sexta-feira, 27 de janeiro de 2012



27 de janeiro de 2012 | N° 16960
EDITORIAIS


OS DESABAMENTOS NO RIO

No primeiro pronunciamento após os desabamentos de três prédios no centro do Rio, o prefeito Eduardo Paes preocupou-se em dizer que as causas da tragédia ainda deveriam ser investigadas sem pressa e sem atropelos. As questões técnicas envolvidas no acidente devem de fato ser esclarecidas, mas uma conclusão antecipa-se a qualquer detalhe ligado à engenharia.

O que já se sabe é que ocorreu no Rio mais um caso exemplar de negligência do setor público diante de evidências de irresponsabilidade. Indícios apurados no dia seguinte apontam que o primeiro prédio a desabar, levando outros dois junto, estava em obras conduzidas clandestinamente. Pelos relatos de pessoas que trabalhavam ou circulavam pelo edifício, sabe-se que há muito tempo ouviam-se estalos e outros sons característicos de um processo de degradação da estrutura do imóvel.

Como um prédio de 20 andares, no centro histórico da cidade, era submetido a reformas sem que a fiscalização flagrasse a irregularidade? Os desabamentos se somam a outros eventos trágicos que se repetem no Rio com preocupante frequência e denunciam quase sempre as omissões do setor público. As prefeituras ou o governo do Estado falharam ao não adotar medidas preventivas que evitassem a tragédia da enxurrada que matou mais de 200 pessoas no Morro do Bumba em Niterói, em abril de 2010.

Voltaram a falhar em janeiro de 2011, quando da morte de cerca de 900 pessoas nos deslizamentos de morros na serra fluminense. Em todas as tragédias, passando pelas explosões de bueiros na cidade do Rio de Janeiro, o que se expõe é a omissão de quem tem o dever da fiscalização e da prevenção.

Os maiores danos de traumas como esses são humanos, com a perda de vidas, sequelados ou famílias desabrigadas. Prejuízos materiais atingem somas milionárias. Mas há outros danos que abalam uma cidade e um Estado, quando, junto com os prédios, desaba também a imagem de cenários associados a dois eventos internacionais, a Olimpíada e a Copa do Mundo.

É desalentador que, depois do esforço para que o Rio seja a síntese da imagem do Brasil nos dois eventos, a percepção no Exterior passe a ser a de uma cidade e de um Estado relapsos em questões básicas de segurança. O que transparece, a cada acontecimento trágico, é que as autoridades buscam consolos, reafirmam compromissos, emocionam-se e, em pouco tempo, voltam a conduzir suas gestões como se nada tivesse ocorrido.

O trauma que o Rio enfrenta não pode, no entanto, apenas comover o resto do Brasil. Situa-ções de risco são mascaradas, em todo o país, e principalmente nas grandes cidades, pela ineficiência do monitoramento da condição de prédios antigos, naturalmente vulneráveis a desgastes.

É de se perguntar, em meio às tentativas de entender o que de fato determinou os desmoronamentos, o que prefeituras e governos de outros Estados têm feito para que a população não esteja sob a mesma ameaça do que ocorreu no centro do Rio. É uma interrogação inquietante, diante das suspeitas de que as omissões não são exclusividade de cariocas e fluminenses. É um momento oportuno para que se ofereçam respostas.

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