terapias mais longas e com menos recursos químicos.

– No fundo, há uma guerra ideológica entre os profissionais da área sobre como ver o ser humano. O DSM é um manual orientado pela ideologia comportamental, que não dá tanta importância a fatores menos fáceis de aferir, como o ambiente, as emoções, os sentimentos do paciente – salienta Nick.

O fenômeno da chamada “terapia química” ganhou amplo espaço nos consultórios a partir da segunda metade dos anos 1980, quando novas e potentes drogas se mostraram eficientes para ajustar desequilíbrios químicos do organismo – o Prozac, em especial, foi a primeira droga do gênero a ganhar espaço não apenas nas salas de consultório, mas no imaginário público e mesmo na cultura pop.

No âmbito da cultura, a ampla aplicação da terapia medicamentosa provocou reflexões a respeito da diagnose excessiva ou da sedação coletiva. Em seu ensaio Receituário da Dor para Uso Pós-Moderno, o português João Barrento arrisca uma definição da sociedade contemporânea, para quem a dor e o sofrimento haviam sido transformadas em “fantasmas”, com efeitos nem sempre positivos para o conjunto da humanidade:

“No mundo das paixões que era o da tragédia antiga, a dor – tal como a beleza e a alegria, o canto e o Êxtase –, é matéria-prima da vida ritualizada. Depois, a vida foi-se dessacralizando, tornou-se mais confortável, mais baça... e mais longa. Ficamos mais sós. Sós, não porque nos faltassem os outros, muito pelo contrário. Ficamos sós porque fomos amputados de alguma coisa que era parte de nós. O homem civilizado olha para o mundo, o mundo está em estado de dor quase permanente, e em vez de responder com um lamento (...), fica em silêncio.”

Com atuação tanto como terapeuta quanto como artista, Gutfreind publicou, em seu mais recente livro, Em Defesa de Certa Desordem, um poema no qual critica a prevalência da farmacologia sobre a arte na sociedade contemporânea: “Afastem a Deusa química, / as mulheres têm a arte, a ciência não sustenta / a falta, a falta preenche, / música podem deixar / – Deusa houvesse, era ela –, / tirem certezas, substâncias / que a presença da palavra / com melodia cantada / pelo outro bastará”.

– No fundo, o ser humano tem medo do desconhecido e da dor. A dor é o que nos desestrutura, mas também é uma experiência que faz parte do que nos define, a nossa própria subjetividade. Ao acreditar que a resposta tem de ser sempre rápida, estamos perdendo a dimensão do tempo, de viver, de criar, de perder tempo – diz Gutfreind.

Associada à questão da nomenclatura cada vez mais ampla de comportamentos desviantes, há também a questão do próprio conceito de normalidade, que acaba cada vez mais restrito no momento em que exotismos e excentricidades se assemelham a gradações de distúrbios mentais.

– Todos temos sintomas de compulsão ou obsessão, coisas que nos tornam quem somos. É preciso cuidar para que isso não seja tomado como doença, o que seria desumanizador – diz Nick.


POR CARLOS ANDRÉ MOREIRA

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Jaime Cimenti

Direita, centro e esquerda, volver?

Esse negócio de esquerda, centro, direita, centro-direita, centro-esquerda, liberal de esquerda, tá difícil. Na real, nunca foi muito fácil. No tempo da Revolução Francesa, na Assembleia Nacional, a coisa era mais clara.

O cara sentava do lado esquerdo ou direito e estava pelada a coruja. Agora a coisa está complicada. Parece futebol e conversa de técnico: não há mais ponteiros avançados, os caras do centro andam para a frente, para trás, para esquerda e para a direita, os jogadores dos setores de esquerda e direita por vezes circulam pelo centro ou pelas áreas opostas do gramado e por aí vai.

Os times têm um projeto, estão em progresso permanente, não estão preocupados com as derrotas recentes e estão sempre buscando metas futuras e, quando necessário, dão a cara para o torcedor dar umas batidinhas. Jogamos bem, mas o adversário jogou melhor.

Perder, ganhar ou competir é relativo - como diria Einstein -, mas desde que com os pilas na conta no início, meio e fim do mês. É meio tipo assim na política. Tem uma mensagem brincalhona na internet que fala de direita e esquerda. Diz que os de direita são mais pragmáticos, não mudam tanto as coisas, resolvem por si os problemas e que os de esquerda gostam mais de mudanças e de se meter em tudo, ou quase tudo, até na vida dos outros.

Os políticos de hoje, espertos como sempre, fogem de definições e rótulos, dizem que gostam de ir pra frente, sem falar em direita ou esquerda. Ainda bem que no trânsito, nos mapas, nas bússolas e no GPS ainda temos algumas direções mais ou menos claras. Ao menos por enquanto. Pode alguém daqui a pouco dizer que tem o direito de transitar por onde bem entende, que não pode ter sua liberdade tolhida e tal, que pretende matar e morrer.

Alguém pode dizer que estas convenções, sinais e regras são de direita (ou de esquerda) e que precisam de alteração. Hoje em dia nunca se sabe. Antigamente também não se sabia, vá lá. Não há o que não haja, como diz o outro.

Tudo o que é sólido desmancha no ar, disse o professor aquele. Essa indefinição tipo assim pós-moderna esquerda-direita nos deixa muitas vezes à deriva. Coca-cola é esquerda ou direita? Há uns 40 anos perguntaram para o Lula se ele era comunista. “Sou metalúrgico”, ele respondeu.

Pois é, se me perguntarem se sou de direita, esquerda, centro, centro-esquerda, liberal de esquerda ou direita, volante, atacante, goleiro, ala ou comunista, vou responder que sou apenas um modesto cronista latino-americano, mas, modéstia à pqp, colorado, que as pessoas e o mundo têm de andar pra frente, acho.

Jaime Cimenti