quarta-feira, 27 de abril de 2016



27 de abril de 2016 | N° 18510 

DAVID COIMBRA

O tempero do bife

Esses dias fui a Vermont. Lugar lindíssimo, no alto das montanhas. Chega-se lá através de estradas lisas e desimpedidas, você roda durante quatro horas e parece que foi ali na esquina. E o pedágio é até engraçado: 1 dólar na ida, 1 dólar na volta.

Foi em Vermont que se estabeleceu a Família Trapp. Você provavelmente conhece a Família Trapp de tanto assistir ao filme A Noviça Rebelde, na Sessão da Tarde.

O patriarca da verdadeira Família Trapp, o barão Von Trapp, era austríaco. Consagrou-se como herói da I Guerra Mundial, conhecido como um invencível comandante de submarinos. Às vezes, antes de afundar um navio, Von Trapp subia ao tombadilho e, com um megafone, avisava à tripulação inimiga para correr aos botes salva-vidas. Por fim, dava instruções sobre como remar até a praia e, em seguida, disparava o torpedo.

Quando Hitler anexou a Áustria, porém, Von Trapp decidiu que preferia o exílio a lutar em nome daquele homem. Pegou os sete filhos e a babá que cuidava deles (sua mulher já havia morrido de escarlatina), cruzou a fronteira a pé e homiziou-se nos Estados Unidos. Escolheu Vermont porque a paisagem é parecida com a da Áustria. Construiu, com suas próprias mãos, uma grande casa da qual se vê todo o vale no entorno, teve mais três filhos com a babá, que é a tal noviça rebelde, e ficou famoso como o chefe da família cantora retratada no filme, que, você sabe, é estrelado por Julie Andrews no auge do frescor juvenil.

Hoje, a mansão dos Trapp foi transformada em um belo hotel, frequentado sobretudo por quem gosta de esquiar. Há várias pistas de esqui na região. Os Trapp ainda estão lá, ou o que resta deles, enterrado num pequeno cemitério familiar que foi plantado ao lado da casa.

Vermont seria, talvez, um Vale dos Vinhedos multiplicado por dez. Com uma diferença básica: no Vale dos Vinhedos a comida é muito melhor.

Esse é um grave defeito dos Estados Unidos. Os americanos não sabem cozinhar. Ah, você já veio aos Estados Unidos e comeu muito bem. Óbvio: este é um país continental, formado por gente do mundo inteiro, inclusive os melhores cozinheiros italianos, franceses, espanhóis, portugueses, alemães e brasileiros. Mas eles, os americanos, eles não conseguem. Ou eles exageram no molho, ou a comida sai insossa.

Falta-lhes mão, entende?

Mão é tudo.

Pegue, por exemplo, os 20 elementos químicos essenciais para a vida: carbono, oxigênio, hidrogênio etc. Se você os juntar em quantidades exatas, não conseguirá criar um ser vivo. O que lhe faltou?

Mão. No caso, a mão de Deus.

Assim é a comida. Você pode seguir a receita direitinho, e não vai sair tão bom. Por quê? Porque você não tem mão.

No Brasil, você chega a um boteco com balcão de fórmica e cadeira de plástico. Pede lá um completo. E o que vem é uma refeição perfeita como a Dieckmann, o feijão cremoso, o arroz soltinho, a batata frita enxuta, o contrafilé macio e, dominando tudo, a gema amarela do ovo reluzindo como um farol.

Quanto custa essa maravilha?

Dez reais. Hoje talvez 15.

Os americanos têm gênio para tantas coisas, eles mandam o homem à Lua, eles inventam a internet, o celular, o rock’n’roll e o blues, eles têm estradas escorreitas e recantos de paraíso, como Vermont, mas falta-lhes a centelha criativa para temperar um bom bife. É impossível ter tudo na vida.

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