quinta-feira, 3 de agosto de 2017


Viajar é fascinante, mas também o desconhecido pode estar dentro de nós

Editoria de Arte/Folhapress
Viajar para ver o mundo, embrenhar-se no desconhecido, é fascinante. Mas o desconhecido pode também estar mais perto: dentro de nós mesmos. "Viagem dos sonhos" é um chavão que pode ser substituído por "viagem nos sonhos". Não precisa ser Freud ou Jung para reconhecer sua importância, mas podemos deixá-los de lado, esquecer as interpretações, e procurar somente a maravilha da transição para este outro mundo sem passagens, malas, alfândegas nem risco de ser persona non grata de Trump.

Começa por observar de fora, e o melhor espetáculo é o das crianças. Não é sempre o mesmo. Das que já ninei na vida, o mais velho era uma moleza. Embora hoje trabalhe com a noite, quando pequeno dormia com as galinhas (infelizmente se levantava com elas também). Era ler uma pequena história, um gibi, e em minutos os olhos piscavam e uma paz tranquila se estabelecia. Na gente, a sensação do dever cumprido, e sem o menor trabalho.

Sua irmã menor, ao contrário, apesar de hoje amar o sono em qualquer circunstância, na infância era refratária ao dormir: pai e mãe, em turnos sucessivos, contavam histórias, cantavam músicas, e ainda deixavam um gravador cantarolando contos infantis, mas o desfecho era o mesmo: uma hora depois, passinhos na escada prenunciavam a frase de sempre, "não consigo dormir".

Num terceiro estilo, meu filhinho ainda em idade de ninar oscila entre os dois: resiste a dormir, porque ama ouvir (e ler) histórias, então dificilmente entrega os pontos, lutando firme contra o inexorável. É preciso decretar o fim das leituras, apagar a luz, e aí, como no tocar de um botão, vem a entrega: uma canção ou duas, mesmo com minha voz de levantar defunto, e logo ele está ressonando.

Eu fico imaginando que diferentes atalhos, em cada caso, a viagem do sono encontra para se apossar de seus rebentos, e de que recursos a realidade lança mão para evitar seu abandono e se infiltrar no novo mundo.

Nunca tive TV no quarto. Filmes, na sala. Na cama, livros. Mas outro recurso às vezes é necessário, quando já de olhos fechados os alicerces do dia se recusam a dissolver-se na vigília e se agarram nas vigas sólidas da consciência. Minha alquimia particular para auxiliar a transição é calar o pensamento tocando mentalmente músicas que me tranquilizam -há muitos anos têm sido peças de piano de Ryuichi Sakamoto. Às vezes funciona.

A não ser no avião, não costumo apelar para a química. Mas em casos de imperiosa necessidade, entrego-me com extremo prazer a tais muletas artificiais. Minhas melhores experiências vinham acontecendo nos periódicos exames de endoscopia, não pelo exame, um pouco desconfortável, mas no antepasto, a dose de anestesia –um certo Dormonid– aplicada gota a gota numa veia qualquer.

Uma viagem rumo à paz que se instala branda e inexoravelmente, e que no passado dava direito até a contagem regressiva. Não sei porque já não a fazem, mas antes a enfermeira ordenava: "Conte de dez a zero de trás para a frente". Nunca cheguei ao zero: a ignição e a partida sempre se antecipavam a mim. Que meio mais seguro de tomar uma droga inebriante do que num hospital, cercado de especialistas?

Só lamento que o avanço da ciência tenha introduzido um outro anestésico, que atende (se estiver acordado) pelo nome de propofol. Não sei do que se trata, mas sua (des)vantagem é que é absolutamente instantâneo e profundo. Não permite aquele pequeno vácuo, aquele mergulho no sossego que o outro me proporcionava enquanto eu deslizava entre o dez e algum ponto antes do zero.

Agora, ouço só duas frases, aparentemente sem qualquer intervalo: "vou aplicar o sedativo / terminou, pode aguardar na sala ao lado". Sem nenhuma mediação. "Tiro e queda", à velocidade de uma bala.

Essa nova droga não me agrada. Traz um sono sem transição, sem vigília, sem aventura, e sem lembranças. Viagem assim não tem graça.

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