quarta-feira, 29 de maio de 2013


29 de maio de 2013 | N° 17447
MARTHA MEDEIROS

Diálogos banais na cena do crime

Com licença, seu moço, preciso passar com minhas compras.

– Pois não, senhora, desculpe estar ocupando a calçada, é que tenho algo a dizer aqui para o parceiro que está me filmando com o celular.

– Fique à vontade, mas o senhor está com as palmas das mãos muito vermelhas, reparou?

– Eu sei, eu sei, é que tive um probleminha ali do outro lado da rua.

– Ei, você está vendo um homem deitado no meio do asfalto? – Pois é, talvez tenha sido atropelado, não sei, você viu alguma coisa?

– Não vi, mas parece que aquela moça loira viu, e até gravou. – Então deixa eu seguir para o escritório que estou atrasado, depois eu confiro no YouTube.

– Você não gostaria de me entregar essa faca, rapaz? – Da polícia você não é, madame.

– Não sou, mas ela logo chegará. – Demorou.

Nunca vi essa rua tão animada. – É mesmo?

– Você não é aqui da vizinhança?

– Sou turista, parei para tirar umas fotos da performance. É uma performance, não é?

– Droga, meu celular está ficando sem bateria. – Use o meu. Quer fazer uma ligação?

– Gostaria apenas de filmar aqueles dois malucos ali com as mãos pingando sangue.

– E o cara deitado, sabe quem é? – Não, mas podemos tirar uma foto do rosto dele e colocar no Face pra ver se alguém identifica.

– Tá bom, tira a foto enquanto eu vou ali na esquina tentar alcançar um camarada que vi passar, ele está me devendo umas libras.

– Mãe, o que é que está acontecendo? – Um moço passou mal, filho. Vamos andando. – Acho que ele foi assassinado, mãe. Por aqueles dois batendo papo ali, ó.

– É, pode ser, filho. Você pegou seu caderno de matemática?

– Olho por olho, dente por dente, vocês matam meu povo, eu mato o de vocês.

– Faz sentido, faz sentido. Por favor, pode dar dois passinhos para a esquerda para eu enquadrar melhor?

– Aqui está bom?

– Está, agora deixe bem à vista a faca e o cutelo. Isso. Perfeito.

– Olha a polícia aí chegando. – Nossa, que estressados. – Alô. – Falo com a esposa do soldado Lee Rigby?


– Sim. – Boa tarde. É que aconteceu um inconveniente.

29 de maio de 2013 | N° 17447
ARTIGOS -Zilá Breitenbach*

O caos que não surpreende

Bem ao nosso lado, aqui em Viamão, há um vergonhoso símbolo da falência do sistema penitenciário brasileiro. No instituto penal localizado na cidade, o maior do regime semiaberto gaúcho, detentos foram flagrados fugindo tranquilamente por uma escada. Durante a madrugada, saíam para praticar assaltos e retornavam, ao fim da noite, com produtos roubados, mantimentos e drogas. Um vaivém que, naquelas horas da noite, nem mesmo quem está em liberdade consegue ter.

O episódio absurdo, mostrado recentemente em rede nacional no programa Fantástico, não chega a surpreender quem conhece a precariedade das nossas prisões. Essas casas passam longe de sua função social de readaptar o interno à vida em sociedade. Sem estrutura física e investimentos, são escolas do crime ou meras filiais do tráfico. Tanto é assim, que usam o local como uma espécie de base logística ou ponto de apoio.

Também não é motivo de espanto que esse fato tenha ocorrido justamente no Rio Grande do Sul. Afinal, o Estado abriga outro símbolo do fracasso da política penitenciária: o Presídio Central de Porto Alegre, denunciado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) em virtude das condições em que vivem os mais de 4 mil apenados. Superlotação, assistência médica inadequada, falta de higiene e de saneamento são alguns dos problemas crônicos da unidade.

Diante desse quadro, o aumento vertiginoso da criminalidade é uma crônica anunciada. Assassinatos, roubos e assaltos crescem na mesma proporção da impunidade – intensificada por penas brandas, lentidão da Justiça e carências estruturais. E as grades de ferro, que deveriam ficar restritas às celas, hoje estão na frente das residências de cidadãos desprotegidos. Deixam de representar segurança e passam a escancarar o medo ao qual somos submetidos.

Muitas das soluções viáveis à crise do sistema penitenciário são descartadas por implicância ideológica. O governo do Estado, a propósito, parece não ter qualquer intenção de dar sequência às parcerias público-privadas propostas pela gestão anterior. Bons resultados já estão sendo colhidos em Estados como Minas Gerais. Enquanto isso, o Rio Grande do Sul marca passo – e assiste, de braços cruzados, à situação piorar ainda mais.


*Deputada estadual, líder do PSDB na Assembleia Legislativa e coordenadora da Frente Parlamentar em Apoio às Vítimas da Violência

29 de maio de 2013 | N° 17447
EDUARDO VERAS

Aquém do horizonte

Há um poema de Rudyard Kipling em que o primeiro homem, depois de assistir ao primeiro pôr do sol, pega uma vara e risca uma linha no chão. Em seguida, o Diabo lhe chega por trás do ombro e comenta: “Ficou bonito, mas será que é arte?”. O assunto da anedota é o quanto a crítica se compraz em nos perturbar as certezas, mas nem por isso o poema deixa de contemplar o próprio tema da criação: o sol não está mais no horizonte; resta a linha.

Imagine agora essa linha sobre uma folha de papel, folha pequena, meio ofício. Imagine que a linha não é reta, feito a do poema, mas é como aquela dos skylines urbanos, acompanhando o ritmo dos edifícios.

Não precisa pensar em Noviorque, Porto Alegre já serve. Imagine agora que a linha define um único prédio, não um desses grandes e pretensiosos, que sua cidade tanto ama, mas um pequeno, já velho, três ou quatro andares. Imagine que, da linha para baixo, tudo se preenche minuciosamente; o lápis pastel se esfumaça em preto, cinza e branco, sugerindo planos, arestas, volumes.

Vê-se apenas o topo do prediozinho: a caixa d’água, as paredes sujas, alguma basculante, calhas, telhas, canos. Para cima da linha, além do que seria o horizonte, apenas o branco do papel.

Agora imagine que a parte debaixo desse prédio desenhado é recortada pelo que seria o perfil de um segundo edifício, um pouco mais baixo, dois ou três andares, ou ainda uma casa. Porém, em vez de desenhar esse segundo edifício, imagine que, em seu lugar, tudo permanece em branco. É como se aquilo que (não) aconteceu acima da linha do horizonte se repetisse nessa porção inferior do papel: tudo em branco. O desenho mesmo, aquilo que foi riscado, ocupa apenas o meio da folha.

Talvez seja algo difícil de imaginar. Tentei descrever como enxergo os desenhos de Marcos Fioravante, jovem artista de apenas 23 anos. Encerrou-se faz pouco a exposição que ele apresentava na Galeria Gestual, em Porto Alegre. Boa parte de seus trabalhos ainda pode ser vista no acervo da casa, ao vivo, ou em reproduções no site (www.gestual.com.br/art/mar cos_exposicoes.htm).


Os pequenos desenhos em preto e branco, representando o topo de modestos edifícios, parecem sintetizar o próprio sentido do que é – e como funciona – um desenho: o que se risca, mas também o que se deixa em branco, o que o contorno define, mas também aquilo que nem se risca e que, ainda assim, consegue definir um contorno. O espaço intermediário entre dois planos, e também os planos. O desenho surge, ao mesmo tempo, além do horizonte e aquém dele.

29 de maio de 2013 | N° 17447
PAULO SANT’ANA

O saco da felicidade

Segurem bem a felicidade enquanto estão agarrados nela. Apertem-na bem entre os braços, mesmo que ela esperneie.

Quando a felicidade chega, temos de nos agarrar a ela porque é da natureza dela ser efêmera. Pois, se ela conseguir fugir, quanto tempo demorará para retornar?

Eu tenho uma técnica: comprei um saco de aniagem e, quando a felicidade chega para mim, eu a encerro nesse saco e amarro bem a boca da embalagem.

E carrego pela cidade, em toda parte que vou, aquele saco aparentemente ridículo, mas que encerra todo o meu ideal. Quando carrego o meu saco de felicidade pelas ruas, isso quer dizer que estou feliz.

Estar feliz, como já ensinamos eu e o Facundo Cabral, é não necessitar de nada. Ser feliz é avistar na nossa frente todos os bens do mundo, materiais e espirituais, e constatar que não se está precisando de nenhum deles.

Estar feliz é estar em paz, é um estado de beatitude impressionante, a vida sorri para a gente, nós sorrimos para a vida e para todos os semelhantes, numa espécie de orgulho secreto. Porque se sabe que ninguém é tão feliz como nós à nossa volta.

Cuidado, quando você encerrar a sua felicidade num saco de aniagem, confira se o saco não está furado. É muito comum ensacarmos a felicidade e, quando vamos ver, o saco tinha muitos furos.

Como se nota, é uma ciência manter armazenada a felicidade. Houve diversas ocasiões em que minha felicidade era tão grande, que não cabia no meu saco de aniagem, tive de armazená-la num silo.

Tomem cuidado com outro detalhe: quando forem ensacar a felicidade, para que ela não lhes fuja, tenham a cautela de cobrir as mãos de grãos de areia: porque a felicidade é como um muçum ensaboado. Ela escorrega entre as mãos e foge depressa. E a areia vai fixar suas mãos nela, a danada não escapa e entra para o saco.
Como se vê, é preciso lidar com a felicidade quando ela de repente irrompe dos fatos e atinge-nos.

É preciso ter estratégia para retê-la pelo maior tempo possível e necessário.

Cerque-se de cuidados para domesticar a felicidade e aplacar o seu jeito rebelde de não querer ficar conosco durante largo tempo.

Nós temos a mania de supor que a felicidade não suporta permanecer conosco muito tempo, no que, aliás, temos razão, em vez de cogitarmos de que ela é possível e há maneiras de torná-la permanente, pelo menos durante extenso tempo.

Também quero dizer que é possível o nosso encontro com a felicidade, muitas vezes quando menos a esperávamos.

O fato é que nós, de repente, nos esforçamos tanto para alcançar a felicidade, que ela acaba por nos surgir.

E, quando nos surge, já tenha guardado de propósito o saco de aniagem.


Isso não quer dizer simplesmente que a felicidade não passa de um saco.

terça-feira, 28 de maio de 2013


28 de maio de 2013 | N° 17446
FABRÍCIO CARPINEJAR

O amor tem sono leve

Só aprendi a amar uma mulher depois de ser pai. Antes me amava mais do que amava o outro.

A paternidade mudou meu mundo. Pela primeira vez, me tornei invisível, desaparecia no interior da casa, alguém era mais importante do que eu.

Permanecia 24 horas cuidando de minha filha. Existia por ela, para ela. Passei a destacar o que não seria notícia, a me interessar pelos assuntos da praça, pelos cuidados médicos, por aquilo que havia dentro do armário do banheiro, dentro da despensa da cozinha, dentro de minha cabeça.

Só quando pai é que descobri a diferença dos detalhes, a reparar na gola da camisa desarrumada, no farelo do canto da boca, na remela nos olhos, na previsão meteorológica, na lista do mercado sonhando almoço e janta.

Antes amava a noite mais do que o dia. Quando nasceu minha filha, me dediquei à ordem doméstica. Dispensei creche para assumir a rotina do nosso bebê.

Meu expediente consistia em acordar, dar comida, trocar fraldas, dispor brinquedos, arrumar bagunça, levar para passear, preparar o banho, contar histórias, fazer dormir. E repetir exatamente tudo igual pela semana.

Controlava os horários com rigor. O relógio entrou em meu sangue.

Era um tal estado de solidão e carência, que todo beijo parecia um abraço dos lábios. Era um tal estado de isolamento, que toda visita recebia o dobro de festa.

Tinha direito a três telefonemas, justamente no momento em que minha criança descansava. Brilhava cada palavra vinda dos amigos, como se fosse um sopro benfazejo de praia no rosto.

A paternidade transformou meus ouvidos. Eu comecei a escutar a residência inteira, jamais dormi igual. Meu sono agora estava atento a qualquer ruído, generoso, preparado para a vigília.

Só aprendi a amar uma mulher depois de ser pai. Arrumando a merendeira, me importando se o uniforme da filha estaria seco, conservando a memória da banalidade.

Antes não me julgava romântico, antes não me via sensível, antes não compreendia vésperas. Foi untando os dedos de hipoglós que valorizei o uso do perfume, foi juntando meus pedaços que me formei inteiro.

Só com a paternidade aprendi a esperar, aprendi a abandonar o egoísmo, aprendi a planejar presentes, aprendi a ser provisório e não mais idealizar encontros, aprendi a aproveitar o tempo que eu tinha e o tempo que podia, aprendi a não reclamar à toa, a não mais diferenciar a janela da porta e o amor do perdão.

Só aprendi a ficar de pé depois de ser pai, antes minha fé apenas engatinhava.



28 de maio de 2013 | N° 17446
CLÁUDIO MORENO

O que vale é a palavra

Muita gente acredita que convivemos com duas realidades distintas: de um lado, o mundo concreto do nosso dia-a-dia; do outro, a linguagem que usamos para falar sobre ele. Há, porém, os que defendem que tudo é uma coisa só, e que a vida é – nem mais, nem menos – exatamente aquilo que dizemos dela: o bom e o mau, o feliz e o infeliz, o falso e o verdadeiro não passam de palavras que aplicamos à nossa experiência. Isso fica muito claro nas duas pequenas histórias que seguem, colhidas nos clássicos para sua ilustração e divertimento.

Plínio, o Velho, conta o incidente que envolveu Toranius Flaccus, um conhecido mercador de escravos, e Marco Antônio, magistrado romano, futuro amor de Cleópatra. Ocorre que o primeiro havia capturado dois jovens escravos de rara beleza, tão parecidos que – embora um viesse da Ásia e o outro dos Alpes – apresentou-os como gêmeos a Marco Antônio, conseguindo na venda uma pequena fortuna.

A fraude logo foi descoberta porque os meninos, como seria de esperar, falavam línguas completamente diferentes. Furioso, o magistrado fez vir o mercador à sua presença e o cobriu de insultos, reclamando, principalmente, do preço exorbitante que tinha pago pelos falsos gêmeos, que não poderia mais exibir aos convidados.

“Pois não sei por que o senhor está se queixando” – respondeu o mercador – “quando, na verdade, deveria me agradecer. Se tivessem nascido da mesma mãe, a semelhança entre eles não seria tão espantosa – mas assim, entre duas crianças provenientes de lugares tão distantes, nunca foi visto nada igual. Eu não cobrei preço ainda maior só porque o senhor é bom freguês – mas se quiser desfazer a compra, tudo bem.

Alguém certamente vai pagar bem mais caro.” Diante dessas palavras, Marco Antônio trocou a indignação por um verdadeiro entusiasmo pela fantástica aquisição que tinha feito, passando a considerar os dois meninos como o seu bem mais valioso.

Montaigne, por sua vez, conta o caso daquele estrangeiro que saiu a proclamar nos lugares públicos, ruidosamente, que, em troca de uma considerável quantia, poderia ensinar a Dionísio, rei de Siracusa, um modo infalível de descobrir qualquer conspiração que os súditos pudessem estar tramando contra ele.


O rumor chegou aos ouvidos do rei, que mandou chamá-lo, pois queria aprender esta arte tão valiosa para sua segurança. O estranho então revelou o segredo: bastava entregar-lhe vinte quilos de prata e sair anunciando que havia aprendido uma técnica especialíssima de detectar levantes e conchavos. Dionísio entendeu o estratagema e mandou seu tesoureiro entregar o que o visitante pedia, pois ninguém ia acreditar que ele gastaria uma soma tamanha a não ser que tivesse realmente recebido uma informação secreta de grande valor – e, com isso, levou ainda mais medo aos inimigos que queriam o seu trono.

28 de maio de 2013 | N° 17446
PAULO SANT’ANA

Estupro em criança

Pois me veio parar nas mãos uma história escabrosa que acabou revelando uma confusão no atendimento policial.

Quem me contou foi o leitor Josue Menezes (josuemenezes@pop.com.br), que é casado com uma mulher que é sobrinha de um personagem central da história, a mãe de uma menina abusada sexualmente por um adulto.

A narrativa é cheia de enganos e omissões, mas, no que se refere à confusão policial que se estabeleceu, é elucidativa.

Pois bem, uma senhora é casada pela segunda vez com um homem de 25 anos e mora com uma filha menor, de sete anos de idade, fruto do primeiro casamento.

Essa senhora, moradora do Partenon, aqui na Capital, acordou-se alta hora da noite e viu que seu marido não estava na cama. Foi até o quarto da filha de sete anos de idade e seu marido estava completamente nu em cima da criança, na cama.

Isso se deu no último dia 21 deste mês de maio.

A senhora, indignada, foi até a cozinha e trouxe uma faca pontiaguda e tentou matar o marido, que fugiu às pressas, vestindo-se durante a fuga.

Narrativa espetacular e um flagrante macabro do nosso cotidiano.

Então, a senhora pegou a filha e levou-a até a 15ª Delegacia de Polícia, o órgão policial mais próximo de sua casa.

Na delegacia, o narrador conta que um delegado atendeu aos queixosos muito mal. Não deveria ser delegado, mas as partes, quando são atendidas numa delegacia, creem que é sempre por um delegado.

Pois bem, o policial disse que não era lá o órgão competente, mas a senhora argumentou que não queria saber qual era o órgão competente, a delegacia era a mais próxima da sua casa e ela queria o registro da ocorrência.

Diante da reação absolutamente adequada da queixosa, o policial registrou a ocorrência e encaminhou a senhora e sua filha abusada para o Departamento Médico Legal.

Notem só como as vítimas sofrem tanto pelos atentados quanto pelo trâmite policial que se segue.

No DML, foi informada a mãe da vítima, nessa altura com a filhinha a tiracolo no seu calvário noturno, que lá não podia ser atendida e examinada sua filha porque não havia naquele instante uma psicóloga para o atendimento.

Exame de conjunção carnal nem notícia, não havia psicóloga.

Então, a mãe e a menina foram encaminhadas ao Hospital Presidente Vargas, que ao que parece mantém um convênio com a Polícia Civil para atender casos de abusos sexuais sobre menores.

Só que no hospital foi dito à senhora que o atendimento desses casos só pode ser feito pelo dia.

A menina mais uma vez restou não atendida.

Eu estou fazendo aqui um apelo ao chefe da Polícia Civil e ao secretário da Segurança Pública: pelo amor de Deus, resolvam para sempre esta confusão burocrática.

Ninguém sabe o órgão que atende, ninguém atende e as vítimas passam a ser vítimas pela segunda vez, da desorganização policial.

Ora, órgão policial não tem psicóloga. Ora, hospital que exerce erradamente tarefa policial não atende durante a noite. Uma mixórdia.

E as vítimas? E a população? Onde ficam?


Resolvam essa vergonhosa confusão e vazio injustificáveis.

28 de maio de 2013 | N° 17446
DAVID COIMBRA

Não mande flores para a cova do inimigo

O ideal de um clube da dupla Gre-Nal é se importar tanto com o arqui-inimigo até o ponto em que não precise mais se importar tanto com o arqui-inimigo.

Porque só o que interessa para os gremistas são os colorados, e só o que interessa para os colorados são os gremistas.

Fernando Carvalho compreendeu isso. Estabeleceu metas para a sua gestão no Inter. A primeira de todas: deixar de perder Gre-Nal. Foi assim que pavimentou o caminho do Inter vencedor do quinquênio 2005-2010. Foi assim que mudou o Inter para sempre.

Fernando Carvalho sabe que a medida do Inter é o Grêmio; e vice-versa. Sabe que, como canta o velho Belchior, não se deve mandar flores para a cova do inimigo.

O jogo mais importante

O Grêmio confundiu-se ao estabelecer as estratégias de enfrentamento dos seus três últimos clássicos, justamente em momentos em que estava melhor do que o Inter. No ano passado, não empenhou-se para vencer um jogo ganho; neste ano, escalou reservas em duas oportunidades.

Erro primário.

Talvez pudesse vencer os jogos, aliviar-se com o bálsamo do Campeonato Gaúcho e fazer o rival espadanar na crise. Ao contrário, comprometeu seu começo de temporada, fortaleceu o Inter e, agora, quem se repoltreia na desconfiança é ele, Grêmio.

A verdade mais que centenária nunca deve ser esquecida: para Grêmio e Inter, o jogo mais importante do mundo é, e sempre será, o Gre-Nal.

Tempo de amadurecer

Fernando Carvalho é um admirador do futebol do Fred. Considera-o um novo Tinga, um jogador que, com sua movimentação, dá dinamismo ao time.

Eu sempre fui desconfiado de meias que não sabem fazer gol, mas, ao ver essa última atuação de Fred contra o Vitória, tenho de concordar. Se jogar sempre com essa disposição, Fred se tornará fundamental ao time do Inter.

Um detalhe: Fred só está podendo se tornar o que é porque está tendo tempo para amadurecer. Porque o Inter passou um semestre inteiro na bonança. Porque o Grêmio desprezou o Gre-Nal.

Aprendendo com Nietzsche

Fred está se tornando quem ele é. É a base de toda a filosofia e de toda a psicanálise. “Torna-te quem tu és”, escreveu Nietzsche.

Não se trata de tarefa fácil.

Nietzsche também dizia que cada um deve saber o quanto de verdade sobre si mesmo é capaz de suportar.


É por isso que, muitas vezes, ir tão fundo talvez não seja o ideal. Talvez o melhor seja deixar que a vida o conduza. Aprender e fazer ao mesmo tempo. Pensar enquanto age. Como Fred. Ele vai jogando, ele vai se adaptando às exigências da realidade e, aos poucos, vai se encontrando, vai descobrindo como se sente melhor e onde se sente melhor e de que forma se sente melhor. Está se tornando quem ele é.

segunda-feira, 27 de maio de 2013


27 de maio de 2013 | N° 17445
ARTIGOS - Paulo Brossard*

Ruy Mesquita e a imprensa sem peias

O Estado de S. Paulo é o maior, mas não o mais antigo jornal do país, embora o seja de São Paulo, pois antes dele entraram a circular e continuam circulando pelo menos duas folhas, o Diário de Pernambuco e o Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Estas lembranças me vieram à mente acerca do falecimento de Ruy Mesquita, que, desde a morte de seu irmão, Júlio de Mesquita Neto, passou a ser a primeira figura do grande jornal, ele que fora o fundador e diretor do Jornal da Tarde.

A morte do jornalista ensejou fosse apreciada sua dimensão entre os profissionais da imprensa, bem como a posição que lhe cabia nos planos nacional e internacional. E foram de louvor, sem discrepância, as apreciações acerca de sua dedicação ao mundo do jornal.

Como uma ideia puxa a outra, dei-me conta de que o “Estadão”, como veio a ser popularmente denominado, converteu-se em uma espécie de escola de jornalismo e, entre outras notas distintivas, primou em guardar acentuada homogeneidade. Esta me parece derivar da circunstância de, em mais de século, ter sido confiada a uma família de jornalistas.

Sem contar os anos iniciais da propaganda, ao tempo da Província de S. Paulo, a partir da República esteve sob a direção sucessiva de Júlio de Mesquita, Júlio de Mesquita Filho, Francisco de Mesquita, Júlio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, à exceção do período em que o jornal, confiscado, exilados seus diretores, perdeu seu caráter próprio. A permanência da família, sem solução de continuidade, não impediu que Nestor Pestana e Plínio Barreto, jurista, homem público e jornalista, fossem seus diretores.

Em outras palavras, de 1891 a 2013 o jornal viveu sob a direção de três gerações de uma família, ligadas não só por seus laços, mas também por vínculos culturais em seu mais amplo sentido, de modo que o pecúlio imaterial que se foi formando, a despeito das imensas transformações do mundo, fosse se enriquecendo num prolongamento orgânico das linhas iniciais do empreendimento; a fidelidade aos padrões originários assegurou a homogeneidade nascente perpetuada até hoje.

Se é exato que a empresa jornalística necessita de estrutura em tudo adequada às suas necessidades, de modo a zelar por sua funcionalidade material, ela não exclui a singularidade peculiar, pois, se o jornal não dispensa imprescindível saúde financeira, seu escopo não será exclusivo ou mesmo predominantemente econômico, pois não poderá desligar-se de suas preocupações específicas, marcadamente imateriais.

Por estas ou aquelas razões, o certo é que o fenômeno “Estado” aparece como uma eminência no meio em que nasceu e cresceu até tornar-se entidade nacional de expressão internacional, e Ruy Mesquita foi a derradeira personalidade da terceira geração da família Mesquita, que se confunde com a empresa centenária a partir de 1891 e, dadas suas qualidades, herdadas e adquiridas, veio a imprimir significativo contributo à antiga instituição, aditando e enriquecendo o singular patrimônio acumulado em mais de século, com naturalidade e descortino, segurança e firmeza.

Na apreciação dos que o conheceram no dia a dia de alguns anos, que não foram poucos, ele se afirmou sem alarde e quase sem esforço à altura de seus antecessores. A mim parece que o jornalismo brasileiro perde em Ruy Mesquita uma de suas expressões mais completas e harmoniosas.

Embora não passe de velharia, ainda existe entre nós quem defenda a “regulamentação” da imprensa, que, em verdade, não passa de pseudônimo do domínio sobre a livre informação. Na simpática República Argentina, por exemplo, seu governo se afoita em hostilizar frontalmente o seu maior complexo noticioso, repetindo a selvagem agressão de outro governo contra dois ornamentos da nação irmã, La Nación e La Prensa. É a razão por que foram oportunas as homenagens ao jornalista falecido por sua fidelidade à imprensa sem peias, internacionalmente reconhecido.

*JURISTA, MINISTRO APOSENTADO DO STF



27 de maio de 2013 | N° 17445
LETICIA WIERZCHOWSKI

Da compaixão e da gentileza

Na palestra inaugural do Fronteiras do Pensamento, a historiadora Karen Armstrong apontou a compaixão como a “regra de ouro” presente em todas as religiões; o princípio básico da espiritualidade humana seria a máxima: “Nunca trate ninguém como você não gostaria de ser tratado”.

Foi uma fala simples e espontânea, carregada de sentimento e de verdade. Como uma chuva num solo árido, que alívio foi ver a Sra. Armstrong desfiando a verdadeira essência da humanidade – essência tão tristemente escanteada da nossa vida cotidiana.

Eu não sou religiosa, não costumo frequentar nenhum culto e nenhum templo me aguarda. Mas acredito em Deus, acredito numa energia maior, e toda vez que posso exercer a compaixão – e a gentileza, um de seus subprodutos mais cotidianos – sinto-me afinada com essa energia.

Deus existe? Quem sou eu para responder. Mas existimos, você e eu, existimos nós, homens e mulheres – cidadãos, vizinhos, colegas de coletivo, transeuntes –, existimos e nos organizamos socialmente, compartilhando espaços, realidades e circunstâncias históricas.

No entanto, basta dar um único passeio por Porto Alegre, por exemplo, e o que salta aos olhos é a maneira como a compaixão e a gentileza são hoje produtos de luxo. Cidadãos que somos de uma mesma cidade, a maioria de nós não hesita em avançar com o carro sobre as faixas de segurança, e o que vemos por aí são pedestres acossados nas esquinas. Bons dias e boas tardes se apagaram do uso cotidiano – se somos todos amigos no Facebook, a regra não vale para as ruas.

Dia desses, uma senhora já bem idosa foi de uma grosseria ímpar no supermercado ao trancar um corredor com seu carrinho, e deu um pequeno espetáculo lastimável quando solicitada a dar a passagem. Voltei para casa com as compras feitas, mas desanimada.

O princípio básico do convívio social se esfalfa por aí a todo instante. Melhor do que rezar um Pai Nosso antes de dormir é dizer um bom dia na parada de ônibus, é dar um sorriso para a caixa do supermercado, é chegar ao trabalho de bom humor. Construindo realidades mais agradáveis, chegaríamos mais perto daquilo que sonhamos.

Espiem este lindo comercial da Coca-Cola a partir de câmeras ocultas: como a vida pode ser, e às vezes é: http://youtu.be/5L8dNW2CiO4



27 de maio de 2013 | N° 17445
PAULO SANT’ANA

Jornaleiro e jornalista

Interessante em minha vida é que, muito tempo antes de ser jornalista, fui jornaleiro.

Eu tinha lá por uns 11 anos de idade quando bolei o seguinte: eu comprava de 20 a 30 exemplares de domingo do Correio do Povo, que custavam na banca 50 centavos da moeda da época, o cruzeiro.

Comprava-os numa banca de jornais no fim da linha do bonde Partenon, uma parada depois do Hospital São Pedro, na Avenida Bento Gonçalves.

E revendia todos esses jornais lá longe, distante mesmo uns dois quilômetros, na encosta do Morro da Polícia, dos quartéis da Brigada Militar até as ruas São Miguel e Intendente Azevedo. Revendia os jornais com 100% de lucro, isto é, a um cruzeiro.

Foi a minha única incursão, ocorre-me agora, no mundo dos negócios, no qual fui um desastrado sempre que nele tentei ingressar, não tenho vocação para ganhar dinheiro.

Mas arrumei boa grana com essa revenda de jornais, meu pai me abriu uma caderneta de poupança.

Como a única despesa que eu tinha era com o ingresso nas matinês de domingo, minha caderneta de poupança engordou, mas com o tempo extraviei-a e nunca mais soube daquela grande quantia que eu poupara. Extraviou-se minha caderneta em minhas gavetas, e o banco lucrou com meu desperdício.

Mas, de qualquer sorte, me intriga que eu tenha sido bom vendedor e entregador de jornais e hoje, o Ricardo Stefanelli, diretor da RBS, declare que continuo sendo “o maior vendedor de Zero Hora da história, só que como colunista”.

Correio do Povo e Zero Hora, recorde-se, que foram e são os dois maiores jornais da história da imprensa gaúcha.

E eu revendedor de um e cronista do outro, não é uma bela coincidência?

Impossível deixar de recordar o passado, de vez que, considero, não tenho mais futuro.

O passado é certo, o futuro é incerto. O passado é uma névoa. O futuro para nós, os de terceira idade, é um abismo.

E o presente? Bem, com este é como dizem os existencialistas: “É melhor colher o momento que passa.”

O passado é uma nuvem que cruzou acima das nossas cabeças, o presente para mim é um vendaval de boas e más emoções e o futuro muitas vezes uma ameaça aterrorizante, de vez que no final de suas circunstâncias está a morte.

Por falar em morte, cogito que grande parte das pessoas detesta lembrar que ela se constituirá na sua extinção. E por isso têm medo da morte.

No entanto, há muitas e muitas pessoas que sofrem tanto com a velhice e suas desvantagens, que gostariam de morrer.

Entre os que gostariam de morrer, há os que não abreviam a morte por não terem a coragem de suicidar-se ou porque têm o dever ético de não porem, por suas mãos, fim a sua existência.

Como eu sempre digo e tanta gente tem-me repetido na imprensa gaúcha, há casos em que a encruzilhada da vida nos coloca o suicídio como dever.

Interessante esse raciocínio, maldito seja o dia em que alguém considerar que o suicídio é um seu dever ético.

Ético e impositivo e inarredável.


Mas cadê a coragem para executá-lo?

27 de maio de 2013 | N° 17445
CASA PRÓPRIA

Feirão da Caixa gera vendas de R$ 1 bi

Em três dias de evento na Capital, foram fechados 7.308 contratos, com valor médio de R$ 148 mil

Com crescimento de 12% em relação ao ano passado, o Feirão Caixa da Casa Própria em Porto Alegre movimentou R$ 1,075 bilhão. O evento, realizado desde sexta-feira no Centro de Eventos da Fiergs, teve 7.308 contratos fechados, com valor médio de R$ 148 mil.

Conforme a Caixa, passaram pelo evento 19,2 mil pessoas. Até sábado, o feirão já tinha movimentado R$ 652 milhões. Para o superintendente regional da Caixa, Eduardo Kisner, os efeitos vão se propagar e a expectativa é de que o movimento no setor imobiliário das agências dobre nas próximas duas semanas:

– Muitos clientes visitam o feirão e só depois tomam a decisão de financiar. Estimamos que cerca de 28 mil pessoas terão a sua casa própria.

Um dos atrativos durante o fim de semana foi a possibilidade de pagar a primeira prestação do financiamento em janeiro de 2014. Os prazos são de até 35 anos e os juros, a partir de 4,5% ao ano. Foram ofertados mais de 32 mil imóveis. Participaram 48 construtoras e 69 imobiliárias.

A incorporadora Melnick Even promoveu ontem a segunda edição do Melnick Even Day, que pretendia vender 430 imóveis comerciais e residenciais, alguns com descontos de até 36%. Na noite de sexta-feira, filas começaram a se formar nas ruas próximas à sede da empresa, no bairro Mon’t Serrat, na Capital. Alguns clientes dormiram em barracas para garantir as ofertas.


De acordo com diretor da construtora, Juliano Melnick, cerca de 200 contratos foram fechados, superando a edição do ano passado. Os números finais serão divulgados hoje.

27 de maio de 2013 | N° 17445
L.F. VERISSIMO

Strangelove aos 90

O Cristopher Hitchens escreveu certa vez que se fizera uma promessa: não leria mais nada escrito pelo Henry Kissinger até que fossem publicadas suas cartas da prisão. Hitchens morreu sem realizar seu desejo. Kissinger está fazendo 90 anos esta semana e nunca foi preso ou sequer indiciado pela sua participação em alguns dos maiores crimes do século passado.

Foi ele quem trouxe a palavra “realpolitik” do alemão de Bismark para o vocabulário da política moderna, e como secretário de Estado e conselheiro de governos americanos foi o responsável pelo bombardeio semiclandestino do Camboja durante a guerra do Vietnã e o apoio mal disfarçado ao golpe e ao regime assassino do Pinochet no Chile, entre outros exemplos de pragmatismo amoral que custaram milhares de vidas. Ele foi o modelo para o “Dr. Strangelove” do filme do Kubrick, interpretado pelo Peter Sellers com seu sotaque alemão intacto.

Mas Kissinger chega aos 90 anos honrado e – na medida em que o Barack Obama tem se mostrado ser também um pragmático em matéria de política externa – até reabilitado entre os que antes o criticavam. Já se disse que quem sentar no terraço do café “Les Deux Magots” por um tempo indeterminado, mais cedo ou mais tarde verá passar pela calçada toda a humanidade.

O mesmo exagero pode ser aplicado ao tratamento dado pela História aos seus vilões mais notórios, que ela cedo ou tarde absolverá ou no mínimo justificará. Átila, o Flagelo de Deus, trouxe uma cultura exótica, até então desconhecida, às margens do Danúbio. Hitler, digam o que disserem, acabou com a maior inflação do mundo e uniu o povo alemão. Na Itália de Mussolini, pela primeira vez os trens andaram no horário. Calígula e Ricardo III foram dois incompreendidos, só eram um pouco celerados. E: quem nos assegura que as mulheres do Barba Azul não eram mesmo insuportáveis?

No caso de Kissinger, a História dirá, quando a poeira do tempo baixar e permitir uma visão mais clara do seu pragmatismo, que ele não foi totalmente letal. Foi ele que arquitetou o encontro, antes impensável, de Nixon com Mao e uma reavaliação da China Comunista como potência, pelo Ocidente, que mudou a geopolítica e evitou, ou pelo menos adiou, o enfrentamento.


Credita-se às suas reuniões secretas com os vietnamitas do Norte o encurtamento da guerra que já tinha matado milhares. As vidas salvas por Henry Kissinger com suas maquinações escondidas não foram tantas quanto as vidas destruídas pelo Dr. Strangelove. Mas talvez tenha dado empate.

domingo, 26 de maio de 2013

FERREIRA GULLAR

De Mao a Xiao

Kissinger afirma que Mao impeliu a China a uma década de frenesi ideológico e sectarismo feroz

Esta é a terceira crônica que escrevo tendo por referência o livro "Sobre a China", de Henry Kissinger. Será a última e terá como assunto as figuras de Mao Tse-tung e Deng Xiao Ping, os dois importantes líderes da China moderna, isto é, a nova China surgida da Revolução Comunista de 1949.

Se, nas crônicas anteriores, fui motivado pelas peculiaridades surpreendentes da antiga China, nesta vou me ater a alguns fatos que, na minha opinião, deram origem, de uma maneira ou de outra, à China de agora, tornada capitalista. Sim, mas por se tratar da China, um capitalismo muito peculiar.

A República Popular, que Mao implantou, por cima de uma história e uma cultura milenares, tinha por modelo a URSS de Josef Stálin e, por isso mesmo, projetos e decisões impostos à nação, de cima para baixo, por decisão e vontade do líder.

Por isso mesmo, quando, em 1956, Khruschov denunciou o stalinismo e propôs um modo menos autoritário de conduzir o processo revolucionário, Mao rompeu com ele e o acusou de trair o comunismo.

Certamente, Mao havia mudado a velha China, introduzindo nela medidas econômicas e educacionais que melhoraram sensivelmente a vida do povo chinês. Há, porém, quem ponha em dúvida o seu grau de sensatez, quando passou a tomar decisões delirantes como a de induzir os cidadãos a fabricarem aço em casa.

Milhões de chefes de família teriam montado minissiderúrgicas no quintal da casa para, ali, produzir aço. O resultado, como teria de ser, foi desastroso: toneladas de aço de péssima qualidade, que não servia para nada.

Há quem acredite estar nesse fracasso a origem da Revolução Cultural. Segundo eles, tamanho insucesso teria comprometido a autoridade e o prestígio, até então intocáveis, de Mao, gerando, dentro do Partido Comunista chinês, um movimento contra a sua liderança. Muitos dirigentes passaram a crer que o grande líder havia enlouquecido e que, para deter aquela rebelião, deflagrou a Revolução Cultural que, em última análise, visava a desmontar o aparelho partidário.

Kissinger afirma que Mao impeliu a China a uma década de frenesi ideológico, sectarismo feroz e quase a uma guerra civil. Nenhuma instituição foi poupada e, por todo o país, governos locais foram desfeitos, destituídos líderes do Partido Comunista e do Exército de Libertação Popular, incluindo comandantes da guerra revolucionária, vítimas de expurgo e submetidos a humilhação pública.

Figuras importantes do partido foram obrigadas a desfilar pelas ruas das cidades ostentando orelhas de burro. Os jovens foram instados a saírem às ruas de todo o país, atendendo à exortação de Mao, a fim de "aprenderem a revolução fazendo a revolução".

Dirigentes do partido eram enviados ao campo para aprender com os camponeses analfabetos a lição revolucionária. Adolescentes tornaram-se tropas de choque ideológicas. A nação chinesa virou de cabeça para baixo, com filhos se voltando contra os pais, alunos humilhando professores, queimando livros. Em Pequim, os ataques dos Guardas Vermelhos destruíram quase 5.000 locais de valor cultural e histórico.

Após a morte de Mao, Deng Xiao Ping, principal líder entre o fim dos anos 1970 e início dos 1990-- que fora perseguido por Mao-- afirmou ter a Revolução Cultural quase destruído o Partido Comunista como instituição e arruinara sua credibilidade.

Quando assumiu o governo, a China estava em situação pior do que quando Mao iniciara a transformação revolucionária da sociedade chinesa. Na verdade, o Estado planejado, longe de criar uma sociedade sem classes, terminara por estratificar as classes.

Os bens, em vez de serem comprados, eram distribuídos conforme as prerrogativas oficiais, o que levou ao favoritismo e à corrupção, uma vez que tudo passou a depender de influência partidária.

O programa de reforma que Deng implantara destinou-se a erradicar o maoismo. Ele e seus auxiliares mais próximos implantaram a economia de mercado, aberta ao exterior, confiando no espírito empreendedor do povo chinês.

Não resta dúvida de que nasceu então a China de hoje, de economia capitalista, no polo oposto às teses maoistas. Não obstante, fiel à sagacidade tradicional chinesa, manteve o culto a Mao Tse-tung, embora fizesse o contrário do que ele fez e faria.


JOSÉ SIMÃO

"Amor à Vida"! Daniel esgoelado!

E a grande e sensacional inovação: a vilã é gay! Bicha má! Versão gay da Carminha!!

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Predestinada da semana: proctologista em Brasília, doutora Geralda GALLO!

E adorei esta faixa em Livramento, Paraíba: "Funcionários, alunos e a comunidade do Livramento agradecem ao prefeito Romero Leal pela chuva de ontem". O prefeito faz chover! Rarará!

E a lista das mais poderosas da revista "Forbes"? 1) Angela Merkel. 2)Dilma Rousseff. 95) Gisele Bündchen! Agora tira a roupa dela e refaz a lista. Rarará! Comentário bem machista.

E a Dilma, na foto, tá parecendo o Kung Fu Panda! E a Angela Merkel tá com cara de ressaca da Oktoberfest!

E a grande sensação da semana: a bicha má das 21h! "Amor à Vida". Já tô viciado! Eu me entreguei à podridão! "Amor à Vida", uma novela com crase.

E o Daniel se esgoelando?! Parece uma britadeira, uma arara no cio! E a grande e sensacional inovação: a vilã é gay! Bicha má! Versão gay da Carminha! Neto da Odete Roitman!

Como disse um amigo: "Se nos dois primeiros capítulos a bicha má aprontou tudo isso, imagina na Copa". Rarará! Essa novela não tem Amor aos Ouvidos: Daniel e Paula Fernandes!

E a Susana Vieira! Fiquei dois dias sem dormir, sonhei que fui adotado pela Susana Vieira. E acordei rezando um Creio em Deus!

E mudei de ideia: agora eu quero ser adotado pela Susana Vieira. Está sensacional!

E atenção! Bagurança Pública: "Policial ganhará bônus de até R$ 10 mil para reduzir crime em SP". Isso é Bolsa Arrastão! Alckmin lança o Bolsa Arrastão! Por R$ 10 mil, eles prendem até você!

Como disse um amigo: "Não é melhor pagar R$ 10 mil pro bandido? Pra ele não me assaltar?". Rarará! É mole? É mole, mas sobe!

E a Dilma? Como disse o tuiteiro Luis Biselli: "A Dilma já deu tanto pontapé inicial nas inaugurações dos estádios que ela já tá finalizando melhor que os atacantes da seleção!". Melhor que os atacantes do Palmeiras, com certeza!

Aliás, neste ano a Dilma entrou mais em campo que o Valdivia. Rarará! No próximo estádio ela vai se jogar na área e bater pênalti! Felipão, convoca ela! Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza!

Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno!


simao@uol.com.br
DANUZA LEÃO

Ah, as mulheres

Meu amigo não entendeu que o homem com quem se sonha não tem nada a ver com o homem que se ama

Eu conheço um homem que, como não leu o livro de Nelson Rodrigues --"Não se Pode Amar e Ser Feliz ao Mesmo Tempo"--, queria ser amado e ser feliz. De tanto ouvir as reclamações das mulheres sobre os homens, procurou aprender --e aprendeu-- a não ter nenhum dos defeitos dos quais elas se queixavam tanto e que eram sempre mais ou menos os mesmos. Não funcionou com a primeira, nem com a segunda, nem com a terceira, aliás, com nenhuma; ele achou estranho e veio conversar comigo.

E me contou que trata todas, sempre, superbem, valoriza a mulher amada, cuida e zela, mostra que ela é a prioridade da vida dele; é atencioso, prestativo, ótimo pai, procura dar os presentes certos, aqueles que são seus sonhos de consumo, se empenha em fazê-la feliz, apoia o quanto pode sua carreira, leva-a às Europas que ela não conhece, puxa conversa para assuntos de que ela gosta, repara em sua aparência, seu corte de cabelo, e a elogia sempre.

Além disso, não se esquece dos aniversários: de casamento, do primeiro dia de namoro, do dia da primeira transa, lembrando sempre com flores, um presente, até mesmo uma viagem; reúne, enfim, todas as condições para ser um ótimo amigo, um pai adorável, e é totalmente desprezado como objeto de desejo e paixão.

Meu amigo não compreende as mulheres, e não entendeu que o homem com quem se sonha não tem nada a ver com o homem que se ama. Nenhuma mulher vai se apaixonar por um homem que esteja de quatro por ela, adivinhando seus pensamentos, realizando seus desejos, antes mesmo de ela saber que desejos são esses.

Ela pode gostar, sim, mas durante 24 horas, 48, enquanto existir aquela dúvida fundamental: que talvez não seja para sempre. É insuportável ser amada acima de todas as coisas o tempo todo, e pior ainda ter uma pessoa ao lado que nos tem como sua prioridade.

Para que o amor dure, é preciso que exista a dúvida se ele vai sobreviver, até mesmo àquela noite; não saber se ele vai ligar, não saber em que está pensando quando está calado, e sobretudo --sobretudo-- saber que ele jamais vai lembrar de nenhuma das datas fatídicas, de quando se conheceram etc. etc., e jantar num restaurante especial e tomar um vinho no Dia dos Namorados.

Para um homem ser amado é preciso que ele tenha um mundo particular --ou vários-- só dele, e no qual ela não consiga, jamais, penetrar. Que seja o futebol, o surfe, a astronomia, a corrida de cavalos, a guerra da Síria, tudo vale, contanto que ela não seja a única a ocupar seus pensamentos.

As coisas muito certas não têm graça; pense nos cassinos, onde uma multidão arrisca seu dinheiro na incerteza, sem saber se vai dar o preto ou o vermelho, o par ou o ímpar, o 4 ou o 17. Se soubessem, ia ter graça?

Esse meu amigo não fez tudo errado, não. Ele fez tudo certo, quando mandava flores, quando surpreendia suas amadas com a perspectiva de uma viagem, quando lembrava de seu aniversário na véspera, à meia-noite, sem imaginar que ela, chegando aos 42, queria saber de tudo, menos dessa data, razão de sobra pra odiá-lo.

Ele não pensava no prazer dela, e sim no dele; o prazer de se sentir generoso, magnânimo, o amante perfeito, o que para ele era certamente mais importante do que ser amado. Conseguiu, e não tem do que se queixar.


PS "" quem diria que a canção "Ne me Quitte Pas", hino da dor de cotovelo, poderia ser cantada por alguém além de Jacques Brel; pois Maria Gadú ousou, e ainda ousou mais, junto com seu arranjador, botando um ritmo. Deu certo, e viva a dor de cotovelo em versão moderna.
MARCELO GLEISER

Universo consciente?

Para o físico John Wheeler, a existência da partícula depende de sua interação com a consciência humana

Entre os vários mistérios da física contemporânea, poucos se comparam à existência de não localidade na física quântica. Não localidade significa que interações entre entidades separadas podem ocorrer instantaneamente. É como se o espaço e o tempo não existissem!

Quando uma bola vai ao gol ou uma gota de chuva cai, existe um efeito local por trás: o chute, a nuvem carregada. No mundo quântico, dos elétrons e fótons --as partículas de luz--, efeitos podem ocorrer sem causa local, algo de que tratei na coluna do dia 28 de abril.

Imagine gêmeos, um em São Paulo e outro em Manaus. Entram num bar, um em cada cidade. Se o de São Paulo pede pinga, o de Manaus pede chope. Se o de São Paulo pede chope, o de Manaus pede pinga. Isso ao mesmo tempo, como se soubessem o que o outro pediu. Como é possível, dado que estão longe e não podem se comunicar?

Essa sincronicidade, se não com gêmeos, foi verificada entre pares de partículas em experimentos à distância que comprovam que a correlação é mais rápida do que a velocidade da luz.

Imagino que muitos leitores estejam pensando na premonição, na sincronicidade junguiana etc.

Lembro que o cérebro humano e os pares de fótons são "sistemas" bem diferentes. Mas cientistas sérios, como o vencedor do Nobel Eugene Wigner e seu colega de Princeton John Wheeler, se questionaram sobre o papel da mente na física.

Quando medimos algo usamos um detector. Não temos contato direto com um elétron. Sua existência é registrada quando interage com o detector e ouvimos um clique ou vemos um ponteiro mexer.

Na interpretação "ortodoxa" da física quântica, é essa interação que determina a existência da partícula: antes da medida, não podemos nem dizer que a partícula existe.

Wigner e Wheeler acham que, sem um observador, essa medida não faz sentido; foi o observador que montou o detector. A existência da partícula depende de interação com a consciência humana: mais dramaticamente, a consciência determina a realidade em que vivemos.

Wheeler imaginou um experimento no qual uma partícula passa por um anteparo com dois orifícios e vai de encontro a uma tela móvel. Atrás dela, há dois detectores alinhados com os orifícios. Se a tela é retirada, os detectores acusam por qual orifício a partícula passou.

Porém, no mundo quântico, partículas podem agir como ondas. Ondas passando por dois orifícios criam padrões de interferência, estrias claras e escuras.

Portanto, duas opções: com tela vemos interferência, sem tela vemos detecção de uma partícula.

Wheeler sugeriu que a tela fosse retirada após a partícula ter passado pelo anteparo. Por meio da sua escolha, o observador cria a propriedade física da partícula agindo retroativamente no tempo! O incrível é que a previsão de Wheeler foi confirmada. Observador e observado formam uma entidade única que existe fora do tempo.

Wheeler extrapolou: "Não somos observadores no Universo, somos participadores. Sem consciência, o mundo não existe! O Universo gera a consciência e a consciência dá significado ao Universo". Essa visão traz o dilema: será que o Universo só faz sentido porque existimos?


MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor de "Criação Imperfeita". Facebook: goo.gl/93dHI