sexta-feira, 20 de janeiro de 2012


Eliane Cantanhêde

Enquanto Inês é viva

BRASÍLIA - A delicada questão da entrada dos haitianos acendeu uma luz amarela no governo, que identificou 37 pontos (mais) vulneráveis nos cerca de 17 mil km de fronteiras terrestres e que treme só de pensar que a ponte entre o Amapá e a Guiana Francesa pode virar uma nova "Ponte da Amizade", que une o Brasil ao Paraguai.

Em nome da "amizade", os sucessivos governos brasileiros assistiram perplexos e praticamente inertes a uma escalada da ilegalidade e de um fluxo estimado hoje em quase 18 mil veículos por dia. Sem contar os barcos clandestinos que deslizam sob o beneplácito da polícia paraguaia.

Acontece de tudo um pouco ali: a locomotiva do contrabando puxa o trânsito de criminosos e de trabalhadores ilegais e o tráfico de pes-

soas, de drogas e de armas.

"Como fiscalizar? Parar um por um? Impossível", admite o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

A história tem tudo para se repetir agora ao Norte do país, principalmente com a crise na Europa, que tende a empurrar latino-americanos porta afora da Espanha e de Portugal, por exemplo. Infiltrado entre os que querem apenas sobreviver sempre cabe mais um: o bandido. Adivinha onde ele pode ir (ou vir) parar?

Como a Guiana é território da França, os voos entre os dois são domésticos, dispensando passaportes, vistos e os rigores de segurança das viagens internacionais. O trajeto se torna atraente como rota de migração e promissor como alternativa para o tráfico (de drogas, armas...).

Justiça e Defesa planejam aumentar a vigilância, o policiamento ostensivo e as operações de inteligência na área enquanto é tempo.

No caso da ponte com o Paraguai, ninguém preveniu, ninguém remediou e agora nem há mais como remediar. Milhares de famílias vivem disso e a diplomacia do "não-me-toques" entre vizinhos impede qualquer ação real. É fechar os olhos e deixar pra lá. Inês é morta.

elianec@uol.com.br

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